Ser mais ou
menos é melhor do que ser o melhor. Vai por mim. Quando a gente faz algo muito
bem feito, fora da curva, como se diz, algo que extrapola o padrão, a gente
acaba se colocando voluntariamente numa sinuca de bico. Porque a partir de
então, todo mundo esperará feito semelhante de nossa parte.
Agora,
quando a gente se limita por modéstia ou incapacidade mesmo, a cumprir com o
dever, corresponder à expectativa mais banal, de quem, por exemplo, nos remunera
ou divide a cama conosco, a gente acaba sendo menos exigido, ou exigido nada
além do habitual, nada além do que justifique nosso salário ou a aliança no
dedo.
Subir demais
na vida, qualquer que seja a área de atuação profissional ou a extensão e
conteúdo do currículo sentimental, implica numa queda mais violenta e mais
dolorosa. E a queda, admitamos, é inevitável.
Há
escritores, por exemplo, que escrevem um único best seller e pelo feito serão lembrados eternamente. E por causa
do bendito calhamaço, poderão tomar vinho de boa qualidade para o resto da
vida. Povo e imprensa, acadêmicos e curiosos sempre se lembrarão do sujeito
como: Fulano de tal, autor do livro tal tal.
No esporte
acontece algo parecido. Vejam o caso insólito do italiano Vittorio Brambilla,
vencedor de um único grande prêmio em toda sua extensa e nada brilhante
carreira na Fórmula 1, mais exatamente, o GP da Áustria de 1975, corrida
interrompida, logo após a metade, por causa da chuva torrencial. Brambilla
nunca passou de um esforçado pé de breque, guiou para a escuderia March Beta,
durante anos, ganhou fama e algum dinheirinho. Ninguém esperava muita coisa
dele. Mas só que Brambilla sempre arrumava um jeito de alinhar o seu bólido
alaranjado e com vistoso número 9 no grid de largada.
Fato
semelhante ocorre amiúde nas empresas. Seu Beltrano, Dona Mariazinha, são
admitidos ainda jovens e aposentados na mesma empresa. Nunca são promovidos de
cargo. Nunca recebem aumento de salário além daquele garantido por lei. Mas
nunca também figuram na temida lista de dispensa do quadro de pessoal,
porque são considerados como que patrimônios da empresa. Diferentemente
daqueles funcionários altamente qualificados, que ocupam cargos importantes,
pelos quais recebem vultosos salários com a honrosa incumbência de conduzir
projetos condenados ao fracasso devido aos devaneios de uma economia instável.
E por esse motivo, perdem seus cobiçados empregos. Vão vender doces, salgados,
pamonhas e cosméticos. Ou trabalham como free lancers (se tá pensando fazer isso
leitor, desista!), enquanto o Sr. Beltrano e a Dona Mariazinha, também
conhecidos como o tiozinho da portaria e a tia do café, vão receber um bonito
relógio e um buquê de flores, cada qual, quando se aposentarem.
Eh, minha
vida! – como diria o poeta português Herberto Helder, em As Musas Cegas (VII).
Mas, é assim. Não havendo ambição desmedida, melhor desaparecer na multidão do
que subir aos montes da glória, pois corre-se o risco de acabar pendurado numa
cruz.

Nenhum comentário:
Postar um comentário