quarta-feira, 8 de maio de 2019

UM DINHEIRO A MAIS


(Ao amigo Claiton)
Na cozinha, pai e filho conversavam.
“Você não demonstra um pingo de humildade, essa é a questão – disse-lhe o pai, enquanto enxugava a louça do jantar com o pano de prato”.
“Está dizendo isso por que acha que eu deveria cuidar da louça suja ao invés de você?”
“Pode ser”.
O Sr. Max, então uma criança, apenas, abaixou a cabeça, admitindo-se culpado.
“Mas não é tudo” – disse-lhe ainda o pai.
“Bom, pai, se me permite, eu preciso lhe contar sobre uma coisa” – o garoto acreditava com isso desviar o assunto que o incomodava ou ao menos adiá-lo para uma ocasião mais propicia.

“O quê”? – perguntou o pai, curioso.
“Algo realmente interessante que me aconteceu hoje”.
“Onde”?
“No banco”.
O pai deixou o pano sobre a pia e foi para o quintal a fim de alimentar o cachorro com o resto de comida que ficara nos pratos e que ele cuidadosamente havia acondicionado numa vasilha de plástico.
O filho o seguiu.
“Acredita que o caixa do banco me deu mil cruzeiros, pai”?
“Sim – respondeu-lhe o pai – Se conheço o filho que tenho, você não iria mentir a respeito. Mas, qual motivo teria levado ele a praticar tamanha bondade”?
“Bem... Como devo dizer...? Eu dei-lhe o cheque para descontar, como o senhor havia me orientado, e ele...”
“E qual era mesmo o valor do cheque”?
“Quatro mil cruzeiros. E aqui, temos cinco mil” – respondeu-lhe, todo sorridente, apanhando o dinheiro do bolso de dentro da jaqueta e entregando toda a quantia para o pai.
O pai conferiu o dinheiro e separou os mil cruzeiros a mais, em uma das mãos, e o resto do dinheiro, guardou-o no bolso de trás da calça.
“Veja como existem pessoas boas no mundo, pai. Pessoas generosas que parecem enxergar o sofrimento dos outros e procuram ajudar”.
O pai, entendeu que aquele era o momento para elucidar os fatos.
“Não, meu filho. As pessoas boas e generosas são raras neste mundo. Mas as desatentas, são muitas”.
Maxwell fixou os olhos no pai, apreensivo, tentando com muito esforço, entender o que exatamente o pai queria lhe dizer com isso.
“Filho, sejamos sinceros, o funcionário do banco, não teve a intenção de ajudá-lo. Na verdade, ele se enganou. E lhe deu dinheiro a mais”.
O menino sentiu-se decepcionado, e não sabia ao certo, se aquele sentimento, que agora lhe sufocava o peito, era causado pelo pai ou pelo funcionário do banco.
“Amanhã, bem cedo, você retorne ao banco e devolve esses mil cruzeiros nas mãos de quem o entregou indevidamente”.
“Mas pai, são mil cruzeiros, já daria pra pagar a farmácia e a padaria esse mês”! – tentou argumentar.
“Filho, faça o que eu estou dizendo. Porque é o correto”.
Na manhã seguinte, o garoto retornou ao banco e logo encontrou com o funcionário que o havia atendido no dia anterior.
“Com licença. Lembra-se de mim”?
“Creio que sim. Em que posso ajudá-lo”?
“Vim lhe devolver esses mil cruzeiros, que você me deu a mais, quando descontou o cheque ontem. Lembra-se”?
O atendente do caixa, olhou para o menino, e a tensão que havia em seu olhar se desfez completamente. Seus olhos, de repente, encheram-se de lágrimas.
“Ah, meu Deus! Graças a Deus”!
Eles se olhavam um para o outro. No semblante do menino, apreensão, e medo, de como a sua atitude seria interpretada por aquele homem.
“Como você se chama, garoto”?
“Maxwell”.
“Deus o abençoe, Maxwell. Que alma boa e generosa você tem. Que Deus o conserve sempre assim. Não tenho como lhe agradecer”.
“Não é necessário. Eu fiz o que era correto”.
“Sim. Mas, esse dinheiro faltou ontem no meu caixa. E quando isso acontece, o banco desconta do nosso salário. E eu preciso muito desse dinheiro para cuidar de minha mãe doente”.
Eu entendo. Minha mãe também é doente, moço. E nós devemos na farmácia e na padaria. E já faz dois meses. E não temos dinheiro suficiente para pagar. Este cheque, meu pai tomou emprestado de um agiota. E talvez não possa honrá-lo no prazo devido.
Mas não disse isso. Despediu-se e foi embora. Estava tão feliz devido fato de um estranho ter reconhecido o seu valor humano que a decepção e as preocupações, por um momento, desapareceram de sua mente.
Baseado num fato verídico.


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