quinta-feira, 11 de julho de 2019

UM POUCO SOBRE HEMINGWAY


Muito difícil será que um bom jornalista das antigas não coloque o escritor e também jornalista Ernest Hemingway como uma de suas principais referências. O estilo simples e direto, porém vigoroso, do autor de Por Quem os Sinos, Adeus às Armas, O Sol Também se Levanta, Ter e Não Ter e O Velho e O Mar, seus melhores livros, deram ao escritor americano o prestígio que dura até hoje, mesmo passados 58 anos de sua morte completados no último dia 2.

Hemingway quase fechou com chave de ouro o ciclo virtuoso estabelecido, anos depois, por seu compatriota Jack Kerouac que dizia ter como objetivo de vida: escrever livros, viver intensamente, morrer feliz. A última etapa desse ciclo faltou a Ernest Hemingway, porque não é feliz quem dispara um fuzil de caça contra o céu da boca, numa manhã de julho.
Escrever livros pode ser ótimo, e para Hemingway foi, porque lhe deu fama e fortuna. Seus principais livros, além de venderem horrores em todo mundo, foram levados às telas do cinema e assim, ganharam popularidade ainda maior.
Expor-se aos perigos e vencer desafios eram características da personalidade de Hemingway. O sucesso talvez o tenha levado a desprezar os limites da condição humana. Foi derrotado pelo alcoolismo, diabetes e hipertensão.
Suspeitava-se que sofria também de hemacromatose, uma doença hereditária causada pelo acúmulo excessivo de ferro no organismo.
Não bastasse, sofria também das sequelas de duas quedas de aviões e dos ferimentos decorrentes de suas participações na segunda guerra mundial e na guerra civil espanhola, quando lutou ao lado dos republicanos, anarquistas e comunistas contra o falangistas, monarquistas e católicos, liderados pelo General Franco.
Hemingway amou demais e foi além do seguro e do recomendável em suas paixões, a literatura entre elas.
Teve quatros casamentos, todos fracassados. Elizabeth, Pauline, Martha e Mary. Esta última, o acompanhou até o fim, com abnegação e estoicismo invejáveis. 
Dessas uniões, resultaram três filhos: Jack, Patrick e Gregory. Os filhos de Hemingway são um caso à parte, dariam um livro.
A aparência de um homem forte e destemido, que enfrentava touros ensandecidos nas ruas de Pamplona durante as Festas de San Firmín, em Espanha, e lutava boxe, na verdade escondia um espírito frágil e inseguro que se expunha deliberadamente aos perigos e desafios para se afirmar perante si mesmo.
O pai, Clarence, que era médico, suicidara após sofrer graves perdas financeiras, decorrentes de um investimento imobiliário mal sucedido na Flórida.
Quando o fato se deu, Hemingway tinha 29 anos, e considerou o pai um covarde, talvez não imaginando que, anos depois, tomaria a mesma decisão.
A relação afetuosa com a mãe, Grace, inexistia. Hemingway dizia odiá-la e Grace, ao que consta, culpava o filho pelo suicídio do marido, por razões que jamais se tornaram públicas.
Talvez por isso, tenha enviado ao filho Ernest, o revólver Smith & Wesson, calibre 32, com a qual o marido cometera suicídio.
Grace era uma mulher à frente do seu tempo, foi cantora de ópera, musicista e pintora. Participara ativamente do movimento New Woman, que lutava pelo direito da mulher ao voto. E tentara em vão, estimular o filho Ernest, ainda criança, a aprender tocar violoncelo. Morreu em 1951, exatos dez anos antes do filho famoso.
Hemingway viveu entre 1939 a 1960, em Cuba, onde era conhecido como “Papa”, e desse período feliz de sua vida, destaca-se a amizade com Gregório Fuentes, o capitão de Pilar, o barco de pesca do escritor, que ficava atracado em Cojimar, uma pequena localidade de pescadores a 7 km de Cuba.
Ali, há um pavilhão de frente para o golfo com o busto de Hemingway, que teria se inspirado na atmosfera da cidadezinha para escrever “O Velho e o Mar”, o livro que lhe daria o Prêmio Nobel de Literatura, em 1954.
A propriedade de Hemingway em Cuba, localizada na ilha de São Francisco de Paula foi batizada pelo escritor como Finca La Vigia, e hoje abriga o Museu, pertencente ao estado cubano, e que leva o nome de Ernest Hemingway.
É um local bonito e agradável, onde leitores e admiradores do escritor podem ter contato com objetos que a ele pertenceram e, com um pouco de sorte, reviver a atmosfera do local, quando seu antigo dono ainda estava por lá.

