Cheguei não faz muito tempo. Foi tudo de repente. Um
piscar de olhos. Nada mais. Nenhum instante mais.
Agora percebo. E compreendo. Tudo se torna exato e
cristalino. Tudo se resolve. Tudo se justifica. Porque tênue é a linha que
separa a condição de ser e a de estar.
Sempre
imaginei este lugar como um jardim.
Ora, vejam! Respiro finalmente. Ainda sinto dor. Alguma.
Quase imperceptível. Entretanto, agora vejo, ouço, penso, e isto consola.
Alguém me trouxe até aqui. Colocou-me na cama,
deitado, me fez me sentir bem, relaxado, seguro. E por um momento, se deteve em
me olhar com demora. Pensei fosse um velho. Não. Era alguém feito eu. Jovem.
Tinha a bondade no olhar. A verdade nas palavras. E a segurança nos gestos.
Curioso, percebi isso agora há pouco. Porque aos
poucos vou percebendo e entendendo coisas. Mais e mais coisas, de modo que tudo
parece aos poucos voltar ao normal. Não ria do que vou lhes contar agora, sabe,
mas não visto alva túnica. Visto camiseta, jeans e tênis. A roupa de sempre. A
barba por fazer, de sempre. O cabelo crescido, um pouco. Imaginei que tudo isso
fosse deixar de existir, ficar para trás. Não. Não ficou. Continua existindo.
Eu continuo existindo. E depois de muito tempo, agora percebo que isso me faz
me sentir bem.
Acho que vou me levantar, e dar uma volta por aí.
Esta sala é grande demais. Adiante, pessoas acomodadas nos sofás espalhados por
essa imensidão de lugar, que apesar do tamanho é por incrível que pareça
aconchegante. Pessoas dividindo espaço com os vasos de enormes folhagens.
Vasos. Mesas de mármore. Samambaias. Pessoas lendo. Pessoas. Pessoas, feito eu.
Algumas pensativas. Pelos cantos. Olhares perdidos. É tudo o que encontro sem
maior esforço. Está diante dos meus olhos. Ao alcance de minhas mãos. Porque
existo.
Existo?
Não olhe para
trás. Não olhe – disse-me ele – A cada dia os seus minutos. Caminhe adiante.
Areje a mente. Abra o coração.
Era o que ele me dizia nos momentos de maior
tristeza, que, para mim, pareciam intermináveis.
Agora estas palavras ganham formas, adquirem vida. Brilho.
E ele, quieto, quase despercebido, se aproxima. E me
conduz em direção ao jardim. Noutros tempos, isto seria impossível. Nunca me
deixei levar por mãos e pensamentos alheios. Verdade, apenas a minha. Rumo,
apenas o meu. Destino, um só. Inevitável. Irreparável. Justo. Exato. E na
medida certa.
Sentamos num banco. Esperei que ele dissesse, mas não
disse. Fiquei a admirar a beleza do jardim a minha volta. Grandes árvores, de
troncos enormes e copas imensas. Canteiros de flores coloridas, das quais ainda
não aprendi os nomes. E nem pretendo. Para quê? Melhor observá-las e
absorvê-las em sentimentos de candura e paz que proporcionam.
Folhagens,
iguais àquelas que minha mãe tinha no jardim de nossa casa.
Ao longe, uma queda d’água. Aos meus pés, uma
nascente. Pássaros gorjeiam escondidos nas árvores. Vento refrescante fustiga
meu rosto. Mas não machuca. Acaricia.
Jamais um lugar assim me despertara tamanho
interesse, embora sua existência atravessasse algumas vezes os meus pensamentos
quando, levado pelos efeitos da natureza ultrajada, eu me deixava para trás e
me descobria em outras dimensões, outros mundos, que me convenciam sem
dificuldades ser merecedor de dádivas divinas ao contemplar ilusões e mentiras,
tais como: Aqui mora Deus. Você é um
anjo. Tudo pode.
E ao voltar, encontrava-me sujo, abandonado na
calçada de uma rua escura, numa noite fria, tentando apoiar-me na parede, mas
apenas conseguindo esfregar o rosto no chão, de novo. O chão imundo.
Desprezível.
Às primeiras luzes do dia, eu despertava, fosse aos
chutes de policiais despreparados ou por mãos caridosas. Entretanto, uma vez de
pé, ao invés da fome, o desejo. Rumo aos becos, aos bares, às portas que eu encontrava
abertas. Mulheres nuas faziam-me tocar os seus corpos, mas já não me lembrava
como.
Naquela manhã, achei um quarto onde me refugiar.
Sentei-me junto à parede, debaixo da janela. Alguém passou pelo corredor, olhou
para mim, riu. Tímidos raios de sol agora me faziam companhia. Fique mais um pouco. De repente,
tentando com desespero manter os olhos abertos vi em meu redor páginas e mais
páginas, todas manuscritas. Meu sonho desfragmentado. Senti-me o poeta,
descrente e farto de tudo e de todos, e partindo sem destino. Mas uma sombra se
apoderou de mim.
Foi isso. É tudo o que eu me lembro.
O homem que me acompanhava. O mesmo que um dia fora
apenas uma voz a penetrar minha consciência, ele me tomou pela mão, olhou-me
com esperança, e disse:
“Seja bem vindo,
boy! Aqui reiniciam os seus passos”.