sexta-feira, 31 de agosto de 2018

LIVROS, CAFÉ e CIGARROS


Escrever sobre amenidades é algo que me fascina e me estimula a não abandonar o lápis e o papel. Confidência: tudo começa com a primeira frase, a mais verdadeira possível, e depois, o texto nasce, aos poucos, no papel, manuscrito, à lápis. Só então, depois de revisado e corrigido umas mil vezes, mil e uma, pra ser mais exato, chega ao computador. Esse texto, que você está lendo agora, estimado leitor, surgiu assim.
Reprodução
Contudo, a ideia agora me falta. E esse é um problema a ser vencido. Há um prazo para ser cumprido, um padrão a ser observado. Não se trata de excesso de preciosismo da dona editora, mas de atendimento à necessidade de produzir um jornal que seja agradável no seu aspecto visual e prazeroso na sua leitura. É o compromisso com o leitor. Anda meio esquecido, tantas são atualmente as mídias através das quais a notícia e a informação chegam a quem se destina: Você.
Mas é preciso buscar a ideia que dará forma e conteúdo ao texto que aqui se pretende escrever. Mesmo que para isso, seja necessário arrancá-la das entranhas do inconsciente, onde ficam registradas todas as informações e experiências por nós vivenciadas ao longo do tempo.
Há um truque, do qual sempre recorro para suplantar o famigerado bloqueio criativo, que é: “Observe pessoas e coisas e acontecimentos como são e tente imaginá-los como poderiam ter sido. Inverta a ordem, contrarie a natureza, desarticule o estabelecido, reinvente. Funciona na ficção, um pouco no discurso opinativo, e outro tanto para a vida. Vai por mim.
Bom, já consumi quase toda a quantidade de caracteres que me é permitido ocupar nesse precioso espaço que é a página 2 deste jornal. Sinal de alerta ligado. Reconheço que até agora não cheguei ao cerne da questão, o leitor saberá, daqui a pouco, que isso exatamente não vem ao caso. Espero conduzi-lo com interesse até a última linha desse texto. Vamos ver se consigo.
Como eu ia dizendo, a previsão do tempo para essa sexta-feira indica nuvens intermitentes, temperaturas oscilando entre 17 e 28 graus, e 5% de probabilidades de chuva. Nada mal para um inverno que chega ao fim, sem de fato, ter dado as caras.
Hoje é sexta-feira, my brother, pega leve, que a festa está só começando e o melhor está por vir. Divirta-se com responsabilidade. Eu, por exemplo, vou me debruçar à leitura de “O Estrangeiro” do finado Camus. Vou tomar um café, aos poucos, bem devagar, enquanto me deixo levar pelas aventuras do misterioso Meursault, tentando entender as suas razões para ter matado um homem e não ter derramado uma lágrima sequer no velório da sua saudosa mamãe. Sujeito esquisito esse Mersault.
Ah, os cigarros! Talvez, a essa altura da leitura você deve estar se perguntando sobre eles. Pois bem, os cigarros. Essa é uma tentação que continuo tendo de vencer, todo santo dia. E hoje é apenas mais um. Por sinal, antes que eu me esqueça: Bom dia, leitor!
*Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 31/8/2018, à pág. 2.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

ACORDA, POVO!


