Ouça...
Está morrendo o mundo
O mundo tal como o conhecemos
O mundo de ouvir música, de ler poesia,
O mundo de conversar, perto, olhando nos olhos,
O mundo de amar, tocando as mãos, deixando que as mãos toquem cada parte
estremecida e molhada do corpo;
Está morrendo o mundo que nos pariu, e nos acolheu;
O mundo de valores absolutos e não relativos;
O mundo seguro, palpável, uniforme, separando certo e errado, dividindo
uns e outros;
Está morrendo o mundo que aprendamos a amar e odiar;
O mundo onde podíamos andar, à noite, de dia, sem temer a sombra, a
própria sombra;
O mundo onde havia casas, carros, pessoas, trabalho, estudo e cada coisa
ocupando o seu espaço;
Está morrendo o mundo que procuro entender. Agora, porque antes,
entender o mundo, nenhuma importância tinha;
O mundo onde havia rios, árvores; o mundo onde o mar beijava a praia ao
invés de destruí-la;
O mundo onde havia crianças que eram crianças, que não sabiam que eram
crianças, porque como crianças viviam, e, portanto, não importava saber que
eram crianças;
Está morrendo o mundo do qual procuro fugir, mas, tenho uma pergunta...
A cada manhã, o mundo onde acordo, eu o vejo morrendo. Não sangra, nem
agoniza; não reclama, não pede, obedece e espera;
Vejo a morte que se aproxima do mundo, faz balançar os galhos das
árvores, balançar portas e janelas, faz abalar corações desprotegidos; faz as
almas que não amaram o mundo voltarem-se para dentro de si, como se pudessem
fugir do mundo e da morte que dele se aproxima;
Como se a proximidade da morte, do mundo, deixasse o mundo calado,
inerte e escuro; talvez, cinza;
Qual é a cor da morte, afinal? Eu não procurava saber, até entender que
está morrendo o mundo;
E não me lembro de quando isso se deu, pois, eu também não amava mais o
mundo;
Deixava que tudo acontecesse e levasse consigo em pesadas mochilas a
essência e o resto das coisas que o mundo julgava que lhe pertencia;
E me abandonasse a mim mesmo, as coisas. E abandonasse o mundo. Mas o
mundo eu sequer conhecia, não me causava espanto nem interesse saber da sua
existência, cuja dimensão não ia além do que eu sentia, pensava e via, e podia,
eu, tocar com as minhas mãos, e modificar com a minha vontade, o mundo;
Mas agora que soube e vejo que o mundo está morrendo, agora tudo faz
sentido;
Cada palavra, cada suor, cada lágrima, cada esforço, cada riso, cada
loucura, cada vez que abri os olhos pela manhã, e fui incapaz de entender que
lá fora havia um mundo, à minha espera, além das cortinas e das janelas, além
da porta, da escadaria que me levava ao chão do mundo que eu pisava, todos os
dias, indiferente se os minutos passavam e se perdiam, se a vida escoava por minhas
mãos, a vida, tão suja e tão marcada, quanto o chão que eu pisava;
O mundo e eu nos entendemos, ao menos penso que sim;
Ele arranca tudo de mim, e me põe a nu, me olha com cinismo e fome, e
sede;
E me aponta, todos os dias pela manhã, o que sou e o que me falta para
pagar minha dívida com o mundo;
E vai além o mundo, me faz lembrar o que desejo e não posso.
O mundo me insulta, me surra, até colocar-me desacordado, caído, de
joelhos, num canto da parede, ou de cara no chão.
Afinal, o chão lhe pertence. E me abandona às palavras, o mundo. As
palavras que não ouço dizer e então as escrevo. E nelas aprisiono a dor e a
revolta.
Olho para os lados, tudo se repete;
Ouça...
Está morrendo o mundo e isso já não importa, porque tenho as palavras
que escapam ao mundo. E as palavras agora são minhas e é tudo o que tenho;
As palavras me guiam e me justificam perante a existência;
Vão para longe as palavras e me levam consigo. As palavras me dominam,
me envolvem e me submetem. Ora são boas, as palavras, ora são más. Límpidas
como a luz do sol, no seu melhor instante. Até que surja uma nuvem que as
encubra e as separem de mim;
Levam as palavras que são minhas, essas densas nuvens. Passo os dias a
postos e as noites acordado, à espera das palavras que são minhas e demoram a
voltar;
O que será das palavras da próxima vez? Morrerão comigo ou chegarão ao
papel?
As palavras sabem que o mundo está a morrer?
Se ficarem comigo terão uma chance, desde que eu não me canse delas;
Ponho-as de volta no mundo e as palavras morrerão junto;
Está morrendo o mundo, o mundo como o conheci;
E vendo-o morrer, calmo e lentamente, já não me importam as palavras;
Mas, enquanto as palavras estiverem dentro de mim, a respirar, terei uma
dúvida:
Qual de nós, o mundo que morre, acolheu primeiro?
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