sábado, 1 de junho de 2019

QUE MUNDO É ESSE?


Que mundo é esse onde eu me meti?
Onde o palco é mais importante que o músico
O cenário é mais importante que o artista
A capa é mais importante que o conteúdo
O livro um objeto, o autor abjeto
Onde o nome é mais importante que a criação
Que mundo é esse onde a promessa vale mais que o dever cumprido, o compromisso assumido
Que mundo é esse onde as aparências falam mais que as coisas e as pessoas em si
Que mundo é esse, onde coisas e pessoas são descartadas, dia após dia, a cada minuto
Que mundo é esse, onde não há espaço para a verdade, nem para a realidade
Onde tudo é suposição, e a simplicidade, esquecida, e talvez, quem sabe, jamais será conhecida,
Por aqueles que hoje conduzem esse mundo
Que mundo é esse, onde a fé tornou-se objeto de troca, barganha
E o amor, um ser desconhecido, improvável, irreal, impossível
Que mundo é esse onde tudo se consome, pessoas e coisas, tudo
Com a voracidade do orgulho e do egoísmo
Mundo digital, mundo animal, mundo superficial
Mundo de papel, mundo cruel, mundo infiel
Mundo maldito

terça-feira, 28 de maio de 2019

ESCOLHAS INEVITÁVEIS


Quando as coisas nos irritam
As pessoas e as vozes das pessoas nos incomodam
Quando as ideias alheias nos despertam os piores sentimentos
Quando baixar a cabeça, resignado,
Não significa submissão, mas, indiferença
Quando o deitar do sol é mais bem vindo que o levantar
Quando os caminhos são muitos
Mas nenhum desperta o interesse
Nenhum líquido, pó, corpo, copo
Quando falar e ouvir já não tem significado
Quando deitar o lápis, sobre a mesa, se torna tarefa diária, rotina
Quando adormecer é o momento desejado,
E o silêncio, o consolo esperado
E o despertar é tudo que se deseja evitar
Quando se daria tudo para não ser
E outro tanto, mais ainda, para não existir
Quando não ver é escolha deliberada e consciente
E ajoelhar-se, na pedra gelada, é a espera calada
Do momento inevitável e oportuno
Quando, enfim, aceita-se
Que as trevas são o padrão do universo, o comum
E a luz, exceção
Então, tudo perde importância,
E significado,
Tudo