Quando entrar setembro, e a boa nova andar nos campos... Assim Beto Guedes inicia a mais linda e talvez mais conhecida de suas canções. Um hino que conclama a paz e ao amor, virtudes que todos nós, deveríamos buscar, não fossemos tão egoístas e orgulhosos.
Quando entrar setembro, daqui a dois dias, iniciará o mês da campanha eleitoral. Serão vários cargos em disputa, o mais importante, o de presidente da república.
Observa-se o rol de candidatos e percebe-se que a tão sonhada boa nova está ainda muito longe de andar nesses campos.
Sempre as mesmas promessas e os mesmos discursos, aqueles que o eleitor menos atento, menos interessado, aprecia ouvir. Promessas e discursos esquecidos, sepultados na gaveta, já no dia seguinte ao da eleição.
Há um discurso para obter o poder, e outro para manter-se nele. E para nós, eleitores, há uma forma de viver e morrer por nada, que é acreditar nas boas intenções da classe política brasileira.
Não sei o leitor, mas eu não me iludo. Não me deixo mais me levar por promessas, discursos e falsas aparências. Fujo disso. Eles são todos iguais, os candidatos. Alguns, até disfarçam muito bem.
Mas pense você leitor, o que está por trás de um candidato. Quais interesses de quem os apoia com recursos financeiros? A quem o candidato teve de pedir benção e beijar a mão para chegar na condição de candidato?
Então, o candidato não surge da vontade do povo. Mas da vontade daqueles que se servem do povo. Não pode haver democracia plena num sistema perverso como esse. Escolhemos, nós, eleitores, os previamente escolhidos, por aqueles que, de fato, mandam ou aspiram mandar.
As pessoas mais esclarecidas, mais interessadas em conhecer e entender como funciona o sistema que oprime o povo, que ridiculariza a liberdade e o direito do povo para escolher seus representantes, perderam a ilusão de que um homem, o candidato, eleito pelo povo, poderá redimi-lo de suas mazelas e suas desgraças. Não pode. Nunca pode. Ainda que durante muito tempo, acreditou-se nisso.
As pesquisas de intenção de voto, até o momento, caso, de fato, reflitam a realidade, o que duvido, apontam o favoritismo de um condenado cumprindo pena, por corrupção e lavagem de dinheiro, e um doido varrido radical que sugere resolver todos os problemas do país na base da brutalidade. Os demais candidatos, dispenso comentários. E acho que o leitor, também.
Enfim, esse é o sistema, e enquanto prevalecer, nada irá mudar, não importa quem vença a eleição.
A questão não é escolher um candidato para votar para presidente da república. A questão é: até quando, nós, a classe trabalhadora, os empresários, os agricultores, os comerciantes, os educadores que produzimos a riqueza desse país de dimensão continental chamado Brasil iremos permitir que essa riqueza seja utilizada para manter os privilégios da classe política, a qual se mantém absolutamente em dissonância com as necessidades e anseios do povo brasileiro.

