sábado, 25 de agosto de 2018

O SENHOR MENTIRA


Noite adentro, leio uma resenha literária sobre um autor negro, no jornal que a vizinha costuma desovar no corredor que me leva ao quarto pequeno, imundo e bagunçado da pensão miserável onde moro. Ela tem 80 anos, a vizinha, senão mais, e, diferentemente de mim, consegue sabe-se lá como, abaixar-se sem sentir dor, para realizar seu ato de caridade para comigo, que é todas as segundas-feiras, doar-me o jornal que ela e família, consome avidamente. E, por família, entenda-se, a irmã que mora ao lado, os netos, que aparecem vez em quando e o irmão; não sei se mais velho ou mais novo, mas, tão capenga quanto ela, o qual, toda segunda-feira, é bom destacar isso, vem depois das 9 pra tomar, acredito eu, uma xícara ou duas de café passado na hora. E talvez, quem sabe, biscoitinhos de maisena também, e, salvo engano, ele aproveite para perder gostosamente preciosos cinco minutos de sua laboriosa rotina diária de funcionário público aposentado, que consiste na difícil, e, por vezes, impossível tarefa, de solucionar as palavras cruzadas publicadas no jornal, que depois será lido por mim, não todo, mas a parte que me interessa.
Reprodução
É o que faço nesse exato momento, recém-chegado de São Paulo, onde eu fora acompanhar o meu mano, à primeira de suas visitas ao simpático Dr. Teng, um cobrão, segundo dizem, na especialidade de membros superiores, isto no livro de Ciências da escola, se me não engano, queria dizer mãos.
E na contra capa do caderno de cultura do jornal que leio, encontro a matéria de página inteira de outro autor lançado na inglória aventura literária, aos 46 anos, e, confesso, não consigo conter o riso. Coitadinho! – como exclamaria meu amigo o Prof. Clayton – logo irá se juntar aos outros infectos sepultados no cemitério das esperanças perdidas. Será o seu destino. Inevitavelmente. Será sim. Por melhor seja o reles escriba.
Isto me fez lembrar uma passagem que vivi dia desses, em frente à estação ferroviária, onde param os ônibus, e não se assuste o leitor menos avisado, porque estamos falando de um acontecimento ocorrido em Rio Claro, onde, de fato, geralmente, o surreal se torna realidade, sobretudo ao que se refere à vida política da cidade e às obras públicas.
A Estação Ferroviária inaugurada em 1876, com a chegada da ferrovia, que serve atualmente para acolher os despojos dos vagões e máquinas abandonadas, e para embarque e desembarque de passageiros de ônibus que circulam no perímetro urbano da cidade. As observações se fazem oportunas.
Era um domingo à tarde e eu caminhava pela plataforma, cabisbaixo, envolvido por aquele modorrento clima de “Deus me tire logo daqui!”, tão comum à minha sensível esperança, nas tardes de domingo, em cidades pequenas e desinteressantes do interior como Rio Claro.
Então, em dado momento, disse-me um homenzinho, arrancando-me do meu torpor.
“Tem um cigarro para me dar, por favor?”
O homem estava num dos muitos bancos que existem por toda a extensão da longa plataforma. Ajeitei os meus óculos que caía sobre o nariz, então respondi:
“Lamento. Não fumo.”
“O que você lamenta? – ele retrucou ofendido – O fato de eu não fumar ou de você não ter um cigarro para me dar?”.
Fiquei sem resposta e olhando pasmo na direção dele. O dia não tinha sido nada fácil. Problemas no trabalho, contas atrasadas e falta de dinheiro. Não bastasse, e tinha agora que lidar com a ignorância de um senhor que talvez não encontrasse nada melhor a fazer do que importunar a vida dos outros.
Então, o homenzinho soltou uma sonora gargalhada, momento em que pude ver sua dentição um tanto estragada.
Ele tinha um olhar cansado, barba por fazer e cabelos brancos, alguns. Suas orelhas eram grandes tanto quanto seu nariz, por sinal, muito avermelhado. E as suas mãos, pude perceber, quando ele as tirou do bolso, demonstravam impiedosamente as marcas do tempo e dos anos ininterruptos da lida pesada.
Esperei mais um pouco lhe dando tempo para justificar a gostosa risada, o que não fez.
Resolvi então, tomar o meu rumo, dando nosso assunto por encerrado. Mas logo descobri que ele não pensava assim. Eu já dava o terceiro passo em direção ao ponto onde tomaria o ônibus que me levaria para casa, quando novamente, ele voltou a me surpreender, arrancando-me do silêncio da minha solidão.
“Não vai se despedir de um pobre velho enjeitado, meu camarada?”
Constrangido um tanto, lhe pedi desculpas e voltei a caminhar, cabisbaixo, como de costume, mas não por muito tempo.
