terça-feira, 28 de maio de 2019

ESCOLHAS INEVITÁVEIS


Quando as coisas nos irritam
As pessoas e as vozes das pessoas nos incomodam
Quando as ideias alheias nos despertam os piores sentimentos
Quando baixar a cabeça, resignado,
Não significa submissão, mas, indiferença
Quando o deitar do sol é mais bem vindo que o levantar
Quando os caminhos são muitos
Mas nenhum desperta o interesse
Nenhum líquido, pó, corpo, copo
Quando falar e ouvir já não tem significado
Quando deitar o lápis, sobre a mesa, se torna tarefa diária, rotina
Quando adormecer é o momento desejado,
E o silêncio, o consolo esperado
E o despertar é tudo que se deseja evitar
Quando se daria tudo para não ser
E outro tanto, mais ainda, para não existir
Quando não ver é escolha deliberada e consciente
E ajoelhar-se, na pedra gelada, é a espera calada
Do momento inevitável e oportuno
Quando, enfim, aceita-se
Que as trevas são o padrão do universo, o comum
E a luz, exceção
Então, tudo perde importância,
E significado,
Tudo



sexta-feira, 24 de maio de 2019

AS FOLHAS CAEM



O mesmo caminho já percorri,
A mesma dor já esteve aqui
Nesse canto escondido de meu ser
Fechado a sete chaves
Por isso eu entendo os seus olhinhos baixos
Eu sei o que você procura a cada vez
Que percorre as páginas de um livro aberto
Sei o que é essa dor que lhe oprime
E piora quando cai a noite
Sei do seu travesseiro amarfanhado
De tanta procura em vão
Da toalha sob a cama
Sei da roupa na sacola
Nova, intacta, que você não usou
Para quem usaria?
E quando você percorre os cômodos da casa
Durante a noite, eu a vejo
Sei da música que te leva, longe
Da lembrança que a consola, por um momento, um
Apenas um, é o quanto dura
O poder da lembrança de nos fazer feliz, um momento
Por isso entendo os seus olhinhos baixos de agora,
São 6 horas, cai a noite
Sei da sua voz sufocada, e acho que posso ouvi-la
As folhas caem, o vento leva
Leva mais que as folhas, leva a esperança
Leva outra vez, como o faz também a cada manhã
Quando ainda diante de seus olhos está a lembrança
Do sonho vivido durante a noite
O sonho que não ousa abrir a porta da realidade
Por que o faria? Não poderia.
Os seus olhinhos baixos tristes me revelam
E por isso eu sei, o que eles encontrariam
Sei, e se pudesse, eu os faria brilhar e sorrir
Por isso, e apesar de tudo o que vai no meu coração
Eu fico à distância



POESIA NOTURNA



Não tenho saudade de ninguém e de nada,
Não sinto falta, não lembro, não espero
Mas sei o que vivi e o que deixei de viver
É minha história, medíocre, tola, mas é
E não a renego e nem a escondo, não importa
Nem para mim, nem para os meus, nem para ninguém
Não sou daqueles que criticam os de hoje
Não entendem as suas escolhas, não aceitam o seu jeito de ser
Jeito de sentir, vestir e pensar, e agir
É apenas um jeito, e cada geração tem o seu
E nenhuma é melhor, certa, e nem pior que qualquer outra
Que se danem eles, uns e outros
Ressentidos, saudosistas, inconformados
Moderninhos, tolinhos que se acham, porque são o momento
Agora são, mas virá o depois, e eles ficarão
Pelo caminho, o meio do caminho,
Incerto, indeciso, escuro, como eu fiquei
Não espero por deuses do além
Nem duendes do ar
Zero, é assim que começa e assim que termina
Numa caixa quadrada, fechada, por um laço de fita





quinta-feira, 9 de maio de 2019

O MUNDO É LINDO!


Não acreditem quando lhe falam que o mundo é uma porcaria, que a maldade impera nos corações e nas mentes da maioria dos seres humanos.
Porque isso não é verdade. O mal nunca foi soberano, nunca deu as cartas, nunca conduziu nenhum processo evolutivo algum.
Porque a Origem de tudo e de todos, a Consciência onisciente, a Ação onipresente, a Beleza incomparável, a Sabedoria suprema, e a Perfeição é que impera, mesmo que nós não consigamos ainda ver e entender isso.
O mundo é lindo, e está sempre e cada vez melhor.