sábado, 25 de agosto de 2018

O SENHOR MENTIRA


Noite adentro, leio uma resenha literária sobre um autor negro, no jornal que a vizinha costuma desovar no corredor que me leva ao quarto pequeno, imundo e bagunçado da pensão miserável onde moro. Ela tem 80 anos, a vizinha, senão mais, e, diferentemente de mim, consegue sabe-se lá como, abaixar-se sem sentir dor, para realizar seu ato de caridade para comigo, que é todas as segundas-feiras, doar-me o jornal que ela e família, consome avidamente. E, por família, entenda-se, a irmã que mora ao lado, os netos, que aparecem vez em quando e o irmão; não sei se mais velho ou mais novo, mas, tão capenga quanto ela, o qual, toda segunda-feira, é bom destacar isso, vem depois das 9 pra tomar, acredito eu, uma xícara ou duas de café passado na hora. E talvez, quem sabe, biscoitinhos de maisena também, e, salvo engano, ele aproveite para perder gostosamente preciosos cinco minutos de sua laboriosa rotina diária de funcionário público aposentado, que consiste na difícil, e, por vezes, impossível tarefa, de solucionar as palavras cruzadas publicadas no jornal, que depois será lido por mim, não todo, mas a parte que me interessa.
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É o que faço nesse exato momento, recém-chegado de São Paulo, onde eu fora acompanhar o meu mano, à primeira de suas visitas ao simpático Dr. Teng, um cobrão, segundo dizem, na especialidade de membros superiores, isto no livro de Ciências da escola, se me não engano, queria dizer mãos.
E na contra capa do caderno de cultura do jornal que leio, encontro a matéria de página inteira de outro autor lançado na inglória aventura literária, aos 46 anos, e, confesso, não consigo conter o riso. Coitadinho! – como exclamaria meu amigo o Prof. Clayton – logo irá se juntar aos outros infectos sepultados no cemitério das esperanças perdidas. Será o seu destino. Inevitavelmente. Será sim. Por melhor seja o reles escriba.
Isto me fez lembrar uma passagem que vivi dia desses, em frente à estação ferroviária, onde param os ônibus, e não se assuste o leitor menos avisado, porque estamos falando de um acontecimento ocorrido em Rio Claro, onde, de fato, geralmente, o surreal se torna realidade, sobretudo ao que se refere à vida política da cidade e às obras públicas.
A Estação Ferroviária inaugurada em 1876, com a chegada da ferrovia, que serve atualmente para acolher os despojos dos vagões e máquinas abandonadas, e para embarque e desembarque de passageiros de ônibus que circulam no perímetro urbano da cidade. As observações se fazem oportunas.
Era um domingo à tarde e eu caminhava pela plataforma, cabisbaixo, envolvido por aquele modorrento clima de “Deus me tire logo daqui!”, tão comum à minha sensível esperança, nas tardes de domingo, em cidades pequenas e desinteressantes do interior como Rio Claro.
Então, em dado momento, disse-me um homenzinho, arrancando-me do meu torpor.
“Tem um cigarro para me dar, por favor?”
O homem estava num dos muitos bancos que existem por toda a extensão da longa plataforma. Ajeitei os meus óculos que caía sobre o nariz, então respondi:
“Lamento. Não fumo.”
“O que você lamenta? – ele retrucou ofendido – O fato de eu não fumar ou de você não ter um cigarro para me dar?”.
Fiquei sem resposta e olhando pasmo na direção dele. O dia não tinha sido nada fácil. Problemas no trabalho, contas atrasadas e falta de dinheiro. Não bastasse, e tinha agora que lidar com a ignorância de um senhor que talvez não encontrasse nada melhor a fazer do que importunar a vida dos outros.
Então, o homenzinho soltou uma sonora gargalhada, momento em que pude ver sua dentição um tanto estragada.
Ele tinha um olhar cansado, barba por fazer e cabelos brancos, alguns. Suas orelhas eram grandes tanto quanto seu nariz, por sinal, muito avermelhado. E as suas mãos, pude perceber, quando ele as tirou do bolso, demonstravam impiedosamente as marcas do tempo e dos anos ininterruptos da lida pesada.
Esperei mais um pouco lhe dando tempo para justificar a gostosa risada, o que não fez.
Resolvi então, tomar o meu rumo, dando nosso assunto por encerrado. Mas logo descobri que ele não pensava assim. Eu já dava o terceiro passo em direção ao ponto onde tomaria o ônibus que me levaria para casa, quando novamente, ele voltou a me surpreender, arrancando-me do silêncio da minha solidão.
“Não vai se despedir de um pobre velho enjeitado, meu camarada?”