sexta-feira, 24 de maio de 2019

AS FOLHAS CAEM



O mesmo caminho já percorri,
A mesma dor já esteve aqui
Nesse canto escondido de meu ser
Fechado a sete chaves
Por isso eu entendo os seus olhinhos baixos
Eu sei o que você procura a cada vez
Que percorre as páginas de um livro aberto
Sei o que é essa dor que lhe oprime
E piora quando cai a noite
Sei do seu travesseiro amarfanhado
De tanta procura em vão
Da toalha sob a cama
Sei da roupa na sacola
Nova, intacta, que você não usou
Para quem usaria?
E quando você percorre os cômodos da casa
Durante a noite, eu a vejo
Sei da música que te leva, longe
Da lembrança que a consola, por um momento, um
Apenas um, é o quanto dura
O poder da lembrança de nos fazer feliz, um momento
Por isso entendo os seus olhinhos baixos de agora,
São 6 horas, cai a noite
Sei da sua voz sufocada, e acho que posso ouvi-la
As folhas caem, o vento leva
Leva mais que as folhas, leva a esperança
Leva outra vez, como o faz também a cada manhã
Quando ainda diante de seus olhos está a lembrança
Do sonho vivido durante a noite
O sonho que não ousa abrir a porta da realidade
Por que o faria? Não poderia.
Os seus olhinhos baixos tristes me revelam
E por isso eu sei, o que eles encontrariam
Sei, e se pudesse, eu os faria brilhar e sorrir
Por isso, e apesar de tudo o que vai no meu coração
Eu fico à distância



POESIA NOTURNA



Não tenho saudade de ninguém e de nada,
Não sinto falta, não lembro, não espero
Mas sei o que vivi e o que deixei de viver
É minha história, medíocre, tola, mas é
E não a renego e nem a escondo, não importa
Nem para mim, nem para os meus, nem para ninguém
Não sou daqueles que criticam os de hoje
Não entendem as suas escolhas, não aceitam o seu jeito de ser
Jeito de sentir, vestir e pensar, e agir
É apenas um jeito, e cada geração tem o seu
E nenhuma é melhor, certa, e nem pior que qualquer outra
Que se danem eles, uns e outros
Ressentidos, saudosistas, inconformados
Moderninhos, tolinhos que se acham, porque são o momento
Agora são, mas virá o depois, e eles ficarão
Pelo caminho, o meio do caminho,
Incerto, indeciso, escuro, como eu fiquei
Não espero por deuses do além
Nem duendes do ar
Zero, é assim que começa e assim que termina
Numa caixa quadrada, fechada, por um laço de fita





quinta-feira, 9 de maio de 2019

O MUNDO É LINDO!


Não acreditem quando lhe falam que o mundo é uma porcaria, que a maldade impera nos corações e nas mentes da maioria dos seres humanos.
Porque isso não é verdade. O mal nunca foi soberano, nunca deu as cartas, nunca conduziu nenhum processo evolutivo algum.
Porque a Origem de tudo e de todos, a Consciência onisciente, a Ação onipresente, a Beleza incomparável, a Sabedoria suprema, e a Perfeição é que impera, mesmo que nós não consigamos ainda ver e entender isso.
O mundo é lindo, e está sempre e cada vez melhor.

Hoje, há muito mais pessoas de bem habitando sobre a face da Terra, do que havia ontem.
O progresso, em todas as áreas da atividade e do conhecimento humano é constante e infinito. A cada dia surgem ideias melhores, ações melhores.
Ocorre que, aos nossos olhos, o mal impressiona, assusta, intimida.
O mal faz propaganda de si mesmo. O bem é modesto, é silencioso, é simples, é educado e generoso.
O bem não reivindica reconhecimento e nem autoridade. E porque somos ainda espíritos imperfeitos, aprendizes, sujeitos a falhas, quedas e contradições, temos mais facilidade de identificar o mal, em tudo e em todos.
Mas já é tempo de vermos, pensarmos e agirmos diferente. Tomarmos as rédeas na condução de nossas vidas, nos libertarmos de tudo o que nos oprime, tudo. Tudo mesmo.
Por isso, se uma religião nos diz o que não fazer, ela não nos serve. Porque religião, não é para lançar um véu negro sobre nós, mas, iluminar os nossos caminhos.
Se uma filosofia, nos enclausura em um sistema, seja qual for, ela não nos serve. Porque a filosofia, seja qual for, deve descortinar diante de nossos olhos um novo horizonte, que nos faça enxergar a vida de uma outra maneira, mais positiva e realizadora.
Se uma ideologia política, nos ensina a como vencer o inimigo, ela não nos serve, porque o bem comum, e possível a todos, e a regra de ouro de toda e qualquer ideologia, deveria ser a de nos ensinar a ver o semelhante não como um inimigo a ser derrotado, mas um amigo, com o qual caminhar junto.
O mundo é lindo. Nós é que ainda não somos. Mas, breve, seremos. Seremos, sim.


