quarta-feira, 1 de novembro de 2017

E NÃO É?

Ser mais ou menos é melhor do que ser o melhor. Vai por mim. Quando a gente faz algo muito bem feito, fora da curva, como se diz, algo que extrapola o padrão, a gente acaba se colocando voluntariamente numa sinuca de bico. Porque a partir de então, todo mundo esperará feito semelhante de nossa parte.
Agora, quando a gente se limita por modéstia ou incapacidade mesmo, a cumprir com o dever, corresponder à expectativa mais banal, de quem, por exemplo, nos remunera ou divide a cama conosco, a gente acaba sendo menos exigido, ou exigido nada além do habitual, nada além do que justifique nosso salário ou a aliança no dedo.
Subir demais na vida, qualquer que seja a área de atuação profissional ou a extensão e conteúdo do currículo sentimental, implica numa queda mais violenta e mais dolorosa. E a queda, admitamos, é inevitável.

Há escritores, por exemplo, que escrevem um único best seller e pelo feito serão lembrados eternamente. E por causa do bendito calhamaço, poderão tomar vinho de boa qualidade para o resto da vida. Povo e imprensa, acadêmicos e curiosos sempre se lembrarão do sujeito como: Fulano de tal, autor do livro tal tal.
No esporte acontece algo parecido. Vejam o caso insólito do italiano Vittorio Brambilla, vencedor de um único grande prêmio em toda sua extensa e nada brilhante carreira na Fórmula 1, mais exatamente, o GP da Áustria de 1975, corrida interrompida, logo após a metade, por causa da chuva torrencial. Brambilla nunca passou de um esforçado pé de breque, guiou para a escuderia March Beta, durante anos, ganhou fama e algum dinheirinho. Ninguém esperava muita coisa dele. Mas só que Brambilla sempre arrumava um jeito de alinhar o seu bólido alaranjado e com vistoso número 9 no grid de largada.
Fato semelhante ocorre amiúde nas empresas. Seu Beltrano, Dona Mariazinha, são admitidos ainda jovens e aposentados na mesma empresa. Nunca são promovidos de cargo. Nunca recebem aumento de salário além daquele garantido por lei. Mas nunca também figuram na temida lista de dispensa do quadro de pessoal, porque são considerados como que patrimônios da empresa. Diferentemente daqueles funcionários altamente qualificados, que ocupam cargos importantes, pelos quais recebem vultosos salários com a honrosa incumbência de conduzir projetos condenados ao fracasso devido aos devaneios de uma economia instável. E por esse motivo, perdem seus cobiçados empregos. Vão vender doces, salgados, pamonhas e cosméticos. Ou trabalham como free lancers (se tá pensando fazer isso leitor, desista!), enquanto o Sr. Beltrano e a Dona Mariazinha, também conhecidos como o tiozinho da portaria e a tia do café, vão receber um bonito relógio e um buquê de flores, cada qual, quando se aposentarem.

Eh, minha vida! – como diria o poeta português Herberto Helder, em As Musas Cegas (VII). Mas, é assim. Não havendo ambição desmedida, melhor desaparecer na multidão do que subir aos montes da glória, pois corre-se o risco de acabar pendurado numa cruz.

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