Constrangido um tanto, lhe pedi desculpas e voltei a caminhar, cabisbaixo, como de costume, mas não por muito tempo.
“Eu escrevi durante muitos anos, sabe, nessa espelunca de jornal onde você publica suas colunas, às sextas-feiras, a cada quinze dias” – ele disse.
“Parece que deixou de fazê-lo já faz algum tempo?” – indaguei, lembrando-me do estado de suas mãos, que havia observado há pouco.
Esperei por uma resposta, e ela veio na forma de um pedaço de jornal, dobrado, que ele, com alguma dificuldade, pois suas mãos tremiam, tirara do bolso do paletó surrado que vestia.
“Não se espante – se o estado das minhas mãos não combina com as de um escritor. Saiba que antes de fazer fortuna com seus romances policiais, Edgar Wallace trabalhou como tipógrafo, jornaleiro, entregador de leite e enfermeiro. E segundo Penélope, sua filha, arriscou-se até na construção civil”.
“E ele era o quê?” – indaguei, como que expondo-lhe a armadilha, na qual pretendia apanhá-lo com minha resposta.
“Como assim?”
“A nacionalidade dele, qual era, ora?”
“Wallace era americano, evidentemente”.
“Pois então, está explicado. Ele, americano, você brasileiro”.
“Você também”.
“Pois sim. E esse deve ser o motivo, que me faz sobreviver aos 30 anos, ganhando uns míseros trocados como revisor na espelunca de jornal, segundo sua opinião, onde escrevo”.
“Não pretende ler a minha melhor coluna? Eu a publicava, uma vez por semana, no mesmo espaço que você ocupa atualmente”.
“Prometo que o farei algum dia”.
“Algum dia e talvez você não me encontre mais aqui”.
“É possível, admito, mas agora tenho de pegar o meu ônibus que acaba de encostar”.
“A minha melhor coluna também foi a última”.
Fiquei a olhá-lo curioso, esperando que revelasse o motivo. Mas não o fez.
“Lamento”.
“Quem deve ter se lamentado, imagino, foram meus leitores, que ficaram órfãos do melhor cronista desta cidade”.
“Creio que sim”.
“Sabe, eu os tinha em grande quantidade, os meus leitores”.
“Que maravilha, meus parabéns”.
“Eles enviavam cartas à redação, elogiando-me”.
“Você deveria se sentir muito orgulhoso, certamente?”
“Pois sim. Mas isso nunca foi motivo para que me dessem um aumento”.
“Talvez o jornal não atravessasse uma fase financeira muito boa naquele tempo”.
“Que nada! É que eles realmente não sabem reconhecer o valor de um bom cronista”.
Olhei para trás e, preocupado, observei que os passageiros já subiam para o ônibus que eu iria tomar.
“Não sei o que dizer. Sinceramente”. – admiti.
“Já fui um bom escritor. Escrevi artigos de opinião, crônicas, resenhas literárias, reportagens, contos, peças de teatro, roteiros para cinema, tevê e propaganda. Arrisquei até alguns poemas sentimentais e romances. Experimentei todas as linguagens com as quais se podem expressar a vida com palavras. Mas isso não lhe significa nada, não é mesmo?”
E antes que eu lhe perguntasse por que motivo haveria de significar, ele se adiantou:
“Deveria. Pois você irá terminar como eu. Talvez, sentado nesse mesmo banco”.
“Daqui a quantos anos?”
“Muitos anos” – ele disse, em meio um sorriso jocoso.
“Nada mal. Até lá, quem sabe, Deus mude de ideia”.
“Se ele se lembrar de você”.
“E por que não lembraria? Afinal, nunca se esquece de mim quando o assunto em questão se refere às desgraças da vida”.
“Vê-se que não, realmente”.
E nessa sua frase havia um viés de maldade que resolvi ignorar.
“Problemas?” – então, eu disse.
“O maior de todos. O que mais humilha um homem”.
Novamente nos olhamos diretamente nos olhos. E, para o meu desespero, percebi pelo barulho, que o ônibus que eu tomaria já se colocava em movimento. Pensei correr para alcança-lo. Mas fui impedido, não por minha benevolência, mas por minha curiosidade. Vendo que eu não tomaria a dianteira no nosso despretensioso diálogo, ele prosseguiu:
“Silêncio, meu camarada. Eis o problema” – disse, quando imaginei que fosse dizer que o seu maior problema era o bendito dinheiro ou a falta dele.
“Silêncio...” – ele repetiu, deixando em suspenso a conclusão da frase.
Fiquei a olhá-lo, um tanto decepcionado, porque imaginava que ele pudesse me revelar algum segredo, alguma situação, um fato extraordinário que eu pudesse aproveitar numa futura crônica, quem sabe.
“Silêncio. E solidão”.
Muito bem. Estava montado o cenário da tragédia. Eu tinha diante de mim um senhor de idade, desempregado, talvez doente e solitário, preso, porém, ao seu talento irresistível de escritor e ao seu desânimo; sua triste realidade que sabia não ter meios nem forças para mudá-la àquela altura da vida.