quarta-feira, 8 de maio de 2019

UM DINHEIRO A MAIS


(Ao amigo Claiton)
Na cozinha, pai e filho conversavam.
“Você não demonstra um pingo de humildade, essa é a questão – disse-lhe o pai, enquanto enxugava a louça do jantar com o pano de prato”.
“Está dizendo isso por que acha que eu deveria cuidar da louça suja ao invés de você?”
“Pode ser”.
O Sr. Max, então uma criança, apenas, abaixou a cabeça, admitindo-se culpado.
“Mas não é tudo” – disse-lhe ainda o pai.
“Bom, pai, se me permite, eu preciso lhe contar sobre uma coisa” – o garoto acreditava com isso desviar o assunto que o incomodava ou ao menos adiá-lo para uma ocasião mais propicia.

“O quê”? – perguntou o pai, curioso.
“Algo realmente interessante que me aconteceu hoje”.
“Onde”?
“No banco”.
O pai deixou o pano sobre a pia e foi para o quintal a fim de alimentar o cachorro com o resto de comida que ficara nos pratos e que ele cuidadosamente havia acondicionado numa vasilha de plástico.
O filho o seguiu.
“Acredita que o caixa do banco me deu mil cruzeiros, pai”?
“Sim – respondeu-lhe o pai – Se conheço o filho que tenho, você não iria mentir a respeito. Mas, qual motivo teria levado ele a praticar tamanha bondade”?
“Bem... Como devo dizer...? Eu dei-lhe o cheque para descontar, como o senhor havia me orientado, e ele...”
“E qual era mesmo o valor do cheque”?
“Quatro mil cruzeiros. E aqui, temos cinco mil” – respondeu-lhe, todo sorridente, apanhando o dinheiro do bolso de dentro da jaqueta e entregando toda a quantia para o pai.
O pai conferiu o dinheiro e separou os mil cruzeiros a mais, em uma das mãos, e o resto do dinheiro, guardou-o no bolso de trás da calça.
“Veja como existem pessoas boas no mundo, pai. Pessoas generosas que parecem enxergar o sofrimento dos outros e procuram ajudar”.
O pai, entendeu que aquele era o momento para elucidar os fatos.
“Não, meu filho. As pessoas boas e generosas são raras neste mundo. Mas as desatentas, são muitas”.
Maxwell fixou os olhos no pai, apreensivo, tentando com muito esforço, entender o que exatamente o pai queria lhe dizer com isso.
“Filho, sejamos sinceros, o funcionário do banco, não teve a intenção de ajudá-lo. Na verdade, ele se enganou. E lhe deu dinheiro a mais”.
O menino sentiu-se decepcionado, e não sabia ao certo, se aquele sentimento, que agora lhe sufocava o peito, era causado pelo pai ou pelo funcionário do banco.
“Amanhã, bem cedo, você retorne ao banco e devolve esses mil cruzeiros nas mãos de quem o entregou indevidamente”.
“Mas pai, são mil cruzeiros, já daria pra pagar a farmácia e a padaria esse mês”! – tentou argumentar.
“Filho, faça o que eu estou dizendo. Porque é o correto”.
Na manhã seguinte, o garoto retornou ao banco e logo encontrou com o funcionário que o havia atendido no dia anterior.
“Com licença. Lembra-se de mim”?
“Creio que sim. Em que posso ajudá-lo”?
“Vim lhe devolver esses mil cruzeiros, que você me deu a mais, quando descontou o cheque ontem. Lembra-se”?
O atendente do caixa, olhou para o menino, e a tensão que havia em seu olhar se desfez completamente. Seus olhos, de repente, encheram-se de lágrimas.
“Ah, meu Deus! Graças a Deus”!
Eles se olhavam um para o outro. No semblante do menino, apreensão, e medo, de como a sua atitude seria interpretada por aquele homem.
“Como você se chama, garoto”?
“Maxwell”.
“Deus o abençoe, Maxwell. Que alma boa e generosa você tem. Que Deus o conserve sempre assim. Não tenho como lhe agradecer”.
“Não é necessário. Eu fiz o que era correto”.
“Sim. Mas, esse dinheiro faltou ontem no meu caixa. E quando isso acontece, o banco desconta do nosso salário. E eu preciso muito desse dinheiro para cuidar de minha mãe doente”.
Eu entendo. Minha mãe também é doente, moço. E nós devemos na farmácia e na padaria. E já faz dois meses. E não temos dinheiro suficiente para pagar. Este cheque, meu pai tomou emprestado de um agiota. E talvez não possa honrá-lo no prazo devido.
Mas não disse isso. Despediu-se e foi embora. Estava tão feliz devido fato de um estranho ter reconhecido o seu valor humano que a decepção e as preocupações, por um momento, desapareceram de sua mente.
Baseado num fato verídico.


