Tanto tempo se passou,
mas a derrota na Copa de 1982 ainda produz seus maléficos efeitos para o
futebol brasileiro. A partir dali, predominou a ideia da vitória a qualquer
custo. Melhor ganhar mesmo que jogando mal. Completava-se 12 anos sem a seleção
conquistar um título mundial. Tempo demais para o orgulho do brasileiro, que se
considerava dono do melhor futebol do mundo. Mas como poderia ser o melhor do
mundo se pela terceira vez consecutiva o tão almejado tetra lhe escapara?
Engraçado. A Copa do Mundo acontece a cada 4 anos. E naquele ano de 1982, como
nos anteriores, o futebol acontecia a cada domingo, e vez, em quando às
quartas-feiras. Então, porque fazer drama com a perda de um mundial, mais um,
porque o Brasil já havia perdido outros oito. Sim, oito! E viria a perder
outros tantos.
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| Foto: Reprodução |
Voltando no tempo, nos
idos de 1970/80, época em que o futebol no Brasil ganha projeção e importância
de uma “pátria de chuteiras”, nos grandes centros, construíasse estádios com
capacidade de público de dezenas, centenas de milhares de pessoas, disputava-se
um campeonato brasileiro com centenas de clubes oriundos de todas as partes do
país, e estaduais disputados a tapa, tapetão, e a peso de ouro, os árbitros e os
goleiros da vida que o digam, pelos grandes clubes das capitais devido sua
importância.
Nas cidades do interior
do país, um dos programas favoritos de domingo à tarde, além do Silvio Santos
na TV Tupi, era ir aos estádios, geralmente acanhados, para acompanhar os Velo
Clube e os Rio Claro da vida, na luta pelo tão sonhado acesso à elite do
futebol estadual, quando então, finalmente, se poderia ver os craques dos
grandes times da capital, desfilando sua arte de jogar futebol, nos mesmos
acanhados estádios. Ah, sim, levava-se o radinho de pilha para acompanhar as
transmissões dos jogos do Parmêra, do Cúrintia e o jornal para saber as
escalações e as novidades do time da casa e do adversário. Ou para forrar o
assento, na falta de coisa melhor. Estréia de um jogador dava direito a foto do
sujeito no jornal na esperada edição de domingo, a palavra do técnico para os microfones
dos lépidos repórteres de rádio, a expectativa em torno do acontecimento que
movimentava a cidade. Nas praças e nos bares, nas filas dos bancos e das lotéricas
não se falava outra coisa.
Este cenário era
possível porque até então a tevê não havia dominado o futebol. Transmitia as
finais e os jogos mais importantes de seu interesse, como bem explica o
ex-superintendente da Rede Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni,
em uma entrevista. Para ele, a partir de 1993, que coincide com sua saída da
emissora, a Globo passou a considerar o futebol como um produto de sua grade de
programação. Pagava caro para tê-lo com exclusividade (como já fizera na Copa
do Mundo de 1982) e como qualquer investidor, queria o melhor retorno
financeiro possível.
Voltando ao aspecto
técnico do futebol que nos interessa. A vitória, como todos sabem só é possível
ao time que marcar mais gols. E nisto se resume a justiça do futebol. Por mais
que comentaristas especializados e torcedores tentem encontrar pelo em ovo. Em
tese, ganha jogos o time que jogar um bom futebol. O que significa ser mais
eficiente que o adversário tanto na defesa como no ataque.
Dentre os esportes
coletivos, só o futebol premia a igualdade no placar ao final do jogo entre os
competidores, sabe-se lá por qual motivo. Se o empate significasse prejuízo
para ambos os times, como por exemplo, a perda de um ponto para cada um na
tabela de classificação, talvez as equipes se empenhassem mais em vencer do que
em não perder. Assim, haveriam jogos com mais gols. E necessariamente, os
técnicos teriam de reavaliar os seus conceitos e modificar seus esquemas
táticos
Em todo mundo, mas a
partir da Europa, principalmente, os esquemas táticos que, em princípio eram
montados para os times marcarem gols, aos poucos, foram se modificando para os
times não sofrerem gols. Foi-se da fartura dos 5 atacantes das primeiras
formações dos times, nos primórdios do futebol, para a miserável formação com
um atacante que predomina na atualidade.
Um grande artilheiro de
antigamente marcava dezenas de gols, não em uma temporada, mas em um campeonato.
Não importava se jogasse em um time grande ou pequeno. Um camisa 10 era o
craque do time. Um camisa 5 era o que encerrava a jogada do adversário,
roubando-lhe a bola, e iniciava a jogada do seu time, com um passe preciso para
os armadores e os atacantes, ou uma virada de jogo, após limpar a jogada. Acho
que falei difícil. Desculpe leitor.