“Como se chama?” – resolvi perguntar.
Confesso que naquele momento, não encontrei nada melhor que pudesse lhe dizer.
“Não importa”.
“Mas deve ter um nome”.
“Certamente” – ele disse isso, com profunda tristeza e, abaixando a cabeça; respirou fundo, ainda com os olhos voltados para o chão, então concluiu:
“Senhor Mentira” – chame-me assim – Afinal, que outra coisa, nós escritores, fazemos de melhor senão isso: mentir.
“Prazer – disse-lhe, estendendo-lhe minha mão – Sou o Senhor Dissimulado. Uma versão, digamos, mais atualizada, do Senhor Mentira”.
Então, pela primeira vez, ele sorriu, disfarçadamente.
“Talvez possamos tomar um café no bar logo ali – sugeri – Tenho ainda alguns minutos até que o ônibus retorne à Estação”.
Já instalados no bar, ofereci-lhe que comesse um pastel, mas ele recusou.
“Tem certeza? Não está com fome?”
“Se eu estivesse, eu lhe diria, esteja certo”.
“E por que deveria acreditar em suas palavras, Senhor Mentira?”.
“Porque elas saíram de minha boca e não de minhas mãos”.
Ele riu novamente. E eu também.
“Você é um bom menino” – ele disse, saboreando seu café.
“Gostaria de ter escutado isso quando eu tinha 12 anos”.
“No meu tempo e no seu, ainda, era muito difícil escutar um elogio, quando se tinha 12 anos. Mas hoje é tudo diferente. As pessoas são elogiadas mesmo sem merecer.”
“São os tempos”.
“Malditos tempos. E glória a Deus, que minha estadia está chegando ao fim. E a sua, lamento, está apenas começando”.
“Não pretendo continuar por muito tempo, a escrever colunas para o jornal”.
“E o que pretende?”
“Tornar-me de fato um escritor”.
“Desde quando não renova o seu exame de sanidade mental?”
Não respondi.
“Mas eu respondo: Se pretende isso pra sua vida, deveria ter nascido noutro país, menos esse”.
“E o que me diz da nossa cidade?”
“Inspiradora. Mas, como você já deve saber a inspiração não se mede; não se pesa e não se conta. Portanto, não tem valor. Nenhum”.
Não ousei encará-lo. Preferi saborear o café, aguardando por mim, sobre a mesa, antes que esfriasse.
“Você perdeu – ele disse, trazendo-me à realidade – Admita. Seu tempo passou. Você tentou. Fez o seu melhor. Mas nada conseguiu. Console-se, meu camarada, como você existe milhares de outros. E já existiram outros tantos milhares. E você está vendo um diante de si, nesse exato instante. Agora, seja bonzinho, e me pague um pastel. Porque a Senhora Fome, essa dama cruel, acaba de chegar fazendo escândalo”.
Então, enquanto comia um, dois, três pastéis, ele me contou sua história, e exigiu que eu a registrasse, toda ela, no meu caderninho de notas, que, por uma sorte, trazia comigo.
Terminamos a noite, bêbados e abraçados, naquele mesmo banco da estação, onde nos conhecêramos. Ao amanhecer, vi ainda sonolento, as primeiras luzes do dia, alcançarem o asfalto molhado da rua, onde as pombas ciscavam, na esperança de encontrar algumas migalhas, talvez um resto de pastel, com a qual pudessem matar a sua fome. Longe, o gari, com uniforme laranja e seu carrinho barulhento, varria o meio fio da calçada. Os primeiros ônibus não demorariam a chegar da garagem. Aos poucos, a cidade de Rio Claro, ia ganhando os ares de normalidade das segundas-feiras. Algumas pessoas indo de bicicleta para o trabalho, outras de moto, e outras a pé. Escutava-se uma conversa aqui, outra ali, nada importante. Não havia jornais da cidade. Eles não circulavam às segundas-feiras. Coisa chic, de cidade do interior. Algumas.
Não lembro exatamente o que fiz daquelas anotações, nas quais o Senhor Mentira me contara com grande entusiasmo a sua história, durante toda a noite que passáramos juntos, conversando, bebendo e fumando. A propósito, ele se foi naquela manhã, sem se despedir. Nem mesmo um olhar. Porque, como bom escritor, que presumo fosse ele julgou que a página da vida que lhe rendera a nossa rápida convivência, não saíra lá muito boa, então resolvera desprezá-la, sem nenhum receio, e nenhum pudor. Nenhum remorso. Porque assim fazem os bons escritores, descartam tudo o que lhes não presta. Palavras e pessoas.
Fui menos audacioso que ele, mais comedido, e guardei ao menos essas lembranças, nada sobre sua intimidade, sua vida, nada. Apenas algumas lembranças de nossa despretensiosa e agradável convivência, das quais agora se ocupa essa crônica.