quarta-feira, 1 de maio de 2019

SALVE, SENNA!


O que vou escrever agora vai incomodar muita gente. Tudo bem. Respeito opiniões em contrário. Sou adepto da filosofia do Sr. Arouet, também conhecido, nos bares de Paris do século XVIII, como Voltaire.
Então vamos lá. O escocês Jackie Stewart, também tricampeão mundial de fórmula 1, durante muito tempo detentor do número de vitórias da categoria, 27, ao todo, encerrou a carreira já famoso, rico e consagrado, quando viu o amigo de equipe Tyrrel, o francês François Cevért, espatifar sua máquina nos treinos classificatórios para o GP dos Estados Unidos, no autódromo de Watkins Glen em 1973.
Stewart prosseguiu no circo da badalada fórmula 1 ao longo dos anos, mas, fora das pistas, sempre requisitado, devido seu prestígio, atuando como consultor de equipes e comentarista de tevê, fez dupla memorável com o lendário Murray Walker na BBC de Londres. Foi também, em determinada época, dono e chefe de equipe que levava seu nome e onde pilotou o brasileiro Rubens Barrichello.
A mesma iniciativa, digo, sabedoria, de parar no auge da carreira, para desfrutar as glórias que conquistou merecidamente nas pistas, ao lado de familiares, amigos e fãs, não teve o também tricampeão mundial Ayrton Senna da Silva.