“Eu escrevi durante muitos anos, sabe, nessa espelunca de jornal onde você publica suas colunas, às sextas-feiras, a cada quinze dias” – ele disse.
“Parece que deixou de fazê-lo já faz algum tempo?” – indaguei, lembrando-me do estado de suas mãos, que havia observado há pouco.
Esperei por uma resposta, e ela veio na forma de um pedaço de jornal, dobrado, que ele, com alguma dificuldade, pois suas mãos tremiam, tirara do bolso do paletó surrado que vestia.
“Não se espante – se o estado das minhas mãos não combina com as de um escritor. Saiba que antes de fazer fortuna com seus romances policiais, Edgar Wallace trabalhou como tipógrafo, jornaleiro, entregador de leite e enfermeiro. E segundo Penélope, sua filha, arriscou-se até na construção civil”.
“E ele era o quê?” – indaguei, como que expondo-lhe a armadilha, na qual pretendia apanhá-lo com minha resposta.
“Como assim?”
“A nacionalidade dele, qual era, ora?”
“Wallace era americano, evidentemente”.
“Pois então, está explicado. Ele, americano, você brasileiro”.
“Você também”.
“Pois sim. E esse deve ser o motivo, que me faz sobreviver aos 30 anos, ganhando uns míseros trocados como revisor na espelunca de jornal, segundo sua opinião, onde escrevo”.
“Não pretende ler a minha melhor coluna? Eu a publicava, uma vez por semana, no mesmo espaço que você ocupa atualmente”.
“Prometo que o farei algum dia”.
“Algum dia e talvez você não me encontre mais aqui”.
“É possível, admito, mas agora tenho de pegar o meu ônibus que acaba de encostar”.
“A minha melhor coluna também foi a última”.
Fiquei a olhá-lo curioso, esperando que revelasse o motivo. Mas não o fez.
“Lamento”.
“Quem deve ter se lamentado, imagino, foram meus leitores, que ficaram órfãos do melhor cronista desta cidade”.
“Creio que sim”.
“Sabe, eu os tinha em grande quantidade, os meus leitores”.
“Que maravilha, meus parabéns”.
“Eles enviavam cartas à redação, elogiando-me”.
“Você deveria se sentir muito orgulhoso, certamente?”
“Pois sim. Mas isso nunca foi motivo para que me dessem um aumento”.
“Talvez o jornal não atravessasse uma fase financeira muito boa naquele tempo”.
“Que nada! É que eles realmente não sabem reconhecer o valor de um bom cronista”.
Olhei para trás e, preocupado, observei que os passageiros já subiam para o ônibus que eu iria tomar.
“Não sei o que dizer. Sinceramente”. – admiti.
“Já fui um bom escritor. Escrevi artigos de opinião, crônicas, resenhas literárias, reportagens, contos, peças de teatro, roteiros para cinema, tevê e propaganda. Arrisquei até alguns poemas sentimentais e romances. Experimentei todas as linguagens com as quais se podem expressar a vida com palavras. Mas isso não lhe significa nada, não é mesmo?”
E antes que eu lhe perguntasse por que motivo haveria de significar, ele se adiantou:
“Deveria. Pois você irá terminar como eu. Talvez, sentado nesse mesmo banco”.
“Daqui a quantos anos?”
“Muitos anos” – ele disse, em meio um sorriso jocoso.
“Nada mal. Até lá, quem sabe, Deus mude de ideia”.
“Se ele se lembrar de você”.
“E por que não lembraria? Afinal, nunca se esquece de mim quando o assunto em questão se refere às desgraças da vida”.
“Vê-se que não, realmente”.
E nessa sua frase havia um viés de maldade que resolvi ignorar.
“Problemas?” – então, eu disse.
“O maior de todos. O que mais humilha um homem”.
Novamente nos olhamos diretamente nos olhos. E, para o meu desespero, percebi pelo barulho, que o ônibus que eu tomaria já se colocava em movimento. Pensei correr para alcança-lo. Mas fui impedido, não por minha benevolência, mas por minha curiosidade. Vendo que eu não tomaria a dianteira no nosso despretensioso diálogo, ele prosseguiu:
“Silêncio, meu camarada. Eis o problema” – disse, quando imaginei que fosse dizer que o seu maior problema era o bendito dinheiro ou a falta dele.
“Silêncio...” – ele repetiu, deixando em suspenso a conclusão da frase.
Fiquei a olhá-lo, um tanto decepcionado, porque imaginava que ele pudesse me revelar algum segredo, alguma situação, um fato extraordinário que eu pudesse aproveitar numa futura crônica, quem sabe.
“Silêncio. E solidão”.
Muito bem. Estava montado o cenário da tragédia. Eu tinha diante de mim um senhor de idade, desempregado, talvez doente e solitário, preso, porém, ao seu talento irresistível de escritor e ao seu desânimo; sua triste realidade que sabia não ter meios nem forças para mudá-la àquela altura da vida.