quarta-feira, 15 de agosto de 2018

COISAS INEVITÁVEIS


É preciso exibir as dores?
Compartilhar os dramas?
É preciso acusar os erros?
Expor os defeitos?
Enaltecer as quedas?
As minhas e as suas, as nossas
É preciso entregar-se?
Irremediavelmente vencido
Calado, humilhado
Aos inimigos sedentos à espreita
É possível acreditar no depois?
Na página seguinte
No olhar à espera
Quando tudo em volta
Se resume à ausência de esperança?
E quando tudo, dentro, aqui dentro, é nada
É possível caminhar no escuro?
Apesar do medo, ao lado
É preciso desnudar-se em palavras?
Para ser entendido, aceito
Para quê?
Se tudo vai e volta
Faz e se desfaz
Nessa ilusão de formas e cores
Da qual fazemos parte



RECOMEÇAR


Conta-se que em determinado momento da vida, a águia isola-se no alto do penhasco, para trocar de bico, unhas e penas. E se sobreviver, a esse doloroso e longo processo de renovação poderá cumprir com dignidade o seu destino.
É o que todos buscamos, em determinado momento, seja na vida pessoal ou na profissional: Renovação. E ela se torna inevitável, quando o êxito nos empurra para a zona de conforto. É um gesto traiçoeiro da vida para conosco, porque ele só nos mostra os benefícios de nossas conquistas, não revela que o perigo está logo ali.
Reprofução
Por isso, algumas perguntas se fazem necessárias, naquela hora em que nos acreditamos o máximo porque tudo conspira a nosso favor. A primeira: Já parou pra pensar que talvez você não agrade tanto assim? E que as pessoas não reparam em você com os olhos de admiração que você supõe? Não, pelo menos, do modo como você pensa, quando recebe um elogio?
Já parou pra pensar que talvez você não seja tão bom quanto imagina? E que nem é tão insubstituível quanto acredita, quando ouve pela manhã algo como “Eu te amo, querido” enquanto um par de olhinhos meigos, inchados e preguiçosos encontra o seu?
É, meu caro, a vida é bela. E não quero estragar o seu dia que apenas inicia. Vá tomar café, escove os dentes, e depois voltamos a conversar.
Não dá tempo? Eu sei. Tanto quanto tenho certeza que ao menos por um instante essas perguntas irão roubar sua atenção. Até que surja um aviso de um novo zap chegando, quentinho, no seu possante smart 4G.
Os dias que sucedem apressados subtraem de nós o interesse e a expectativa de nos conhecermos melhor a nós mesmos, de sabermos o que e quem somos realmente. Ou como disse a Larissa Lebanon Hannover: “Estamos muito desorientados nesse mundo e não sabemos de onde pertencemos”.  Fato.
E de minha parte, confesso, também não sei. Já perdi meu tempo tentando entender coisas tão estúpidas de tão óbvias como o famigerado sentido da vida. Ora, a vida! A vida é a vida. Nascer, viver e morrer. E para alguns, renascer ainda e progredir sempre. Ou nada disso. A vida, sou eu, é você, somos nós. Paridos e cuspidos nesse mundão. Jogando no time dos aspirantes a angelitude. Não havia outro destino mais razoável para nós?
Ok. Tenho lá minhas dúvidas. Duvido de tudo e de todos. Até de mim. Portanto, o que fizermos e o que seremos depende apenas de nossa vontade. E nada mais. Prefiro assim. E você?  Qual a sua, leitor? Conte-me.
As coisas nem sempre sairão tal como se imagina. Ora, mas para isso, é que temos inteligência. Para encontrarmos atalhos, caminhos, soluções, e sobrevivermos, enquanto nos seja possível, enquanto algo que nos leve a continuar na luta faça sentido.
E impressione nossa alma, naquilo que ela tem de melhor, a capacidade inata de se emocionar. E convença, talvez, nossos olhos e nossos corações, de que somos sim desejáveis, indispensáveis, importantes e bons, realmente bons naquilo que fazemos e para a vida de alguém.
Não fique triste se algum dia, aqueles olhinhos meigos, preguiçosos e inchados se cansarem dos seus e decida buscar novas paisagens. Se um dia, você receba um zap, de alguém se dizendo muito agradecido, e coisa tal, mas que dispensa seus valorosos serviços a partir daquele momento.
Não, não fique triste. É a vida a convidá-lo a botar a cabeça pra funcionar. A limpar as gavetas do coração, abarrotadas de lembranças que não se repetem e de coisas inúteis. A ser, enfim, o que e como você sempre quis.
É o seu melhor momento. Não é um momento de lágrimas, dor ou despedida. É o momento de olhar adiante e seguir em frente, sem olhar para trás. Reaprender a viver um dia de cada vez, reconhecendo e valorizando tudo o que é belo e bom e tem passado despercebido ao longo de todos esses anos, que você viveu sufocado pela necessidade de honrar compromissos, inclusive os sentimentais. É momento de partir em direção a novos dias, em busca de uma nova vida, levando consigo apenas uma coisa: você mesmo, e sua vontade de ser feliz. Pois então, seja!
* Artigo publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 17/08/2018, à pág.2.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

CERTO OU ERRADO?