Piloto genial, o mundo assim o reconhece, e de fato era, Senna se expunha, para além do limite de si mesmo e da máquina que pilotava, expondo também ao perigo desnecessário, seus companheiros de profissão, como na decisão do título em 1990, com o rival Alain Prost, da França.
Se foi ou não o melhor piloto do mundo, é matéria para discussão. Foi sem dúvida um dos grandes do automobilismo mundial, em todos os tempos. E, de certa forma, sua ousadia, satisfazia aos anseios reprimidos de muitas pessoas para as quais faltava a coragem que a Senna sobrava.
A fórmula 1 é um esporte em que a máquina é a outra metade, a extensão do piloto e vice-versa. E, atrás da máquina, há muita gente que trabalha com afinco e talento para que máquina e piloto se tornem vencedores.
É bem sabido que ao contrário do também brasileiro e também tricampeão mundial Nelson Piquet, Senna nunca foi um acertador de carros, nunca se preocupou em acrescentar nada ao trabalho de engenheiros e mecânicos que aumentassem a capacidade de competir da máquina. O que ele sempre queria e teve, a partir de determinado momento de sua carreira, quando passou a vencer, foram os melhores engenheiros, mecânicos, motores e pneus à sua disposição. Isso não tira os seus méritos, na verdade, define o seu estilo de trabalhar. Quando entrava no seu bólido e sentava o pé no pedal da direita era difícil vencê-lo nas retas e curvas dos autódromos do mundo.
Os gênios, e Senna era um deles, na sua profissão, excedem algumas vezes nas atitudes que tomam, mas, tais excessos atingem os parâmetros da loucura, quando se pratica um esporte perigosíssimo por natureza, como a fórmula 1.
Além do desporto, a maior vitória de Senna, foi a criação da Fundação que leva seu nome e que beneficia milhares de crianças, hoje conduzida por sua irmã Viviane.
Como esportista que fizera os brasileiros e fãs do mundo todo grudar os olhos na tevê nos 10 anos em que competiu na fórmula 1, pilotando para as equipes Tolleman, Lotus e McLaren, Senna deixa saudade. Por seu talento, determinação e coragem, deixa também um importante legado. Como poucos, Senna extrapolou a dimensão humana, comum a todos nós, para alcançar a condição de mito reverenciado por muitas gerações.
Senna encerrou a vida e uma das mais belas e admiráveis carreiras esportivas, do modo como mais apreciava e trabalhava sempre muito duro para isso: na sétima volta do GP de San Marino, na Itália, em 1994, numa curva chamada Tamburello, em primeiro lugar.
Salve, Senna!


segunda-feira, 29 de abril de 2019

SOB OS MEUS PÉS


O meu chão é frágil
E eu não tenho mais onde me apoiar
É como se eu estivesse perdido na mata
Ao vento, em alto-mar
Tentando me equilibrar sobre as águas
Em desespero, antes de me afundar
Sinto-me só, nu, no deserto
Rajadas de vento e areia cobrem meu corpo,
Agora deitado, inerte, como que abandonado
Sinto-me livre, porque longe,
Embora preso, porque desperto, vejo
Que nada termina, sem que haja resposta
O meu chão é frágil
Está rachado sob os meus pés
Os meus passos são lentos, incertos
Ao longe as montanhas tremem
As aves balançam no céu
E o vento, nervoso, canta
O seu desespero, o meu tormento
Vejo, passivo, impotente,
Tentando me equilibrar
Sobre o chão, que se rompe, abaixo de mim,
O dia partir e chegar
O meu chão é frágil
É como se eu hesitasse
A cada momento em suspenso, evitado
O passo seguinte
Meu corpo treme, não se sustenta
Tenta, por um instante, um movimento
Que pudesse me libertar
Vai se desfazendo, contudo
Como areia na ampulheta
Ao longe o vento vai
E leva muitos consigo
E mais uma vez como sempre
Temente a Deus, a voz poderosa
Que o chama ao infinito
De mim se esquece
O meu chão é frágil
Os meus pés, porém, ficarão
E eu, como sempre, evitarei, o passo seguinte.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

NOTÍCIAS DE ONTEM


As voltas que o mundo dá. Há 40 anos, a introdução de uma das matérias da saudosa revista Manchete dizia: “Um garotinho bebendo Coca-Cola na grande muralha talvez seja o símbolo máximo da conquista da China pelos Estados Unidos”.
Na China de 40 anos atrás vivia-se a abertura para o Ocidente promovida pelo líder Den Xiao Ping. Segundo a matéria assinada pelo jornalista Justino Martins, as mulheres vestindo saias rodadas ensaiavam os primeiros passos de rock, orientadas por jovens americanos. E a criançada dava um rolê de skate entre uma Coca-Cola e outra. Os bailes públicos, promovidos pelo governo comunista chinês, era visto pelos mais conservadores como uma submissão à decadência social americana. Jovens chineses num ato de rebeldia escreviam nos muros de Pequim: “Faço amor com quem eu quiser”.
Nada mal se pensarmos que, no Ocidente, houve tempo em que era preciso peticionar à sua Majestade para ter relações sexuais. Ao menos é o que nos informa os alfarrábios digitais tão em moda.
Quarenta anos depois, o parafuso deu lá suas voltas, e parece que a China é que conquistou os Estados Unidos. Se não no aspecto cultural e na introdução de hábitos e costumes orientais na sempre descolada e inventiva sociedade americana, mas, certamente, no financeiro.