Hoje, há muito mais pessoas de bem habitando sobre a face da Terra, do que havia ontem.
O progresso, em todas as áreas da atividade e do conhecimento humano é constante e infinito. A cada dia surgem ideias melhores, ações melhores.
Ocorre que, aos nossos olhos, o mal impressiona, assusta, intimida.
O mal faz propaganda de si mesmo. O bem é modesto, é silencioso, é simples, é educado e generoso.
O bem não reivindica reconhecimento e nem autoridade. E porque somos ainda espíritos imperfeitos, aprendizes, sujeitos a falhas, quedas e contradições, temos mais facilidade de identificar o mal, em tudo e em todos.
Mas já é tempo de vermos, pensarmos e agirmos diferente. Tomarmos as rédeas na condução de nossas vidas, nos libertarmos de tudo o que nos oprime, tudo. Tudo mesmo.
Por isso, se uma religião nos diz o que não fazer, ela não nos serve. Porque religião, não é para lançar um véu negro sobre nós, mas, iluminar os nossos caminhos.
Se uma filosofia, nos enclausura em um sistema, seja qual for, ela não nos serve. Porque a filosofia, seja qual for, deve descortinar diante de nossos olhos um novo horizonte, que nos faça enxergar a vida de uma outra maneira, mais positiva e realizadora.
Se uma ideologia política, nos ensina a como vencer o inimigo, ela não nos serve, porque o bem comum, e possível a todos, e a regra de ouro de toda e qualquer ideologia, deveria ser a de nos ensinar a ver o semelhante não como um inimigo a ser derrotado, mas um amigo, com o qual caminhar junto.
O mundo é lindo. Nós é que ainda não somos. Mas, breve, seremos. Seremos, sim.


quarta-feira, 8 de maio de 2019

UM DINHEIRO A MAIS


(Ao amigo Claiton)
Na cozinha, pai e filho conversavam.
“Você não demonstra um pingo de humildade, essa é a questão – disse-lhe o pai, enquanto enxugava a louça do jantar com o pano de prato”.
“Está dizendo isso por que acha que eu deveria cuidar da louça suja ao invés de você?”
“Pode ser”.
O Sr. Max, então uma criança, apenas, abaixou a cabeça, admitindo-se culpado.
“Mas não é tudo” – disse-lhe ainda o pai.
“Bom, pai, se me permite, eu preciso lhe contar sobre uma coisa” – o garoto acreditava com isso desviar o assunto que o incomodava ou ao menos adiá-lo para uma ocasião mais propicia.

“O quê”? – perguntou o pai, curioso.
“Algo realmente interessante que me aconteceu hoje”.
“Onde”?
“No banco”.
O pai deixou o pano sobre a pia e foi para o quintal a fim de alimentar o cachorro com o resto de comida que ficara nos pratos e que ele cuidadosamente havia acondicionado numa vasilha de plástico.
O filho o seguiu.
“Acredita que o caixa do banco me deu mil cruzeiros, pai”?
“Sim – respondeu-lhe o pai – Se conheço o filho que tenho, você não iria mentir a respeito. Mas, qual motivo teria levado ele a praticar tamanha bondade”?
“Bem... Como devo dizer...? Eu dei-lhe o cheque para descontar, como o senhor havia me orientado, e ele...”
“E qual era mesmo o valor do cheque”?
“Quatro mil cruzeiros. E aqui, temos cinco mil” – respondeu-lhe, todo sorridente, apanhando o dinheiro do bolso de dentro da jaqueta e entregando toda a quantia para o pai.
O pai conferiu o dinheiro e separou os mil cruzeiros a mais, em uma das mãos, e o resto do dinheiro, guardou-o no bolso de trás da calça.
“Veja como existem pessoas boas no mundo, pai. Pessoas generosas que parecem enxergar o sofrimento dos outros e procuram ajudar”.
O pai, entendeu que aquele era o momento para elucidar os fatos.
“Não, meu filho. As pessoas boas e generosas são raras neste mundo. Mas as desatentas, são muitas”.
Maxwell fixou os olhos no pai, apreensivo, tentando com muito esforço, entender o que exatamente o pai queria lhe dizer com isso.
“Filho, sejamos sinceros, o funcionário do banco, não teve a intenção de ajudá-lo. Na verdade, ele se enganou. E lhe deu dinheiro a mais”.
O menino sentiu-se decepcionado, e não sabia ao certo, se aquele sentimento, que agora lhe sufocava o peito, era causado pelo pai ou pelo funcionário do banco.
“Amanhã, bem cedo, você retorne ao banco e devolve esses mil cruzeiros nas mãos de quem o entregou indevidamente”.
“Mas pai, são mil cruzeiros, já daria pra pagar a farmácia e a padaria esse mês”! – tentou argumentar.
“Filho, faça o que eu estou dizendo. Porque é o correto”.
Na manhã seguinte, o garoto retornou ao banco e logo encontrou com o funcionário que o havia atendido no dia anterior.
“Com licença. Lembra-se de mim”?
“Creio que sim. Em que posso ajudá-lo”?
“Vim lhe devolver esses mil cruzeiros, que você me deu a mais, quando descontou o cheque ontem. Lembra-se”?
O atendente do caixa, olhou para o menino, e a tensão que havia em seu olhar se desfez completamente. Seus olhos, de repente, encheram-se de lágrimas.
“Ah, meu Deus! Graças a Deus”!
Eles se olhavam um para o outro. No semblante do menino, apreensão, e medo, de como a sua atitude seria interpretada por aquele homem.
“Como você se chama, garoto”?
“Maxwell”.
“Deus o abençoe, Maxwell. Que alma boa e generosa você tem. Que Deus o conserve sempre assim. Não tenho como lhe agradecer”.
“Não é necessário. Eu fiz o que era correto”.
“Sim. Mas, esse dinheiro faltou ontem no meu caixa. E quando isso acontece, o banco desconta do nosso salário. E eu preciso muito desse dinheiro para cuidar de minha mãe doente”.
Eu entendo. Minha mãe também é doente, moço. E nós devemos na farmácia e na padaria. E já faz dois meses. E não temos dinheiro suficiente para pagar. Este cheque, meu pai tomou emprestado de um agiota. E talvez não possa honrá-lo no prazo devido.
Mas não disse isso. Despediu-se e foi embora. Estava tão feliz devido fato de um estranho ter reconhecido o seu valor humano que a decepção e as preocupações, por um momento, desapareceram de sua mente.
Baseado num fato verídico.


