Ninguém me
segue, e isso é bom;
Ainda que eu
olhe para trás e veja vultos;
A
espreitar-me, atentos, acompanhando meus passos, à distância;
Ninguém me
escuta, e prefiro que seja assim;
Nessa longa
trajetória, vou deixando à eternidade o eco de minha voz sufocada;
Para que um
dia, alguém se dê conta do meu grito por socorro;
Ninguém me
vê; ótimo, passo despercebido, deixando marcas que, um dia, talvez, alguém as
encontre; e se não encontrá-las, nada terás perdido, nem tu, nem eu;
Talvez
encontre ainda um rastro de sangue na madeira, uma gota de suor, em suspenso,
como o orvalho da noite que hesita em se derramar, da folha que o sustenta;
Ninguém me
entende, mas que bom! Não desejo entregar respostas a mentes desocupadas,
desejo provocá-las, instigá-las a pensar, a repudiar-me. Não é a mim que lhes
ofereço, são as palavras;
Não vêm as
palavras numa bandeja de prata, nem acompanhada de pratos, louças e talhares;
Vêm despidas
de sensatez, de lucidez, vem confusas, pois é como as recebo;
Desde
pequeno treinado a obedecer, a responder e agir, e reagir conforme padrões
estabelecidos;
Autômato,
programado, treinado a aceitar o que outros dizem;
A sorrir,
abraçar e ouvir; e calar diante dos fatos, e não ver o que vê; esquecer sem nada sentir; melhor;
Quando
percebi que podia ser diferente, eu pulei do trem, sabendo que jamais tornaria
a alcançá-lo. Sabendo que, bem possível, não chegaria ao destino;
E se
chegasse, estaria cansado, exausto, ferido, com as roupas rasgadas, puídas,
sujas; o corpo, prestes a deixá-lo, fedendo;
Sozinho.
Calado. Acompanhado da minha sombra, quando muito. Faminto. Sedento. Sem
trégua, porque ninguém me vê; ninguém me ouve; assim escolhi, quando pulei do
trem; tinha 13 anos.
E as
palavras, vinham como os vultos. E desapareciam como a luz do sol entre as
copas das árvores;
Não me
saciavam as palavras. Mas me arrancavam à tristeza. Era quando eu conhecia por
um instante o que era a liberdade;
Quantas
horas são, pergunta-me o homem, sentado na calçada, todos os dias, ao final de
tarde;
Nem paro
para responder-lhe;
Sempre com
pressa, sempre desatento;
Não procuro
ver as pessoas, nem ouvi-las, e nisso nos entendemos;
Nossa
distância impercorrível, nosso silêncio mórbido;
Tão denso e
profundo este silêncio, que até posso vê-lo como os olhos cansados do velho que
me pergunta as horas, e ouvi-lo como a fúria do vento invisível;
Buscando longe
de mim um lugarzinho onde possa apoiar papel e lápis, e escrever;
Escrever...
O que
significa subtrair-me da realidade imposta, não sei por quem, nem o motivo, não
me interessa;
Com o
destino, acerto as contas depois;
Aprendi a
caminhar fora do trem, tropeçando nos cascalhos, esbarrando nas encostas,
caindo, e levantando, indo...