Mas o papo é outro. Dizia um anúncio da mesma finada revista que já naqueles idos de 1979, havia uma preocupação quase obsessiva para tratar de obesidade, ao menos é o que indicava o 1º. Simpósio Internacional sobre o tema, realizado no Rio de Janeiro, com a devida reprovação de bares e choperias, segundo alguns colunistas sociais da época.
Percorrendo as páginas da extinta Manchete, que era por assim dizer, uma mistureba de Veja com Caras, descubro que era no Morro do Sapo que o famigerado Esquadrão da Morte fazia as suas desovas. Naquela oportunidade, haviam sido apenas 3, mas os números atualizados informavam um total de 199 execuções. Números modestos se comparados aos praticados hoje por milícias e facções do crime organizado.
Mas não era só de sangue a que se reportava a revista que tinha o visionário Adolfo Bloch à sua frente. Enfim, pude ver a cara do primeiro bebê de proveta. Porque naquele 1979, então com 10 anos de idade, não tive a satisfação. Tratava-se de um bebê lindo, loirinho e sorridente de nome Louise Brown, então, com 8 meses de vida. Falava a matéria de seu passeio na Disneylândia (bebê de proveta americano são outros quinhentos, meu caro!) e do nascimento dos seus primeiros e lindos quatro dentinhos. Que bonitinhos!
Há 40 anos, o Márcio Braga era presidente do Flamengo (grande coisa!), e a bola com a qual se jogava futebol nos campos do Brasil, era a Drible. Por falar nisso, algum barrigudo inveterado leitor de revistas e jornais, contando mais de 60 primaveras, se lembra, por acaso, que o ministro da Comunicação Social, há exatos 40 anos, se chamava Said Farhat? Mande cartas para a redação.
E a companhia Varig dizia aos seus passageiros num sugestivo anúncio de página inteira: “Somos mais que bons amigos”. Devia ter dito isso também ao governo. Ao menos enviado um Telex. Quem sabe teria tido melhor sorte.
Sim, as voltas que o mundo dá! Já dizia o filósofo Nércio Praxedes, 2019 depois de Cristo. Morreu semana passada. Pobrezinho! Foi enterrado às 3 da tarde. Pouca gente no velório. Pessoas inteligentes e que ousam pensar são evitadas nesse país de sábios, mesmo depois de mortas.
Folheando, folheando e plagiando o Jota Flores, chego à página 28, ainda com a xícara de café na mão, aquele ar de menino curioso, o óculos caído sobre o nariz. E me deparo com o Dr. Sardinha, também conhecido nas horas vagas como Jô Soares, o humorista, matéria de capa, inclusive, naquela edição, e seu encontro memorável com Delfim Netto, então ministro da Agricultura. Ah, te peguei, heim, desatento leitor! Pensou que eu iria dizer Planejamento, né? Danadinho! Nem vou mencionar o teor da conversa. Mas, imagine caro leitor, que ambos os gordinhos falaram muito sobre abobrinhas e pepinos.
Bom, eu tinha muito mais coisa pra escrever, mas, como diria o finado Ibrahim, “Ademã, que eu vou em frente”.



terça-feira, 23 de abril de 2019

DEMAIS DA CONTA


Carros demais e ruas de menos. Informações demais e relevância de menos. Gente demais ocupando espaço de menos.
Espaço ocioso demais por toda parte, terras à perder de vista, sem nenhuma ocupação ou utilidade.
Imóveis demais, desocupados, se deteriorando, e procriando a perder de vistas, o famigerado mosquitinho mortal.
Filmes demais, a cada canal, e a cada minuto. Músicas demais, ouvidos de menos. Músicas?
Gente demais, falando muito, ao telefone, por qualquer meio, sem ter o que falar, apenas pelo simples fato de se auto afirmar perante a si mesmo e o mundo. Oh, tola e boçal necessidade!
Religião demais, profetas demais, cristãos de verdade, de menos, cada vez menos. Dinheiro demais, em poucas mãos, pouquíssimas. Direitos demais, deveres de menos.

