Já passava
da 1 da manhã, e o bar estava repleto de gente. Dali mais alguns minutos Mike
Tyson esmurraria impiedosamente a Trevor Berbick para se tornar o mais jovem
campeão mundial dos pesos pesados. Mas acho que pouca gente fora eu estava
realmente interessada nisso, embora este fora o pretexto para que quase toda a
juventude de Rio Claro se reunisse no Stones Rock Bar naquela noite. Gente
rindo, bebendo e conversando, acotovelando-se, disputando ao direito sagrado de
ir ao banheiro eliminar os excessos da cerveja consumida.
Havia quem tomasse
uísque, vinho, e vodka. Em geral os intelectuais, mas eram poucos. Naquele
ambiente descontraído do bar, não havia distinção entre homens e mulheres. Elas
também tomavam a iniciativa quando uma paquera as interessava, sem nenhum pudor
ou ressentimento. Era possível fumar no ambiente, sem janelas, apenas alguns
vitrôs, uns abertos e outros quebrados, que davam vistas para sabia-se lá o
quê, portas de entrada e saída que se mantinham fechadas o tempo todo, muitos
ventiladores de teto e de parede, que apesar do grande esforço não conseguiam
dissipar o calor insuportável. Mas quem se importava com isso? Havia cerveja
gelada, mulheres bonitas e homens interessantes, fosse lá para uma conversa
reservada num dos quatro disputados cantos do bar, aquele espaço mais
aconchegante e escuro onde as coisas aconteciam. Tudo somado à confusão do
falatório, das músicas que chegavam muito bem aos ouvidos de todos, por causa
das caixas de som grandes, medonhas e pretas, distribuídas por todos os cantos
do bar, deixava tudo meio insano, fazendo com que a mente ficasse meio que em
suspenso, de modo que os olhos tudo observassem meio que em câmera lenta e a
vida pulsasse em descompasso. E as palavras hesitantes, ora faltassem, e quando
compareciam, pouco elucidavam. Mas nada disso tinha importância, as palavras. Quem
se lembraria delas na manhã seguinte?
![]() |
| Reprodução |
Feito eu, Thomas
Adler estava atento à proclamação do resultado da luta, os olhos grudados em
uma das televisões, aquela mais próxima do balcão, onde ele tomava uma cerveja.
Houve tempo
em que eu odiara aquele sujeito. Ele era pobre, nada bonito e discreto demais
em minha opinião. Mas as garotas tinham simpatia por ele, embora eu não
entendesse motivo para tanto.
Um dia, Thomas
deu-me prova de sua lealdade, ainda que não tivéssemos relacionamento que
justificasse tal atitude. Passei a vê-lo com outros olhos, mais humanos, o que,
absolutamente não era do meu feitio. Mas procurei manter-me indiferente em relação
a ele e à distância, para que não acusasse o modo diferente como eu passara a
vê-lo.
CONTINUA...

Nenhum comentário:
Postar um comentário