Até meados dos anos
1970, início dos anos 1980, havia mais espaço em campo para os times
desenvolverem suas jogadas. O jogo era mais lento, embora não menos dinâmico, e,
os jogadores, menos preparados fisicamente, quando eram. Isso permitia
reviravolta nos placares, geralmente ao final das partidas. Permitia as
tabelas, os dribles desconcertantes que desmontavam sistemas defensivos, e o
tão decantado toque de bola do futebol brasileiro, qualidade considerada nos
dias de hoje desnecessária e ultrapassada por uns, mas que confessadamente
imitada fora pelo maior time que se viu jogar nos últimos tempos, o Barcelona
treinado por Pepe Guardiola.
A profissionalização do
futebol e seu aperfeiçoamento ao longo do tempo, possibilitou que dele fizessem
parte outros profissionais, como os da Educação Física. O jogador, aquele que
primava pela técnica, que sabia driblar, correr com a bola, sabia dominar a
bola e chutá-la com perfeição, sabia cabecear e passar a bola corretamente para
seu companheiro de equipe foi aos poucos desaparecendo para então surgir a
figura do atleta. Forte, capaz de correr todo o campo, durante 90 minutos
cansando-se pouco. E em condições de desempenhar as funções táticas
determinadas pelo técnico, saído geralmente das universidades, e que, aos
poucos, devido seu conhecimento teórico, sua facilidade em convencer os
atletas, mediante promessas geralmente jamais cumpridas, e de se comunicar com
a imprensa, e devido também seus esquemas táticos mirabolantes, e, portanto
fascinantes, mas pouco executáveis e em sua maioria incompreensíveis para o
atleta, portanto ineficientes, foi ocupando o espaço antes dominado pelo
treinador, aquele que de fato treinava os fundamentos do jogo, à exaustão, que
gritava pra botar a casa em ordem, que escalava o onze inicial, o burro ou o
gênio, na boca dos torcedores e da imprensa, conforme o resultado da partida e
das alterações que fazia no time durante o jogo. Verdade, burro ou gênio, e
pelos mesmos motivos eles eram e continuam sendo. O outrora treinador e agora
técnico passou a ter uma importância que não tinha.
Outra diferença,
daqueles tempos para os de hoje. As entrevistas concedidas à imprensa. Para
maior organização e tratamento igual a todos os profissionais incumbidos de
levar a emoção do futebol ao torcedor, através dos rádios, jornais, sites e
tevês as indispensáveis entrevistas passaram a ser coletivas. Não se ouvirá
mais pérolas, próprias das entrevistas feitas no calor dos acontecimentos, como
a do jogador Adãozinho, do Corinthians, quando perguntado sobre o que faria com
o motorádio (marca de um radinho de pilha) que ganhara por ser o melhor do
jogo, dissera, diz a lenda, que a moto ficaria com ele, e o rádio enviaria para
a santa senhora sua mãe, no Piauí. Hoje atleta tem assessor de imprensa. Sabe o
que, quando e como falar. Tudo bonitinho e ensaiadinho. Ok. Melhor assim, dizem
eles. Não sei, tenho minhas dúvidas. Organização demais, inspiração de menos.
Acalme-se e acomode-se,
leitor, que vem mais desgraça por aí. E elas se acham na malfadada categoria de
base dos clubes de futebol. Zico, o Galinho de Ouro da Gávea, ídolo eterno do
Flamengo, o time de maior torcida do país, autor de mais de 500 gols em sua
carreira profissional e de inúmeros títulos, terceiro maior artilheiro da
seleção brasileira, atrás apenas de Pelé e Ronaldo, disse em um documentário
que o imortal Flamengo, campeoníssimo de sua época, jogava em dois toques na
bola da intermediária defensiva para a ofensiva, em direção ao gol adversário.
E que muitas jogadas realizadas com êxito nos jogos eram repetidas
exaustivamente nos treinos até que saíssem com naturalidade. Onde ele e seus
companheiros aprenderam isso? Nos infantis, mirins, e juvenis que era como se
chamavam as categorias de base de antigamente, treinadas sempre por
ex-jogadores profissionais que ensinavam aos garotos os fundamentos do futebol:
dominar, chutar, cabecear, passar a bola. E é claro, aprimorar o drible em
direção ao gol adversário. Aprimorar, porque o drible era criação espontânea do
garoto, que, via de regra, acordava e ia dormir grudado com uma bola de
futebol, porque sonhava ser um craque, jogar no time do seu coração, feito o
Zico, e comprar a casinha para a mamãe. Hoje, técnico de categoria de base,
entope a cabeça do jovem atleta com teorias e esquemas táticos. “Você tem de
fazer o que eu mando e não o que você quer”. É comum ouvir isso da boca de um
treinador de categorias de base, dirigindo-se a um garoto treinado por ele. Tal
linguajar até alguns anos, só era ouvido entre os profissionais. E o técnico
que fazia isso geralmente perdia a liderança sobre o grupo, que o derrubaria na
primeira oportunidade, a menos que este grupo fosse mercenário em sua maioria,
ou que esse técnico não se chamasse Vanderlei Luxemburgo, que, nos seus melhores
dias, era tolerado, porque seus times venciam, conquistavam títulos, e sabe-se
que com isso atletas conseguem melhores contratos, são valorizados, porque
integram um time vencedor.