Arte e cultura demais, conteúdo de menos. Futebol demais, na tevê, rádio, jornal, internet, e jogo bom, que é bom, nada, ou quase nada. O quase, fica bem distante daqui, lá do outro lado do mundo.
Promessas, projetos demais, realizações de menos. Tudo excede à necessidade nesse mundo rápido, hostil, em que tudo é descartável, até mesmo as pessoas.
Pensa-se demais, sonha-se demais, e faz-se tão pouco. Porque o fazer demanda tempo, esforço, trabalho, correção, interrupção, recomeço. Ah, isso não!
Alimentos agora, até na impressora terceira dimensão. Pra que plantar? Pra que colher? Difícil não é imaginar para onde caminhamos. Difícil é mensurar as consequências do nosso suicídio lento, gradual, constante.
Confunde-se evolução com perdição. Consumir com felicidade. Produzir coisas com realização pessoal. Opta-se pela porta larga, mais atraente e sedutora, porém, fatal.
E fazemos tudo isso, de modo bestial, sem nenhum constrangimento, mesmo sabendo, de antemão, que aqui estamos, por um tempo, vivendo uma experiência, e nada além disso, mas aqui não ficaremos.
Bicho homem. Como você é estúpido!

quinta-feira, 18 de abril de 2019

TODAS AS DORES DO MUNDO


Todas as dores do mundo
Às vezes, posso senti-las
Como se sufocassem
A minha vontade
De ser feliz
E impedissem
O meu caminhar
E me fizessem
Deitar
O rosto no chão
E ao fechar os olhos
Ouvir
O zumbido do alto
Sobre minha cabeça
E me ver envolvido
Pela escuridão
Dos dias que se aproximam
Todas as dores do mundo
Por vezes, posso senti-las
Como se impusessem
Sobre mim
O peso do mundo
Que não posso suportar
A minha esperança
Ferida, fugaz
Que vai e vem
Como as ondas do mar revolto
Onde me encontro,
Náufrago de mim mesmo
Espero de novo
Que o sol brilhe
E se desfaçam as nuvens
Que tornam meus dias
Escuridão
Todas as dores do mundo
Por vezes, posso senti-las
Enquanto caminho
Par e passo
Com minha solidão
Seja noite ou dia
Manhã ou entardecer
Sempre juntos, eu e ela
Solidão
Que me apanhou
Em algum momento
Descuidado de minha vida
Já faz tempo
Jeans e camiseta
Eu vestia
Tênis surrado nos pés
Pés arrastando-se no chão
E mãos, nos bolsos
Da calça rasgada
Que não era moda, mas vergonha
Miséria
Todas as dores do mundo
Por vezes, ainda posso senti-las
Mesmo sabendo que meus dias
Restam poucos,
Minha história
Já quase concluída
Porque, agora percebo
Vai acabando o lápis
Vão sumindo as folhas
E diante de mim
As imagens
Também desaparecem
Aos poucos
Desaparecem as cores
E os sons
Fica a solidão
Cravada em meu peito
E todas as dores do mundo
Mesmo passado tanto tempo,
Percorrido tanto chão
E visto tanta coisa
Mesmo derramado
Tantas lágrimas, às escondidas
No quarto reservado
Da minha tarde escura
Que demora a passar
E todas as dores do mundo
Como um peso
Insuportável sobre mim
Eu continuo a senti-las
Venha megera dama
Vestida de branco
Me libertar