Como tal verso e os demais, escritos com caneta Pilot 850, preta, em
caixa alta, num papel sulfite amarelo, ocupando as duas faces do papel,
chegaram até mim? Pois bem, são daqueles fatos inusitados da vida, que, uns
chamam de feliz coincidência e outros, destino.
Sinceramente, de minha parte, escolho a primeira opção. Não creio em
destino. Não vem ao caso. O fato é que “Está triste a noite sem teus
beijos/ As estrelas evocam teus suspiros/ E de sempre talvez mais solitário/
Não suporto de novo meu calvário/ Ao saber que te tive e terás ido” –
ficou se repetindo na minha mente e nos meus ouvidos, sim, ouvidos, porque os
li em voz alta da primeira vez, enquanto caminhava pela rua 12, em direção a
loja onde pagaria o carnê do crediário, naquela tarde ensolarada, mas um tanto
gelada, do mês de Julho que apenas se iniciava.
Há poucos minutos, eu tinha saído do jornal Diário, onde fora levar o
anúncio da Sociedade Veteranos, havia cruzado com a sempre movimentada Avenida
Rio Claro, quando, na altura da Avenida 1, fui surpreendido por um homem, um
sujeito alto, magro, de cabelos e barba já um tanto grisalhos e necessitando de
cuidados. Estava ele mal ajambrado, trazia uma mochila a tiracolo e uma pasta
na mão direita, de onde, tirou um calhamaço de papéis amarelos. Disse qualquer
coisa em castelhano, que mal pude compreender senão a frase principal e
derradeira. “Sou tradutor, de passagem por esta cidade. Pague o que julgar que
mereça, mas leve-o e leia-o“.
Paguei R$10,00 por dois ou três poemas de Ruben Omar Riva, que meu
inesperado interlocutor reproduzira em uma e os traduzira noutra face do papel
amarelo.
E por que os pagara? Voltemos no tempo. Tinha eu 9 anos de idade e
morávamos no bairro de São Judas Tadeu, numa casa grande, bonita e confortável.
O morávamos, em questão, significa: meus pais, eu, e meus dois irmãos. Havia
também uma criação de periquitos australianos, de meu pai, o cachorro Banditi
(sim, por causa do desenhado animado Jota Quest), a gata Chinha, um par de
hamster, que jamais foram vistos desde que chegaram ao telhado da casa, pelo
condutor externo da parede da área de serviço. E diziam também, o que
significa: minha mãe dizia por que alguém, ou seja, alguma vizinha, um parente
daqueles que a visitavam quase sempre, a ela dissera que a nossa tremenda má
sorte daqueles dias, devia-se ao fato de ter algum sapo com a boca costurada no
jardim lá de casa. O sapo jamais fora visto, senão uma única vez, por volta de
meia noite de uma sexta-feira, mas jamais pudemos afirmar (minha mãe, sim!) que
o sapo estava com a boca costurada. Ah, tinha a saltitante e desajeitada seriema
do meu irmão, que não tinha uma perna. Onde ele encontrara aquilo ninguém
jamais soubera.
Comprávamos, ou seja, meus pais compravam o pão caseiro dos irmãos
baianos que todas as tardes de sábado batiam em nossa porta. O leite do Seu
Aléssio, leite de saquinho Indaiá melhor não há. As frutas, verduras e legumes
do caminhão dos japoneses, aos sábados pela manhã. O exemplar do clube do
livro, uma vez por mês. Jornais e revistas, meu pai os comprava no centro da
cidade, na banca do Anésio ou na falta, na do Edgar. A pamonha de Piracicaba, o
puro creme do milho verde, de uma Variant que passava lá na rua de casa, a cada
15 dias. O biju fresquinho do Bijuzeiro e sua matraca-traca-traca... O sorvete
Yopa do carrinho empurrado pelo Seu Honesto, como a molecada lá da rua o
apelidara, desde que ele se recusara a ficar com o dinheiro a mais, que, é
claro, eu, o Sr. Nota Zero em Matemática havia lhe pagado por um sorvete de
palito, de chocolate. Adoro chocolate, desde aquele dia.
Então, como presumo que o finado leitor já percebera a ligação (assim
espero) entre um fato e outro, cresci vendo meus pais comprarem de tudo. Tudo o
que era coisa dos vendedores porta a porta. Porque evidentemente, aí não se
incluem o que era comprado nas lojas. E dispensa-se a leitura da interminável
lista: mesa, cadeira, sofá, panela, poltrona, cama, tevê, rádio, fogão,
geladeira, aparelho de som, batedeira, liquidificador... Sim, todos os anos, ou
uma vez a cada dois, pra modo de não ser exagerado, pois não, freguesia.
Bem, isto posto, porque euzinho não deveria comprar por R$10,00, de
um sujeito que cruzara meu caminho, os poemas, por ele traduzidos, do
incomparável poeta Ruben Omar Riva. Que Virgilio não ouça isso!
Pois comprei sem nenhum arrependimento a folha de papel amarelo, a
única, com os tais poemas de Omar dedicados à Elena, reproduzidos e traduzidos
à mão, pelo meu audacioso interlocutor.
“Gracias, hombre!” – disse ele.
“De nada”.
Pensei lhe dizer que eu também era escritor e poeta. Acho que lhe disse
– não lembro. Ele despediu-se e retirou-se rapidamente guardando o dinheiro,
meus únicos R$10,00, agora no bolso da sua camisa.
Por que o fiz? Bem, pra ser sincero, naquele momento, num exercício de
imaginação ao feitio de qualquer escritor, eu inverti os papéis e coloquei-me
no seu lugar.
Em verdade, já o havia feito, ao menos em pensamento, dias atrás.
Deitado na cama, durante aquelas malditas noites solitárias de domingo,
ouvindo as mais lindas músicas do mundo, no programa do pianista Benetti, vi-me
em algum lugar desconhecido que não era Rio Claro, tentando trocar um exemplar
de um dos meus livros, por um prato de comida.
Talvez esse dia demore a chegar. Talvez nunca chegue. Mas, se chegar,
terei o consolo de saber que não estarei sendo o único dos homens dedicados ao
ingrato trabalho de proporcionar sonho e reflexão na forma de palavras escritas
às pessoas afeitas à leitura, essa adorável espécie em extinção, a se sujeitar
ao ato indigno de clamar pela bondade alheia.
Agora, vou à padaria. Tenho R$10,00 no bolso. Dá pro misto-quente. Você
me acompanha leitor?
* Publicado no Jornal Aquarius, edição No. 139, Novembro/2015, pág. 5.
* Publicado no Jornal Aquarius, edição No. 139, Novembro/2015, pág. 5.

Boa noite, Acabei de encontra-lo em Joinville , Santa Catarina, o mesmo papel amarelo.... Eu tinha em nota unica , exatamente os R$10,00, e até pensei em recompensa-lo (ou será eu o recompensado com a poesia?) mas como a situação tava dificil, eu encontrei 3 reais em moedas. Poucas vezes li algo tão bonito, até me lembrou neruda. Corri pesquisar no google e encontrei o seu artigo.
ResponderExcluirBoa noite, Acabei de encontra-lo em Joinville , Santa Catarina, o mesmo papel amarelo.... Eu tinha em nota unica , exatamente os R$10,00, e até pensei em recompensa-lo (ou será eu o recompensado com a poesia?) mas como a situação tava dificil, eu encontrei 3 reais em moedas. Poucas vezes li algo tão bonito, até me lembrou neruda. Corri pesquisar no google e encontrei o seu artigo.
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