É sabido, por exemplo,
que, no Barcelona, da Espanha, os garotos até os 17 anos de idade não executam
treinamentos táticos, que serão inúteis se antes eles não souberem praticar com
eficiência os fundamentos do futebol aqui já citados, não souberem driblar e se
movimentarem em campo, de modo a encontrarem espaço para jogarem ou seja, para
exercerem a sua habilidade com a bola.
Tal metodologia cairia
como uma luva no futebol brasileiro. Cairia. Mas acontece que no Brasil,
treinador da base, não quer ser treinador da base para sempre, quer treinar
time profissional. A base é para ele tão somente uma etapa a percorrer no
desenvolvimento de sua carreira.
Então o que se vê são
times das categorias sub-13 sub-15, sub-17, arrumadinhos em campo, como se diz
na gíria do futebol, mas sem criatividade, sem ousadia, sem que nenhum jogador,
salvo raras exceções, se destaque por sua habilidade técnica. São times feitos
não para jogar bem, não para permitir que os jogadores, imbuídos de espírito
coletivo e de competição desenvolvam o seu melhor potencial. Mas para
conquistar (sempre às duras penas) torneios inexpressivos, que nenhum peso terá
para efeito de currículo na possível carreira profissional do futuro atleta. E
desse modo, encher a burra dos empresários, e fazer a fama dos técnicos
(campeões da base, ora vejam só, que glória!) dos quais, os meninos, sempre
sonhadores, próprio da idade, esperam por um contato. Treinador bom da base é o
que revela jogador para o time profissional. Nisso consiste sua missão. Não
colecionar títulos. Ele não deve ter como objetivo ser campeão, mas, formar um
futuro campeão.
As categorias de base,
dos times do interior, que eram em anos idos o celeiro de craques para o
futebol brasileiro, estão terceirizadas, dominadas por empresários, porque os
clubes estão falidos, entregues às moscas, e só servem mesmo como vitrines para
que esses mesmos empresários exponham ali o seu produto, digo, atleta.
Essa é a realidade. O
futebol no Brasil, em nível técnico, está cada vez pior e só tende a piorar. E
esse era o último bastião a ser vencido, pela ignorância daqueles que usam o
futebol apenas para obterem lucros.
Não está longe o tempo
em que ficaremos fora de uma Copa do Mundo, se valer apenas a realidade do
campo de jogo. Daí talvez acordem todos que se interessem pelo futebol, pelo
futebol bem jogado, aquele que desperta o interesse no público, que cativa o
torcedor, que o vincula emocionalmente ao clube para o qual torce. E espero
que, ao acordarem não seja tarde.
Há 20 anos nos descabelávamos
com o Zinho Enceradeira, hoje, na mesma posição, vemos atônitos, jogar o Fred.
Não aquele, o outro. De onde veio o novo Fred, por sinal? Alguém sabe? Mas não
é tudo! Há 20 anos, alguns execravam o Dunga, sim, o
próprio, e hoje, na mesma posição, estarrecidos, vemos um certo
Fernandinho envergar a mesma camisa do já saudoso Zito.
É possível que alguém
esteja pensando agora, mas depois de 1982, ganhamos outras duas Copas do Mundo.
Sim, mesmo não jogando um bom futebol. Ganhamos dependendo exclusivamente de
valores individuais como Romário e Bebeto, Ronaldo e Rivaldo e Tafarel.
Será que nosso gozo
possível com o futebol, deixou de ser a diversão garantida dos finais de
semana, para uma espera geralmente frustrante, de cada 4 anos? O futebol
brasileiro resiste a isso?
Da mesma forma, em
relação aos clubes brasileiros, os que disputam o campeonato nacional, e
antecipadamente já se consideram satisfeitos com uma possível classificação
para a Copa Libertadores da América. E a gana pelo título, a vontade de
conquistá-lo? Segundo, terceiro, quarto lugar? Isso basta? Nos acostumamos a
isso?
Você, torcedor, vai ao
estádio para ver seu time jogar um bom futebol e vencer os adversários? Ou para
tirar uma selfie e postar no Facebook? Qual é a sua
torcedor?
O futebol brasileiro
está medíocre tecnicamente e chato, porque está dominado por bandidos
quadrilheiros que dele usurpam deliberada e impunemente em benefício próprio.
Por que está exposto ao extremo, está saturado, desinteressante cada vez mais,
desaparecendo aos poucos das periferias, perdendo espaço entre as motivações da
garotada para os tablets,
celulares da vida, porque está presente diariamente, à exaustão, a cada minuto,
em todas as mídias possíveis. O futebol brasileiro, hoje, não é somente um
produto da tevê. É refém dela. Será até quando?
E pensar que neste
domingo, 21, enquanto nosso selecionado estará órfão de seu maior
craque, seu camisa 10, brigando contra sua própria mediocridade e contra a
inexpressiva Venezuela por uma vaga às quartas-de-final da Copa América em
disputa, completa-se 45 anos do nosso Tri-Mundial, talvez a maior exibição de
futebol em todos os tempos. De fato, era uma vez... o futebol brasileiro.