O problema da vida é o depois. E é um problema para o qual não se tem solução. Estamos condenados à imortalidade. E quando digo nós, não me refiro àquilo que surge, sobrevive e apodrece. Mas ao que pensa, sente e age. Ego, individualidade, espírito, persona dê-se a isso o nome que se queira dar: somos nós; cada um de nós.
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Mas, por ora, para o bem e para o mal, estamos aqui, ainda com os pés como que chumbados a essa terra que nos há de comer. Corrigindo: Há de comer a roupa com a qual nos vestimos temporariamente, enquanto durar nossa estadia por essas bandas, que, como todos sabem ou deveriam saber é escola para uns e hospital para outros. É também templo sagrado para aqueles entre nós, poucos, que já aprenderam a amar realmente, ou seja, sem impor condições nem estabelecer limites, e sem olhar a quem. Difícil? Muito! Mas não impossível.
Bem, chega de parênteses filosóficos, temos um compromisso com você, leitor. Entretê-lo com amenidades. Seu tempo é curto e o nosso também. E o café já esfria sobre a mesa. Eu ia dizendo que o problema da vida é o depois. E isso porque, a meu ver, o cara lá em cima, não satisfeito com sua obra grandiosa e bonita, achou que ela deveria melhorar sempre. Eis o nosso problema: o depois. E por mais absurdo que pareça, tratou de arrumar espaço para tudo e para todos se melhorarem e se reproduzirem a perder de vistas. Ao menos é o que dizem alguns homens de ciência, quando se referem ao universo em expansão e a multiplicidade dos setes viventes, alguns incriados e outros desconhecidos. Tenho cá minhas dúvidas quanto a tudo isso, mas agora não vem ao caso.
O que de fato importa é que nascemos para viver em sociedade, nos ajudarmos uns aos outros, sempre, para que todos prosperem em intelecto e moralidade. Ao menos é o que nos ensinaram que é como deveria ser.
Mas, então, logo pela manhã, ligamos o rádio e somos bombardeados com notícias de crimes de toda sorte. Lembrando: crime é a maldade que se comete contra o semelhante, direta ou indiretamente. E convenhamos, somos realmente muito criativos quando o assunto é cometer maldade.
Confesso, de minha parte, que atualmente pratico maldade muito mais contra mim mesmo do que contra o meu semelhante. Refiro-me aos excessos, também conhecidos como os prazeres inenarráveis da vida, frente aos quais, sucumbe a razão invigilante e desatenta.
Então, é muito natural, que algumas pessoas, dentre elas, este que vos fala, opte muito sabiamente por dar uma bela banana ao mundo, e criar um para si mesmo, onde possa viver nos limites da sua sanidade, ao alcance de seus prazeres e nos conformes das suas aspirações, algumas inconfessáveis. Esperando com isso desfrutar de dois dos maiores tesouros dos quais se tem notícia: tranquilidade e satisfação.
Serão egoístas tais pessoas, por renunciarem ao convívio humano e à necessidade imprescindível de estar inserido e atuar em uma sociedade louca, injusta, contraditória, incoerente, onde o mal impera? Ou serão tais pessoas providas de lucidez? Porque, ao que parece, a sociedade humana faliu no seu projeto de paz e amor. E não houve até hoje ideologia política, filosofia ou religião que desse jeito nisso. Muito óbvio! Tudo isso é criação humana. Por conseguinte padece do egoísmo, do orgulho e da maldade inerente ao ser humano. Traduzindo: Nós, gente boa!
Viver isolado da realidade comum à maioria é opção que traz em seu bojo um risco calculado: o ostracismo e o esquecimento. Mas nem por isso menos fascinante. Não é o caso de se embrenhar na mata e nem se trancar num apartamento para encontrar e viver conforme os ditames do eu interior. Mas, de não se envolver com questões e problemas alheios, quando não temos solução sequer para os nossos. Egoísmo ou sobrevivência? Eis a questão, para a qual não tenho resposta. E você, leitor, acaso a possui?



