Naquela
manhã, observou com satisfação que seu cabelo, de fato, ficava horrível logo
após o corte, mas excelente depois de alguns dias. Nenhum cabeleireiro do
Boulevard Jardins poderia fazer melhor que o seu bom e velho barbeiro, o Sr.
Rubens. Um homenzarrão com 90 anos de idade, diabético, hipertenso e que em
nome da dignidade (um homem vale pelo seu trabalho) se recusava a aceitar o
óbvio. Continuava o bom barbeiro a manter sua fiel freguesia, no salãozinho
acanhado e bastante simples da Rua 1 com as avenidas 8 e 10, no Centro, em
frente à loja de pássaros e pesca.
![]() |
| Reprodução |
José estava
entre a fiel freguesia do Sr. Rubens. Mas naquela noite, ele tinha um encontro
marcado com a ruiva da perfumaria, cujo abraço de 8 segundos, não mais, sempre
lhe fazia muito bem. Por isso a sua preocupação diante do espelho. Não poderia
haver falhas. Tudo deveria sair como planejara à exaustão, durante todo dia.
Ensaiara com dedicação e grande interesse cada gesto, olhar, palavra, tudo.
Para a ruiva
da perfumaria, aquele encontro não significava rigorosamente nada. Mas para
ele, um minuto ao seu lado, um minuto merecedor de sua atenção, olhar, palavra,
gesto, significava muito coisa. Embora, jamais, se sentira à vontade ou
confiante, para lhe externar os seus sentimentos. Amizades são eternas. Amores
nunca. Aprendera com os livros, as músicas e os filmes. Jamais, entretanto,
através da própria experiência, bem pouca, por sinal, quase nada, ao menos ao
que diz respeito aos melhores sentimentos que um ser humano pode trazer em seu
coração.
Com algum
desconforto, àquela altura da vida, a meia idade, que via se aproximar e a
temia como qualquer mortal, era obrigado a admitir sua capacidade de operar milagres
na vida das outras pessoas, e nenhum, nenhum mesmo, na sua própria vida.
Continuava se considerando um derrotado. Tudo o que tentara na vida dera
errado. Fora assim no amor, aos 19 anos de idade, o único amor. Fora assim no
casamento, nada de amor, uma necessidade. Fora assim como filho. Só depois de
muito tempo percebera a importância daqueles dois em sua vida. Fora assim como
pai, nunca fizera nem conversara, o que imaginava, tinha certeza, algumas vezes, o que
todo pai deveria. Fora um péssimo jogador de futebol, não servira para
jornalista. Um medíocre escritor, um sofrível poeta, um pretensioso filósofo
que jamais conseguira elaborar numa frase condizente e provida de clareza e
coerência o seu pensamento, o qual, verificando, certa ocasião, certos livros,
descobrira que nem era assim tão seu. Mal sabia na sua tola ingenuidade que a filosofia
é feita o cachorro correndo atrás do próprio rabo. Ou o cavalo cego tentando
encontrar o bebedouro.
Enfim não
prestara pra nada. E já tinha quase 50 anos de idade. Já havia, portanto,
atravessado a metade do caminho, certamente. Ocorre que em tempos mais remotos,
ruminava em si certa vergonha desta situação humilhante que deliberadamente,
jogando alto com a vida criara para si mesmo, e que agora, já perto da casa dos
cinquenta, não conseguia mais verificar a presença da vergonha necessária em
seu íntimo, em meio a tantos outros sentimentos confusos, contraditórios e
inconsistentes em demasia que alimentava na sua solidão espontânea.
Fácil seria
estragar um pouco mais a vida. Mulheres haviam por toda parte. Algumas bonitas
até. E outras, interessantes e inteligentes. Mas nada o convencia que qualquer
uma delas, não seria como todas as outras. Tudo muito bonito e genial, de início,
e depois... Bem, o problema do romance real da vida, é que diferentemente
daqueles encontrados nos livros, nos filmes e na música, ele não conhece a
palavra “fim”, ele se sujeita descaradamente ao depois.
E aí tudo se
complicava para José, em sua mente confusa e em seu coração medroso.
Porque,
afinal, ele pensava, seria diferente com a ruiva da perfumaria? Apesar do seu
abraço de 8 segundos, que tanta paz, conforto e segurança lhe transmitia.
Apesar daquele seu olhar e daquele seu sorriso, os quais encontrava até mesmo
no silêncio e no escuro do quarto, onde atravessava noites, sintonizando várias
estações de rádio, a procura da música perfeita que lhe permitisse lembrar do
olhar, do sorriso e da voz dela. E reproduzi-los diante de si, ali, naquele
mesmo quarto escuro, mas então, como que por encanto, repleto de luz.
Nessas horas,
todos os defeitos dela, pois que existiam, e não eram poucos, desapareciam,
porque o fato de poder sentir novamente a presença dela tornava a vida perfeita
e o mundo completo.
Mas havia o
depois, que comparecia à sua realidade, sem pedir licença. Fosse com o chamado
do telefone, o barulho das panelas do vizinho, o cão, impaciente, latindo na
rua, o sorveteiro e seu apito inconfundível, o carteiro a bater no portão; mal
sabia o carteiro, que, naquele mês, ele havia consertado a campainha.
E tudo
retomava naturalmente o devido espaço, na insignificância da sua vida, da sua
presença pouco percebida no mundo.
Aguente
firme. Fora o melhor conselho que encontrara nas sagradas escrituras. Aguente
firme. Tudo passa. Tudo se acaba. Por isso, meu velho (agora era ele dizendo de
si para si mesmo), ama! Ama que entre amar e nada, amar é alguma coisa. Deve
fazer algum bem.
Tais
suposições serviam de consolo nas horas mais difíceis, aquelas em que, o
silêncio cria um vácuo na consciência, e a solidão esmaga fazendo em pedaços
ofertados aos abutres famintos da indiferença alheia, um pobre coração,
descrente do bom e do belo, descrente dos homens e das suas possibilidades,
descrente da vida que se recusa a sorrir para aquele que tanto a amara algum
dia, tão distante, que nem se faz lembrar exatamente qual.
Enfim, já era
quase 9 horas, o horário marcado para o encontro. Um café na padaria, a alguns
quarteirões de sua casa. José mais uma vez não estava certo se iria àquele
encontro. Talvez não. A ruiva da perfumaria poderia talvez desmanchar o seu
cabelo, em meio àquele abraço de 8 segundos. Justamente naquela noite, a qual,
diante do espelho, ele se achara tão bonito.

Nenhum comentário:
Postar um comentário