quarta-feira, 1 de maio de 2019

SALVE, SENNA!


O que vou escrever agora vai incomodar muita gente. Tudo bem. Respeito opiniões em contrário. Sou adepto da filosofia do Sr. Arouet, também conhecido, nos bares de Paris do século XVIII, como Voltaire.
Então vamos lá. O escocês Jackie Stewart, também tricampeão mundial de fórmula 1, durante muito tempo detentor do número de vitórias da categoria, 27, ao todo, encerrou a carreira já famoso, rico e consagrado, quando viu o amigo de equipe Tyrrel, o francês François Cevért, espatifar sua máquina nos treinos classificatórios para o GP dos Estados Unidos, no autódromo de Watkins Glen em 1973.
Stewart prosseguiu no circo da badalada fórmula 1 ao longo dos anos, mas, fora das pistas, sempre requisitado, devido seu prestígio, atuando como consultor de equipes e comentarista de tevê, fez dupla memorável com o lendário Murray Walker na BBC de Londres. Foi também, em determinada época, dono e chefe de equipe que levava seu nome e onde pilotou o brasileiro Rubens Barrichello.
A mesma iniciativa, digo, sabedoria, de parar no auge da carreira, para desfrutar as glórias que conquistou merecidamente nas pistas, ao lado de familiares, amigos e fãs, não teve o também tricampeão mundial Ayrton Senna da Silva.

Piloto genial, o mundo assim o reconhece, e de fato era, Senna se expunha, para além do limite de si mesmo e da máquina que pilotava, expondo também ao perigo desnecessário, seus companheiros de profissão, como na decisão do título em 1990, com o rival Alain Prost, da França.
Se foi ou não o melhor piloto do mundo, é matéria para discussão. Foi sem dúvida um dos grandes do automobilismo mundial, em todos os tempos. E, de certa forma, sua ousadia, satisfazia aos anseios reprimidos de muitas pessoas para as quais faltava a coragem que a Senna sobrava.
A fórmula 1 é um esporte em que a máquina é a outra metade, a extensão do piloto e vice-versa. E, atrás da máquina, há muita gente que trabalha com afinco e talento para que máquina e piloto se tornem vencedores.
É bem sabido que ao contrário do também brasileiro e também tricampeão mundial Nelson Piquet, Senna nunca foi um acertador de carros, nunca se preocupou em acrescentar nada ao trabalho de engenheiros e mecânicos que aumentassem a capacidade de competir da máquina. O que ele sempre queria e teve, a partir de determinado momento de sua carreira, quando passou a vencer, foram os melhores engenheiros, mecânicos, motores e pneus à sua disposição. Isso não tira os seus méritos, na verdade, define o seu estilo de trabalhar. Quando entrava no seu bólido e sentava o pé no pedal da direita era difícil vencê-lo nas retas e curvas dos autódromos do mundo.
Os gênios, e Senna era um deles, na sua profissão, excedem algumas vezes nas atitudes que tomam, mas, tais excessos atingem os parâmetros da loucura, quando se pratica um esporte perigosíssimo por natureza, como a fórmula 1.
Além do desporto, a maior vitória de Senna, foi a criação da Fundação que leva seu nome e que beneficia milhares de crianças, hoje conduzida por sua irmã Viviane.
Como esportista que fizera os brasileiros e fãs do mundo todo grudar os olhos na tevê nos 10 anos em que competiu na fórmula 1, pilotando para as equipes Tolleman, Lotus e McLaren, Senna deixa saudade. Por seu talento, determinação e coragem, deixa também um importante legado. Como poucos, Senna extrapolou a dimensão humana, comum a todos nós, para alcançar a condição de mito reverenciado por muitas gerações.
Senna encerrou a vida e uma das mais belas e admiráveis carreiras esportivas, do modo como mais apreciava e trabalhava sempre muito duro para isso: na sétima volta do GP de San Marino, na Itália, em 1994, numa curva chamada Tamburello, em primeiro lugar.
Salve, Senna!