Rio Claro, 190 anos. Há modos e modos de refletir sobre isso. Como toda cidade, aquela conhecida como a Cidade Azul do centro-oeste paulista, tem tudo o de bom e o de ruim. Aqui há vencedores e vencidos. Há desde os mais abastados, mais cultos e bem sucedidos que comparecem aos eventos artísticos e culturais de caráter benemerente para dar sua contribuição às causas sociais de interesse público, até os da classe emergente, que venceram na vida – a maioria – a custo de muito suor, leia-se, trabalho.
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Há os
pobres, e eles são vistos nos corredores dos prontos-socorros, esperando
atendimento, nas farmácias, onde se retira remédios de graça. Nos brechós e bazares das associações assistenciais.
Na fila do Restaurante 1 Real, que, por vezes, parece não ter fim.
Há os
viciados e os desocupados, nos jardins e praças, ruas e avenidas, que, a
exemplo de suas vidas sem rumo e sem esperança, levam o nada a lugar nenhum,
enquanto imaginam driblar a realidade.
Há os jovens
que trabalham durante o dia e estudam à noite, porque desejam crescer e
progredir na vida, e há os que não querem nada com nada, deixam o tempo passar,
assim como as oportunidades, esperando talvez outras melhores, esquecendo-se
que as melhores, já possuem que é a juventude, a esperança e todo tempo do
mundo.
Se
soubessem, se entendessem esses jovens vacilões, que basta-lhes vontade e um
mínimo de esforço, certamente, daqui algum tempo, engrossariam a fila dos
vencedores, e deixariam de ser preocupação e problema para seus familiares,
governos e autoridades. Ajudariam com seu conhecimento adquirido e com seu
trabalho, Rio Claro progredir mais, tornar-se ainda melhor para seus filhos e
netos.
Há políticos,
em Rio Claro, perdoe-me leitor, tocar em tão delicado assunto, mas há os bons e
os maus políticos, e me furto de dar nomes aos bois. Concedo-lhe a honra leitor,
de nomeá-los, caso julgue necessário, acho que não, afinal, dizem que um homem
se revela por suas obras.
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Há médicos, muitos,
tanto quanto dentistas, advogados, cabeleireiros, cozinheiros... Médicos capazes,
interessados, dedicados. Descobri isso ao saber-me portador de diabetes e
tornar-me usuário assíduo do SUS. Mas há também, os incapazes, os desinteressados
e que comparecem ao trabalho apenas por dever de ofício, resultado de uma
carreira escolhida por conveniência e não vocação.
Há ruas
muito boas em Rio Claro, algumas, não muitas, como a longa e sinuosa Avenida
Visconde, e outras péssimas e esburacadas, a Rua 11, por exemplo, no bairro
Santana, entre as avenidas 26 e 36, esquecida ao longo dos anos, pelos
prefeitos, secretários de obras, vereadores...
Rio Claro
dos músicos, dos escritores, que, ainda jovens, talvez tenham sonhado com uma
projeção que a cidade, pelo seu tamanho e importância em nível nacional, jamais
iria lhes oferecer. Salvaram-se quem pegou a mochila, fez as malas e se mandou.
Quem não, e se contenta dar aulas, ou ocupar espaço nas redações dos jornais,
nos estúdios das rádios, enquanto tenta esquecer o seu desejo de mudar o mundo,
empurrando pra longe, cada vez mais a cada dia, a frustração. Confesso, não é
fácil.
Rio Claro do
basquete, vencedor, valente, glorioso, e como quase tudo que tem valor nesta
cidade, esquecido. Rio Claro é mesmo assim. Adora os de fora. E vira as costas
para os seus. Talvez a origem da cidade explique o fenômeno. Rio Claro pertence
aos de fora. Desde o tempo dos tropeiros que por aqui pernoitavam, durante o
trajeto, em busca do ouro maldito em terras de Mato Grosso. Rio Claro dos
posseiros que tomavam terras que não lhes pertencia, à força do facão e da
espingarda. Rio Claro das terras devolutas doadas pelo Império aos seus
escolhidos e bajuladores; dos Góes, dos Pereiras, dos Costa Alves, da imagem de
São João Batista, o patrono, da cidade e dos Irmãos, em honra de GADU! Rio
Claro dos padres, Delfino, Rosa, Martins, Jamil. Rio Claro dos pretos, da Chácara que lhes fora
roubada na mão grande e descaradamente. Injustiça jamais reparada. Rio Claro do
ex-prefeito agiota, morto e sepultado, até hoje venerado, sabe-se lá o motivo.
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Rio Claro
dos centenários Velo e Rio Claro, de torcidas apaixonadas, e hoje, imaginárias,
na saudosa lembrança dos mais antigos que ainda os acompanham.
Rio Claro
linda, gostosa, e plana, ao menos, na área central. Rio Claro divertida, dos
tipos inesquecíveis, o Meira, o Barreto, o Anésio.
Rio Claro do
ar que se respira, ainda. Das suas bicicletas, desrespeitadas por motoristas e
motociclistas, e perdendo a cada ano, mais espaço para as motocas e os carangos.
Rio Claro da
frota inumerável de carros. Sobram carros (cadê o meu?), faltam ruas e
avenidas. Mas chegaremos lá.
Rio Claro
que adora falar de si mesma, de considerar-se mais do que é, de atribuir-se um
destino glorioso, tomara seja, para o bem de sua gente boa.
Rio Claro do
céu azul de Celeste. Salve, salve, Rio Claro, querida! Apesar dos pesares, eu
amo você!
*Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 23/6/2017. à pág. 2.
*Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 23/6/2017. à pág. 2.


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