Conta-se
que em determinado momento da vida, a águia isola-se no alto do penhasco, para trocar de bico, unhas e penas. E se sobreviver,
a esse doloroso e longo processo de renovação poderá cumprir com dignidade o seu
destino.
É o
que todos buscamos, em determinado momento, seja na vida pessoal ou na
profissional: Renovação. E ela se torna inevitável, quando o êxito nos empurra
para a zona de conforto. É um gesto traiçoeiro da vida para conosco, porque ele
só nos mostra os benefícios de nossas conquistas, não revela que o perigo está
logo ali.
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| Reprofução |
Por
isso, algumas perguntas se fazem necessárias, naquela hora em que nos
acreditamos o máximo porque tudo conspira a nosso favor. A primeira: Já parou
pra pensar que talvez você não agrade tanto assim? E que as pessoas não reparam
em você com os olhos de admiração que você supõe? Não, pelo menos, do modo como
você pensa, quando recebe um elogio?
Já
parou pra pensar que talvez você não seja tão bom quanto imagina? E que nem é
tão insubstituível quanto acredita, quando ouve pela manhã algo como “Eu te
amo, querido” enquanto um par de olhinhos meigos, inchados e preguiçosos
encontra o seu?
É,
meu caro, a vida é bela. E não quero estragar o seu dia que apenas inicia. Vá
tomar café, escove os dentes, e depois voltamos a conversar.
Não
dá tempo? Eu sei. Tanto quanto tenho certeza que ao menos por um instante essas
perguntas irão roubar sua atenção. Até que surja um aviso de um novo zap
chegando, quentinho, no seu possante smart 4G.
Os
dias que sucedem apressados subtraem de nós o interesse e a expectativa de nos conhecermos
melhor a nós mesmos, de sabermos o que e quem somos realmente. Ou como disse a
Larissa Lebanon Hannover: “Estamos muito desorientados nesse mundo e não
sabemos de onde pertencemos”. Fato.
E de
minha parte, confesso, também não sei. Já perdi meu tempo tentando entender coisas tão
estúpidas de tão óbvias como o famigerado sentido da vida. Ora, a vida! A vida
é a vida. Nascer, viver e morrer. E para alguns, renascer ainda e progredir
sempre. Ou nada disso. A vida, sou eu, é você, somos nós. Paridos e cuspidos
nesse mundão. Jogando no time dos aspirantes a angelitude. Não havia outro
destino mais razoável para nós?
Ok.
Tenho lá minhas dúvidas. Duvido de tudo e de todos. Até de mim. Portanto, o que
fizermos e o que seremos depende apenas de nossa vontade. E nada mais. Prefiro
assim. E você? Qual a sua, leitor?
Conte-me.
As
coisas nem sempre sairão tal como se imagina. Ora, mas para isso, é que temos
inteligência. Para encontrarmos atalhos, caminhos, soluções, e sobrevivermos,
enquanto nos seja possível, enquanto algo que nos leve a continuar na luta faça
sentido.
E impressione
nossa alma, naquilo que ela tem de melhor, a capacidade inata de se emocionar.
E convença, talvez, nossos olhos e nossos corações, de que somos sim
desejáveis, indispensáveis, importantes e bons, realmente bons naquilo que
fazemos e para a vida de alguém.
Não
fique triste se algum dia, aqueles olhinhos meigos, preguiçosos e inchados se
cansarem dos seus e decida buscar novas paisagens. Se um dia, você receba um
zap, de alguém se dizendo muito agradecido, e coisa tal, mas que dispensa seus
valorosos serviços a partir daquele momento.
Não,
não fique triste. É a vida a convidá-lo a botar a cabeça pra funcionar. A
limpar as gavetas do coração, abarrotadas de lembranças que não se repetem e de
coisas inúteis. A ser, enfim, o que e como você sempre quis.
É o
seu melhor momento. Não é um momento de lágrimas, dor ou despedida. É o momento
de olhar adiante e seguir em frente, sem olhar para trás. Reaprender a viver um
dia de cada vez, reconhecendo e valorizando tudo o que é belo e bom e tem
passado despercebido ao longo de todos esses anos, que você viveu sufocado pela
necessidade de honrar compromissos, inclusive os sentimentais. É momento de
partir em direção a novos dias, em busca de uma nova vida, levando consigo
apenas uma coisa: você mesmo, e sua vontade de ser feliz. Pois então, seja!
* Artigo publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 17/08/2018, à pág.2.
* Artigo publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 17/08/2018, à pág.2.

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