Um dia eu enfiei minhas coisas, minhas roupas dentro
de uma sacola de supermercado e sai para a rua, de cara para o mundo, em
direção ao norte. Hoje, eu entendo que se tivesse tomado a direção do sul, eu
jamais teria voltado, porque na direção evitada eu reencontraria o meu passado,
as minhas origens, a causa de tudo.
Eu tinha 09 anos de idade, acredite. E por algum
motivo eu me achava diferente, melhor que os outros. Achava aquelas pessoas com
as quais convivia e aquele lugar onde nasci e fora criado até então, insuficientes
para mim. Para aquilo que eu poderia fazer, e aquilo que eu era, porque eu
sabia que eu era mesmo sem saber como.
Era uma tarde de sábado. E disso eu tenho certeza
porque eu me lembro de ter visto meu pai naquele dia, lendo os jornais pela
manhã, e, à tarde, lidando com seus periquitos australianos, que ele criava em
grande número e relativo sucesso, em face sua, eu diria, obsessão em purificar
a raça. Também me lembro de naquele dia, ter visto meu irmão lavando o carro
que não era seu, era de meu pai, e depois o cachorro, que também não era seu, de
quem era mesmo? E vi também a minha irmã, sim, eu me lembro de também tê-la
visto... Não, não me lembro, não. Não me lembro de tê-la visto, mas ouvido a minha
mãe falar que minha irmã havia saído com o namorado, noivo, futuro marido.
Depois, o tempo viria mostrar a minha irmã que ela
estava enganada a respeito do futuro marido, tanto quanto eu me enganara sobre
o rumo que deveria tomar naquela tarde.
Sim, senhoras e senhores. Eu. Imagine. Diferente e
melhor que todos. Ao menos todos que viviam em meu redor.
Então, eu acho que foi naquela noite de sábado que
me deparei com o Nick Adams desenhado na capa de um livro que, não sei, jamais
soube por qual motivo estava na escrivaninha que ficava no quarto que meu irmão
e eu dividíamos.
Nick Adams. Pro inferno ele.
Pois, aos 9 anos, meus caros, eu não sabia que
aquele peste desenhado na capa do livro se tratava de Nick Adams.
Alguma coisa me levara a folhear sem nenhum
entusiasmo as páginas daquele livro e devolvê-lo ao seu lugar habitual, ao seu
insignificante lugar de esquecimento e desprezo eterno.
Foi nesse dia, agora compreendo que eu aprendi a
observar como as coisas são e imaginá-las como poderiam ter sido. Não tinha a
menor, a mais ínfima, e despretensiosa ideia de que passaria a vida a fazer
isso: observar as coisas, as pessoas, os acontecimentos reais e torná-los uma
mentira. Desfazer a imagem da vida alheia, a forma do barro de que ela fora
concebida e dar ao barro uma nova forma, uma nova imagem restrita à dimensão
exclusiva do meu pensamento, do meu mundo de aspirações, ideias e sentimentos
transformados às duras penas em palavras. Ou seja, ser um pouco Deus.
Mas não era isso o que aos 9 anos de idade eu
pensava e acreditava. Essas coisas, embora orbitassem em torno de mim, não
penetravam minha consciência, então protegida pelas mãos abnegadas e protetoras
de minha mãe, que de mim não descuidava um único segundo. Mãe onde está você?
Esse foi o modo que encontrei pra começar a contar
as coisas. Estas pelo menos.
Pessoas irão torcer o nariz, sem dúvida que sim.
Acalmem-se pessoas. Não há motivo para preocupação. As coisas, estas, bem
entendido, eu conto do modo como poderiam ter sido. E se alguém resolve sabe-se
lá aplicar o método da psicologia reversa, talvez se sinta estimulado a escutar
Her Zaratustra, que assim falava. Depois disso, acho que vêm um dois pontos.
Acho. Não sou especialista na matéria. Prefiro o professor Olavo e sua
sinceridade escancarada.
Nada mal. Recomendo que antes possíveis interessados
leiam “O Louva Deus e a Esperança” do nosso amigo Tiberius mais conhecido
atualmente como o poeta Anarquista. Por Deus, ele bem poderia ter escolhido uma
graça melhor. Vou deixar o endereço do distinto ao final do texto. E então
vocês que tirem satisfações com ele.
Porém, assim dizia o porteiro Amedeo, andiamo via. Logo. Não temos tanto tempo
quanto preciso. Sem pormenores, minúcias, eufemismos, parolices e
penduricalhos, e vamos aos fatos. E quais são os fatos? Quais são os fatos,
senhor advogado?
Que entre o advogado.
Poema O Louva Deus a esperança:

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