OS DIAS ENSOLARADOS


Os dias ensolarados
Não fazem parte das minhas lembranças
A frase que sobrevive
Em meio aos escombros de sentimentos
O sepultamento
A chuva
As histórias adormecidas no passado
Não contadas, ocultas
O passado, distante e incerto, temido, evitado
Tristeza, muita
Muita mágoa, muita dor, muito ressentimento
Muita sensação de vida, contida, vida não vivida
Reprimida, vida doída
Muito medo
Do que não vejo, não sei, talvez saiba
Medo, muito, do que sinto
Muito incômodo que me causa o tempo perdido
Do poema esquecido
Na gaveta, num canto da memória
Muita dor, dor que sufoca, dilacera, aprisiona, afunda
Bem fundo, e bem escuro, beco sem saída
Medo,
De tudo, o que há de ruim, feio, doente
Muito, muito medo, a perder de vista, 
Em suaves prestações
Muito medo!
Medo sem fim, enorme
Aqui dentro...
 
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sexta-feira, 3 de agosto de 2018

SOM NA CAIXA, MAESTRO!


Ninguém me tira da cabeça que a música influencia na formação do caráter da gente quando jovem e, mesmo antes, quando adolescente.
Tem aquelas para as quais a gente sempre recorre quando precisa recobrar um sentimento adormecido, um acontecimento posto no porão da memória pela avalanche de sucessões ininterruptas de fatos do dia a dia que acabam escrevendo a nossa história.
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Chame de saudosismo, nostalgia, lembranças, e talvez seja mesmo tudo isso. Há coisas que não morrem dentro de nós. O sentimento que a música nos proporciona é um deles. Não importa a medida que o tempo nos distancie dos acontecimentos marcados por aquelas músicas, aquelas. Sentimentos os quais vivenciamos ontem, logo ali. Talvez, há décadas. Mas que, por causa da música, a gente descobre que continuam muito vivos em nossos corações.
Não sei se vale como regra, se acontece com todo mundo, mas a gente começa a descobrir e a curtir música com o irmão mais velho. E a partir disso, a gente vai compondo o set list de nossas vidas. Isso também vale para as outras coisas essenciais da vida: o amor, por exemplo.
Porque a gente, de tanto ver os mais velhos, quer fazer igual e acaba fazendo, e porque quer viver igual acaba vivendo. E a música também influencia o nosso comportamento. Ela é estímulo e inspiração. Sobretudo, quando a gente deseja provar a si mesmo, aos pais, aos irmãos mais velhos e aos amigos mais chegados, que a gente também existe, ora bolas!
E por melhor seja a trilha sonora por nós escolhida para embalar as nossas tentativas, essas não costumam dar certo, de início, devido nossa inexperiência, nossa falta de jeito com as coisas e de tato com as pessoas. E a gente sempre esbarra ou cai de cabeça no ridículo, que a meu ver, é, certas ocasiões, essa outra coisa insana que psicólogos chamam de rito de iniciação.
Pois sim, rendo-me às evidências. Adolescentes, jovens, adultos ou idosos, beiramos o ridículo em alguns momentos da nossa pobre existência, cantando ou dançando sozinhos ou em público, em situações, digamos, constrangedoras, após alguns excessos etílicos ou meramente sentimentais, quando ouvimos determinadas músicas que de algum modo marcaram nossas vidas. Sim, ridículos. Que importa? Temos o direito de sê-lo. Desde que isso nos faça feliz.
Mas há situação pior, mais vexatória, embora não menos prazerosa. Beiramos o ridículo quando, por exemplo, ouvimos determinadas músicas já enterradas no subconsciente da maioria das pessoas com mais de 40 anos, o caso deste reles escriba, enquanto escreve essa porcaria de crônica que custa a sair ouvindo Peter Frampton – “Breaking All The Rules”.   E na sequência: Journey: “Don't Stop Believin”. É, meu velho, você já deveria saber: Hollywood é o sucesso! Boiou? Procura no almanaque!
Enfim, cá entre nós, quem garante, que os fatos inesperados da vida no dia de hoje, não nos levarão a terminá-lo, cantando, com aquela raiva sufocada pelo silêncio resignado das obrigações que nos são impostas: “If looks could kill”.
Haja coração, minhas colegas que já bateram na casa dos quarenta. Bom dia! E que seja mesmo bom, ouvindo música. Escolha a sua.
*Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 03/08/2018, à pág.2.