Malcom Morris vivia uma relação de amor e ódio com sua
cidade. Adorava ler jornais todas as manhãs, e pautava seus sentimentos, seus
pontos de vista, baseado naquilo que lia avidamente entre uma xícara de café e outra,
enquanto tentava ajeitar a gravata e não esquecer o paletó na cadeira.
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| Reprodução |
Sua mãe acompanhava a rotina matinal do filho com ares de
incredulidade e alguma simpatia, aquela que toda mãe tem por seu filho,
sobretudo quando ele, aos 36 anos, ainda vive de certo modo sob suas asas.
Morris era bancário. Com orgulho e alguma vã esperança, a mãe
de Morris afirmava que o antepassado mais ilustre do seu lindo filhinho era
membro de uma das treze dinastias que detém o poder econômico do mundo. Aquele
pessoal que vez por outra se reúne em alguma bela mansão ou castelo, na Europa,
para decidir o modo de obterem mais lucro fazendo nada.
O finado pai de Morris, o Sr. digo Mr. Frank, era professor
universitário, que viera ao Brasil, mais precisamente para Rio Claro, com a
missão de instituir um novo curso na universidade estadual, e acabou ficando,
contribuindo assim para perpetuar aquela crença inabalável de que Rio Claro é
feito curva de rio. E é mesmo.
Enquanto caminhava a pé para o trabalho, ia pensando como
responderia ao convite do gerente da agência bancária sobre ingressar na adorável
e cobiçada Loja, umas das seis ou sete da cidade, o que, também de certa forma,
comprovaria que, em Rio Claro, mesmo os ilustres irmãos, não se entendem como
deveriam.
Mas antes dessa tola pretensão, precisaria se casar. Mas onde
encontraria sua futura esposa? Talvez nos bailes vespertinos da Sociedade
Veteranos, que costumava freqüentar aos domingos. Ou nas missas, também aos
domingos, pela manhã, na igreja Matriz do João – o Batista, não vá confundir os
santos, leitor!
Mas, pensando bem, melhor continuar solteiro. Sim, porque
Malcom, sujeito bem informado (coitadinho, ele acreditava mesmo nisso) havia
lido em uma revista que, atualmente, tão certo quanto a morte, é a separação
dos cônjuges, mais cedo ou mais tarde.
Aquela edição do jornal, o outro que comprara na banca do
Pica-Pau, a caminho do trabalho, trazia a rotina da cidade que amava e odiava
ao mesmo tempo: buracos nas ruas, pessoas reclamando do lixo na calçada, das
propagandas em lugares inadequados, dos menores infratores aprontando mais uma
das suas, a impopularidade da dona Dilma, a reforma interminável do museu,
enfim, aquela era a sua cidade. Coisa linda!
Entrou sorrindo para trabalhar naquela manhã. Afinal, por
algumas horas, a cidade ficaria do lado de fora da sua vida. Mas, as pessoas
não. E as pessoas também eram a cidade. Malcom sentia-se emparedado. Mas de
repente lembrou-se que, logo mais à noite poderia escapar a ela. Tinha bons livros
para ler que retirara gratuitamente no centenário Gabinete de Leitura, filmes
para assistir na internet, naquele site do Moacir, o Memocine, e, com um pouco
de sorte, poderia convidar a Claudinha para um passeio a dois, noutra cidade, e
no carro dela, é claro, uma vez que Morris, sujeito consciente, não dirigia
veículos que poluem o meio ambiente.
Ah, os artigos do Prof. Olavo no site Mídia Sem Máscara, e o café da mamãe, gostoso e quentinho. Sim,
isso também não lhe faltaria. Mamãe, apesar do Alzheimer, ainda fazia café
muito bem.
Então, feliz e satisfeito, na medida do seu esforço e
merecimento, pensou: Paciência, Malcom! O melhor da festa é esperar por ela.
Olhou no enorme calendário pendurado na parede, ao lado do seu guichê de
atendimento, e antes de chamar o próximo cliente, lembrou-se que a semana
estava apenas começando. Rotina. Que delícia!
*Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 30/7/2015, à pág.12.
*Publicado no Jornal Aquarius, edição No. 136, de Agosto/2015, à pág.4.
*Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 30/7/2015, à pág.12.
*Publicado no Jornal Aquarius, edição No. 136, de Agosto/2015, à pág.4.

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