Se
alguém em sua santa ingenuidade achava que a Câmara Municipal, detentora do
poder legislativo iria aceitar as imposições vindas de alguns representantes do
segmento cultural de Rio Claro, ou vive no mundo do faz de conta, bem próprio
dos artistas, ou ainda não entendeu como funciona os meandros da política.
O
impasse está no caráter deliberativo que se pretende dar ao Conselho. E
deliberar nada mais é que resolver após exame e discussão. Isto é, resolver
sobre o que fazer, mas não executar.
Se
passar pela Câmara da maneira como pretende os artistas, não será surpresa se o
projeto que cria o Concult for vetado pelo poder executivo municipal, devido às
cogitadas implicações que poderiam acarretar problemas ao próprio executivo
municipal junto ao Tribunal de Contas do Estado, porque responde pelos recursos
aplicados no município.
Não
é difícil entender a história. Voltemos ao início. Alguns artistas de Rio
Claro, cansados e, com toda a razão de correr sem êxito com o pires na mão
suplicando, muitas vezes, sem ser atendido, seja pela iniciativa privada (apesar
das leis de incentivo) seja pelo poder público, para obter apoio, ou seja,
recursos financeiros, para os seus projetos artísticos e culturais, encontraram
na criação do Conselho de Cultura, um meio de se unir e se organizar legalmente
e obter recursos necessários à viabilização dos seus projetos.
Até
aí, tudo bem. Ocorre que se torna difícil desvincular o viés político das
iniciativas de ordem cultural e artística que tenham por objetivo, desbravar
outro caminho que não seja o da meritocracia. Nesta, se estabelece quem
competência tem.
Em
uma cidade como Rio Claro, as possibilidades de um artista, seja qual for a sua
área de atuação, destacar-se e viver de sua arte são quase nulas. Não há
mercado para isso. Não há interesse por parte da maioria da população. Se no
Brasil consumir arte e cultura é privilégio e costume de poucos, em Rio Claro
não é diferente. Aliás, fica meio desconfortável entender como Cultura apenas
aquilo que produzem os artistas.
Não
é ofensa perguntar se, por exemplo, haverá cadeira nesse pretendido Conselho de
Cultura para o segmento da Culinária, do Artesanato, porque parece que não há
para a Literatura, o que, convenhamos deixa o almejado órgão meio que caolho,
manco, por assim dizer.
Por
sinal, aqui cabe uma reflexão. Produzir literatura seja ela de ficção ou não, e
de boa qualidade, é bem mais difícil, leva mais tempo, exige mais empenho, do
que simplesmente montar peças teatrais que tratam de banalidades ou espetáculos
performáticos que escondem no disfarce do lúdico uma aspiração de grandeza artística jamais alcançada.
Quando
o vereador Carnevalle argumenta sobre um possível aparelhamento do eventual
Conselho de Cultura pelos representantes dos partidos de esquerda local, é
porque o nobre vereador, macaco velho da política que é já procurou se
informar, e chegou a uma conclusão que, nenhum pouco foge à realidade.
Ademais,
não cabe crítica ao pessoal da esquerda nesse sentido. É preciso, isto sim,
tirar o chapéu e reconhecer o mérito desse pessoal que reivindica, se organiza
e batalha por aquilo que entende certo e de seu direito. Ao contrário do que
fazem os adeptos não declarados (afinal, por pudor eles nunca se declaram) de
direita, que, para início de conversa, dispensam de saída os benefícios que
eventualmente o Conselho de Cultura possa lhes proporcionar. Do alto de seu
pedantismo e privilegiadas condições sociais e financeiras não se sentiriam evidentemente
necessitados e muito menos representados pelo Concult. Enfim, em terra
desocupada, quem chega primeiro, bebe água limpa. Que o diga a própria cidade
de Rio Claro, em seus primórdios.
Agora
serão mais 40 dias de expectativa. Tempo suficiente para o pessoal que luta
pela criação do Conselho de Cultura, se articular, encontrar novos argumentos
mais convincentes, enfim, fazer lobby, política. Eles são reconhecidamente
muito bons nisso. Palmas para eles. E boa sorte.
*Publicado no site Guia Rio Claro. Link para acesso: http://www.guiarioclaro.com.br/materia.htm?serial=151008206
*Publicado no site Guia Rio Claro. Link para acesso: http://www.guiarioclaro.com.br/materia.htm?serial=151008206


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