Há um
cadáver insepulto entre nós. É o século 20. Em 1917, a sociedade humana já não
morria mais de amores pela Teoria da Evolução de Charles Darwin, pelo
Positivismo de Augusto Comte, nem pela Psicanálise de Sigmund Freud. Já não se deslumbrava
com a lâmpada incandescente inventada em 1816 por Louis Jacques Daguerre, nem
com o telefone, façanha que coubera a Antonio Meucci em 1854, e menos ainda com
o grande e perigoso Dirigível, obra e arte do audacioso Solomon Andrews, em
1863, desaparecido dos céus havia já muito tempo.
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| Reprodução |
Parecia que
a régua dos acontecimentos importantes havia sido passada na Exposição
Universal ocorrida em Paris em 1900, que tinha por objetivo enaltecer as
conquistas humanas do século 19 e voltar os olhos para o século 20, então,
preste a iniciar. E o século 20 se demonstraria avassalador em termos de avanço
tecnológico, de informação, de disseminação de idéias, cultura, hábitos e
costumes.
Tanto fez
nesse sentido o século 20 que ele parece se recusar a sair de cena. E talvez uma
das razões seja o armazenamento, preservação e disponibilidade de acesso às
informações, e dos fatos ocorridos, através das modernas mídias, que no século
21 atingem seu ponto culminante, mas que foram gestadas durante o século 20.
Assim,
imagens são preservadas, mesmo as mais antigas, com boa qualidade. Imagens
estáticas, como as fotografias, e imagens em movimento, como filmes e vídeos. Isso
parece contribuir para a perpetuação de hábitos e costumes praticados pelas
gerações que vivem a zona intermediária do tempo, que envolve principalmente, a
segunda metade do século 20 e as primeiras décadas do século 21.
As gerações
antigas se recusam a sair de cena, e as novas gerações vão se impondo, chegando
e ocupando espaço sem pedir licença, gerando o inevitável conflito de pontos de
vista, de gostos e preferências. O meu é melhor que o seu. Não, senhor, o meu
que é melhor. Esse é o diálogo infrutífero, que leva o nada a lugar nenhum, mas
que desperta paixões, algumas destruidoras de relações entre pais e filhos, por
exemplo.
Nas redes
sociais, é comum ver postagens do tipo: No meu tempo... ou, se você é do
tempo... – feitas por pessoas com não mais de 40 anos, às vezes 30. Absurdo
sentir saudade do passado por mais recente ele seja? Não para essas pessoas, que se acham bastantes
convencidas, de que no seu tempo, tudo era melhor. Resta perguntar a qual tempo
se referem? Ao da sua infância, adolescência? Nada mais sensato. Uma vez que
estas são fases da vida nas quais somos menos cobrados e temos menos
responsabilidades. Então, tudo tende a ser mais leve e mais bonito.
O século 20
ensinou as pessoas que as coisas podem durar eternamente. Ele, inclusive. Até o
século 19 era mais fácil esquecer as coisas, dá-las por vencidas, ultrapassadas
e inúteis. Os registros históricos se davam nos livros, aos quais, bem poucos
tinham acesso, também nas fotografias, quando conservadas e, na jamais
superada, tradição oral, que gerava e ainda gera muitas versões de um mesmo
fato.
Nos anos
1800 e batatinha ou na primeira metade dos anos 1900, perguntar para um sujeito
de meia idade se ele se lembrava de como era a fisionomia exata de sua avó,
talvez ele não conseguisse. Hoje, qualquer criança de pouca idade, tem a imagem
da vovó gravada no seu celular, e em alta definição.
Não são só
as pessoas que fazem questão de permanecer o maior tempo possível neste
planeta, ao que parece as coisas também, se não de fato, porque acabam mesmo
sendo substituídas por outras melhores e mais eficientes, permanecem na
lembrança das pessoas que com elas conviveram. E isso é uma herança, do finado
século 20, que, todavia, feito um cadáver insepulto, insiste permanecer entre
nós.
*Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 10/6/2017 à pág. 2.
*Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 10/6/2017 à pág. 2.

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