“Como se chama?” – resolvi perguntar.
Confesso que naquele momento, não encontrei nada melhor que pudesse lhe dizer.
“Não importa”.
“Mas deve ter um nome”.
“Certamente” – ele disse isso, com profunda tristeza e, abaixando a cabeça; respirou fundo, ainda com os olhos voltados para o chão, então concluiu:
“Senhor Mentira” – chame-me assim – Afinal, que outra coisa, nós escritores, fazemos de melhor senão isso: mentir.
“Prazer – disse-lhe, estendendo-lhe minha mão – Sou o Senhor Dissimulado. Uma versão, digamos, mais atualizada, do Senhor Mentira”.
Então, pela primeira vez, ele sorriu, disfarçadamente.
“Talvez possamos tomar um café no bar logo ali – sugeri – Tenho ainda alguns minutos até que o ônibus retorne à Estação”.
Já instalados no bar, ofereci-lhe que comesse um pastel, mas ele recusou.
“Tem certeza? Não está com fome?”
“Se eu estivesse, eu lhe diria, esteja certo”.
“E por que deveria acreditar em suas palavras, Senhor Mentira?”.
“Porque elas saíram de minha boca e não de minhas mãos”.
Ele riu novamente. E eu também.
“Você é um bom menino” – ele disse, saboreando seu café.
“Gostaria de ter escutado isso quando eu tinha 12 anos”.
“No meu tempo e no seu, ainda, era muito difícil escutar um elogio, quando se tinha 12 anos. Mas hoje é tudo diferente. As pessoas são elogiadas mesmo sem merecer.”
“São os tempos”.
“Malditos tempos. E glória a Deus, que minha estadia está chegando ao fim. E a sua, lamento, está apenas começando”.
“Não pretendo continuar por muito tempo, a escrever colunas para o jornal”.
“E o que pretende?”
“Tornar-me de fato um escritor”.
“Desde quando não renova o seu exame de sanidade mental?”
Não respondi.
“Mas eu respondo: Se pretende isso pra sua vida, deveria ter nascido noutro país, menos esse”.
“E o que me diz da nossa cidade?”
“Inspiradora. Mas, como você já deve saber a inspiração não se mede; não se pesa e não se conta. Portanto, não tem valor. Nenhum”.
Não ousei encará-lo. Preferi saborear o café, aguardando por mim, sobre a mesa, antes que esfriasse.
“Você perdeu – ele disse, trazendo-me à realidade – Admita. Seu tempo passou. Você tentou. Fez o seu melhor. Mas nada conseguiu. Console-se, meu camarada, como você existe milhares de outros. E já existiram outros tantos milhares. E você está vendo um diante de si, nesse exato instante. Agora, seja bonzinho, e me pague um pastel. Porque a Senhora Fome, essa dama cruel, acaba de chegar fazendo escândalo”.
Então, enquanto comia um, dois, três pastéis, ele me contou sua história, e exigiu que eu a registrasse, toda ela, no meu caderninho de notas, que, por uma sorte, trazia comigo.
Terminamos a noite, bêbados e abraçados, naquele mesmo banco da estação, onde nos conhecêramos. Ao amanhecer, vi ainda sonolento, as primeiras luzes do dia, alcançarem o asfalto molhado da rua, onde as pombas ciscavam, na esperança de encontrar algumas migalhas, talvez um resto de pastel, com a qual pudessem matar a sua fome. Longe, o gari, com uniforme laranja e seu carrinho barulhento, varria o meio fio da calçada. Os primeiros ônibus não demorariam a chegar da garagem. Aos poucos, a cidade de Rio Claro, ia ganhando os ares de normalidade das segundas-feiras. Algumas pessoas indo de bicicleta para o trabalho, outras de moto, e outras a pé. Escutava-se uma conversa aqui, outra ali, nada importante. Não havia jornais da cidade. Eles não circulavam às segundas-feiras. Coisa chic, de cidade do interior. Algumas.
Não lembro exatamente o que fiz daquelas anotações, nas quais o Senhor Mentira me contara com grande entusiasmo a sua história, durante toda a noite que passáramos juntos, conversando, bebendo e fumando. A propósito, ele se foi naquela manhã, sem se despedir. Nem mesmo um olhar. Porque, como bom escritor, que presumo fosse ele julgou que a página da vida que lhe rendera a nossa rápida convivência, não saíra lá muito boa, então resolvera desprezá-la, sem nenhum receio, e nenhum pudor. Nenhum remorso. Porque assim fazem os bons escritores, descartam tudo o que lhes não presta. Palavras e pessoas.
Fui menos audacioso que ele, mais comedido, e guardei ao menos essas lembranças, nada sobre sua intimidade, sua vida, nada. Apenas algumas lembranças de nossa despretensiosa e agradável convivência, das quais agora se ocupa essa crônica.








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