Sid Wallace era daqueles que preferia um belo
pingado e um pão com manteiga, na chapa. Hábito
adquirido na infância, quando o pai, o acordava nas manhãs de domingo para
acompanhar as corridas de fórmula 1, na época em que o Copersucar do Fittipaldi
colecionava fracassos. Sid sonhava com o dia, ou melhor, a manhã, em que
ouviria o narrador Luciano do Valle soltar para o nosso Don Quixote das pistas
o seu indefectível: “Sensacional! Esplêndido, esplêndido!” da mesma forma como
fazia a cada defesa miraculosa do goleiro Emerson Leão, ao defender as cores da
Sociedade Esportiva Palmeiras ou do selecionado brasileiro.
Voltemos ao café da manhã de Sid Wallace. Demorou a
que sua esposa, a eficiente e dedicada jornalista Vivian Velvet se acostumasse
com as manias do maridinho. Entre a vida de namoro e a de casado há uma
Visconde do Rio Claro que as separa. Mas qualquer diferença era resolvida à
noite, na penumbra do quarto, (Sid às vezes esquecia-se de pagar a conta de
luz) sobre o inigualável colchão King Star, com molas ensacadas, de modo que
quando um se mexe o outro não sente. Mas onde será que o redator publicitário
tirou essa pérola: quando um se mexe o outro não sente. Colchão pra dormir, só
pode ser! Logo não haverá mais herdeiros nos domínios do rei.
Outro conflito existencial de Sid, era a sua
relação nada amistosa com os fios. Sim, os fios de eletricidade. Desconfiava
que tal antipatia era dos tempos em que, menino ainda, sequer alfabetizado,
submetia-se periodicamente a sessões de eletro choque, e exames eletro
encefalograma, na cidade vizinha, para tratar-se de um foco irritativo no lobo
frontal esquerdo, diagnosticado a partir das convulsões cerebrais que sofrera e
que o faziam debater-se e virar os olhos, espumar pela boca, uma performance da
qual ele não se lembrava, mas não podia, jamais pudera esquecer dos fios,
grudados na sua cabeça, a partir de uma substância gelada e pegajosa; ele
deitado na maca, ao lado da parede, naquela saleta escura, sem vida, a voz doce
e meiga da enfermeira, pacienciosa e bonita, a atender e cuidar dele,
prometendo-lhe que não sentiria dor, tomando a sua mãozinha trêmula, não por
causa do medo, mas, da expectativa quanto ao que pudesse acontecer.
Os fios, aquele emaranhado de fios, do seu
quarto/escritório, o seu refúgio, onde, agora, adulto, dedicava-se a trabalhos
free-lance, a corrigir as provas dos seus alunos, e entregar-se às suas
leituras e ouvir as suas músicas, na aconchegante cadeira do papai que herdara
do finado Sidão.
Os fios que saiam do computador, do carregador do
celular, dos aparelhos de som e de dvd, do televisor, do toca-discos. Sim era
um sujeito antenado às novidades da tecnologia, mas com um pé no passado para
onde objetos de qualquer natureza dos tempos idos o transportavam.
Todo final de ano, além do exame de consciência ao
qual se submetia desde que se deparara com uma instrução de Santo Agostinho em
O Livro dos Espíritos, o seu livro de cabeceira, tinha também que convencer
Vivian, sua esposa, a não livrar o seu quarto/escritório do peso daquelas
inúmeras reminiscências inúteis, em forma de objetos, suvenirs, papéis e
aparelhos eletrônicos, alguns esquecidos em algum canto da prateleira, embaixo
da cama, na gaveta da estante, em algum lugar, geralmente ocultando a
existência de outros mais aproveitáveis.
Fios, os emaranhados da vida sentimental. Fios que
prendem e libertam. Às vezes tinha vontade de interromper a conexão daqueles
muitos fios com sua vida. Ficara pensando muito nisso, depois que recebera a
visita técnica do seu provedor de internet, e experimentara uma gostosa
sensação de liberdade, quando ouvira do rapaz, banca de boy, moreno fortinho,
cabelo raspadinho dos lados e espetado no alto da cabeça e óculos escuros:
“Precisa trocar o rádio da torre de conexão: ele recebe, mas não transmite
mensagens, embora a velocidade esteja boa. Precisa trocar, tio”. E dissera tudo
isso sem olhar uma única vez para Sid, comportamento habitual das pessoas
jovens: comunicar-se sem o fio do olhar.
Queria dizer em outras palavras que Sid poderia
manter-se no mundo real sem nenhum sentimento de culpa. Aquele mundo que não
possui fios, que não sejam os que ligam o ser humano aos sentimentos, às
emoções repentinas a partir das quais se realizavam todos os dramas da vida.
Deliciou-se com a ideia. E quisera comunicá-la
imediatamente à Vivian o seu achado, mas, antes que pusesse a mão na maçaneta
da porta, desistiu de fazê-lo.
Com tristeza percebeu que os fios sentimentais que
o ligavam a esposa, deviam estar danificados, porque, naqueles últimos tempos,
a conexão entre eles, não estava lá muito eficiente.
As preocupações do dia a dia, a necessidade de se
manter ativo e indispensável no ambiente de trabalho de cada um, somadas às
frustrações bem maiores que as satisfações, ocupavam a atenção de ambos.
De algum modo, os fios terra que os ligavam ao
êxito profissional, lhes pareciam indispensáveis à felicidade que juntos
acreditavam ter construído.
Cortá-los poderia significar o fim daquela
felicidade. Como poderiam manter o mesmo padrão de vida tão prazeroso e
reconfortante, se trocassem a certeza pela expectativa.
Mas a realidade da vida humana, Sid, enfim
percebera era semelhante àquela encontrada na natureza, é feita de estações,
ciclos, que começam e terminam, e recomeçam.
Lembrou-se que diante de um fio danificado há duas
opções: tenta-se remendá-lo, ou corta-se o fio e compra-se outro.
Sid não estava mesmo disposto a remendar aquele fio
que o ligava a Vivian e menos ainda ao que o ligava a sua vida profissional.
Sid estava decidido também a não comprar outro fio. Queria aprender finalmente
a viver sem eles.

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