quarta-feira, 15 de agosto de 2018

RECOMEÇAR


Conta-se que em determinado momento da vida, a águia isola-se no alto do penhasco, para trocar de bico, unhas e penas. E se sobreviver, a esse doloroso e longo processo de renovação poderá cumprir com dignidade o seu destino.
É o que todos buscamos, em determinado momento, seja na vida pessoal ou na profissional: Renovação. E ela se torna inevitável, quando o êxito nos empurra para a zona de conforto. É um gesto traiçoeiro da vida para conosco, porque ele só nos mostra os benefícios de nossas conquistas, não revela que o perigo está logo ali.
Reprofução
Por isso, algumas perguntas se fazem necessárias, naquela hora em que nos acreditamos o máximo porque tudo conspira a nosso favor. A primeira: Já parou pra pensar que talvez você não agrade tanto assim? E que as pessoas não reparam em você com os olhos de admiração que você supõe? Não, pelo menos, do modo como você pensa, quando recebe um elogio?
Já parou pra pensar que talvez você não seja tão bom quanto imagina? E que nem é tão insubstituível quanto acredita, quando ouve pela manhã algo como “Eu te amo, querido” enquanto um par de olhinhos meigos, inchados e preguiçosos encontra o seu?
É, meu caro, a vida é bela. E não quero estragar o seu dia que apenas inicia. Vá tomar café, escove os dentes, e depois voltamos a conversar.
Não dá tempo? Eu sei. Tanto quanto tenho certeza que ao menos por um instante essas perguntas irão roubar sua atenção. Até que surja um aviso de um novo zap chegando, quentinho, no seu possante smart 4G.
Os dias que sucedem apressados subtraem de nós o interesse e a expectativa de nos conhecermos melhor a nós mesmos, de sabermos o que e quem somos realmente. Ou como disse a Larissa Lebanon Hannover: “Estamos muito desorientados nesse mundo e não sabemos de onde pertencemos”.  Fato.
E de minha parte, confesso, também não sei. Já perdi meu tempo tentando entender coisas tão estúpidas de tão óbvias como o famigerado sentido da vida. Ora, a vida! A vida é a vida. Nascer, viver e morrer. E para alguns, renascer ainda e progredir sempre. Ou nada disso. A vida, sou eu, é você, somos nós. Paridos e cuspidos nesse mundão. Jogando no time dos aspirantes a angelitude. Não havia outro destino mais razoável para nós?
Ok. Tenho lá minhas dúvidas. Duvido de tudo e de todos. Até de mim. Portanto, o que fizermos e o que seremos depende apenas de nossa vontade. E nada mais. Prefiro assim. E você?  Qual a sua, leitor? Conte-me.
As coisas nem sempre sairão tal como se imagina. Ora, mas para isso, é que temos inteligência. Para encontrarmos atalhos, caminhos, soluções, e sobrevivermos, enquanto nos seja possível, enquanto algo que nos leve a continuar na luta faça sentido.
E impressione nossa alma, naquilo que ela tem de melhor, a capacidade inata de se emocionar. E convença, talvez, nossos olhos e nossos corações, de que somos sim desejáveis, indispensáveis, importantes e bons, realmente bons naquilo que fazemos e para a vida de alguém.
Não fique triste se algum dia, aqueles olhinhos meigos, preguiçosos e inchados se cansarem dos seus e decida buscar novas paisagens. Se um dia, você receba um zap, de alguém se dizendo muito agradecido, e coisa tal, mas que dispensa seus valorosos serviços a partir daquele momento.
Não, não fique triste. É a vida a convidá-lo a botar a cabeça pra funcionar. A limpar as gavetas do coração, abarrotadas de lembranças que não se repetem e de coisas inúteis. A ser, enfim, o que e como você sempre quis.
É o seu melhor momento. Não é um momento de lágrimas, dor ou despedida. É o momento de olhar adiante e seguir em frente, sem olhar para trás. Reaprender a viver um dia de cada vez, reconhecendo e valorizando tudo o que é belo e bom e tem passado despercebido ao longo de todos esses anos, que você viveu sufocado pela necessidade de honrar compromissos, inclusive os sentimentais. É momento de partir em direção a novos dias, em busca de uma nova vida, levando consigo apenas uma coisa: você mesmo, e sua vontade de ser feliz. Pois então, seja!
* Artigo publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 17/08/2018, à pág.2.

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