O escritor talvez seja o único artista que não tem domínio sobre sua obra e por ela recebe, quando muito, míseros 10% do preço de capa. É o mais cobrado de todos os artistas, pela sua crítica especializada, pelo público e pelos palpiteiros de plantão. É o mais sujeito à regras, todas elas. E agora, em nome da boa vizinhança, deve se submeter ao tenebroso e asqueroso politicamente correto, sob pena de ser confundido como enviado do mal ou a serviço de tal. E mesmo assim, o escritor se sujeita a tudo isso, por um único motivo: a necessidade de escrever. Algo que é somente seu, que ele não divide com ninguém. Ao contrário de outros artistas, o escritor precisa da solidão para conceber o seu trabalho. Ele precisa conhecer e viver sobre aquilo que escreve, para que não soe falso ao leitor, e não seja hipócrita consigo mesmo. Quase sempre, as suas escolhas e decisões não são compreendidas. Mas a ele não importa que sejam. O que vive um escritor, quando escreve, nenhum outro artista vive. O escritor, ao escrever, é a soma de todos os seres, é o retrato fiel e decomposto de todos os ambientes. Ele cria um mundo, que só existe em sua mente e em seu coração, e, em sendo ele suficientemente bom, consegue transportar parte desse mundo ao leitor, a ponto de envolvê-lo e encantá-lo. Um escritor, salvo aqueles que vivem do ter e não do ser, em geral não conhece a felicidade. Ama, sem ser amado. Dá o melhor de si sem nada receber em troca. Mesmo assim, mesmo depois de morto, sepultado, esquecido, jamais compreendido e, muito menos respeitado em sua individualidade, ele continua sendo um escritor, caminhe ele sobre a ponte, em direção à outra margem do rio, entre as árvores, ou viva miseravelmente, sob ela.
Direitos Autorais dos textos publicados de Geraldo J. Costa Jr. "Escrever não é a doença, é a cura". g.j.c.jr.
sábado, 29 de outubro de 2016
domingo, 23 de outubro de 2016
AMAR
Amar é ser feliz por 8 segundos. Ao ser abraçado, forte, de modo prazeroso e querido; um abraço que se pareça longo, demorado, perfeito, o bastante. Amar é sorrir por dentro ao encontrar um olhar voltado para si. E encontrar nesse olhar alegria, por ser você, na mira daquele olhar que te procura com alegria. Amar é conversar num tom de voz moderado, uma conversa agradável, amistosa, carinhosa. Amar é ser valorizado, pelo que você é, e não pelo que tem ou deixa de ter. Amar é sentir-se amado, sem a necessidade de ser possuído tão pouco de possuir. Amar é compartilhar, paz, alegria. Amar é um abraço de 8 segundos, não mais. Porque é a partir dele, que se descobre tudo isso.
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| Reprodução |
sexta-feira, 21 de outubro de 2016
PÁGINAS AVULSAS DA VIDA
A noite
passada eu tive um sonho lindo, daqueles que renovam as forças e a esperança.
Sonhei que
estava na companhia de um amigo querido, de longa data, escritor e poeta,
também.
Caminhávamos
por uma rua larga, longa, imensa, quase deserta.
Conversávamos
os assuntos agradáveis da nossa rotina, que nem todos apreciam.
De repente,
estávamos em minha casa.
Uma casa
enorme, bonita, grande,
Como deve
ser uma casa que seja minha.
Estávamos na
garagem, conversando, e um vento forte, avassalador, penetrava por dois vãos,
que tinham a proporção áurea.
Um sonho
lindo, tão simbólico e significativo, tão importante e revelador.
Talvez ele
me traga de volta a certeza que me escapa.
Que se perde
a cada dia, um pouco mais, quase sempre.
E confunde a
minha mente, e me atormenta.
Que pode
novamente me derrotar, mas não me destruir.
Nunca pode,
não será dessa vez.
Entre essa estúpida
possibilidade e o sonho que descrevo
Eu prefiro
ficar com a lembrança adorável que ele me proporciona.
E da presença
do meu amigo querido, de longa data,
Tão hábil e
mago com as palavras, quanto eu.
É por esses
momentos transcendentais;
Que se torna
difícil deitar o lápis;
Com o qual
se escreve
quinta-feira, 20 de outubro de 2016
GAROTO SENSÍVEL
Um jeito
diferente de olhar
Um modo
especial de fazer, todo seu
Ao bater da
porta, o corpo estremece
Um arrepio
corre a espinha, sobe até a nuca
Corre o
sangue, quente, para onde tem de correr
Mas é um
sonho do qual desperta
Com o
barulho dos carros, na rua lá embaixo
Vê com
descrença, que o dia nasce lá fora, mais um
Olha em
redor, e vê tudo como está
A bagunça de
sempre
A ausência
que insisti em ficar
A felicidade,
demora, não vem
Levanta-se
da cama então,
É preciso
continuar
Alimentando
o que não pode perecer
Calça os
chinelos, por que?
E olha-se no
espelho com preguiça
Admira o
corpo nu, o seu
Imaculado,
intocado, ao menos por uma noite
Vai para a
janela, acende o cigarro
A espera das
ideias que o conduzirão
No mundo
hostil, por mais algumas horas
Dali a
pouco, a água fria do chuveiro, se houver
O trará de
volta à consciência
Necessária à
sobrevivência
E tudo irá
se repetir
A dor e a
rotina, a mesmice
Das coisas e
dos sentimentos
Que resistem
abandoná-lo
Talvez um
filme, achado ao acaso
Um bate papo
no corredor, com a pessoa, ao lado
Do
qual sabe nada
Apenas que possui
um jeito diferente de olhar
Mas não um
modo especial de fazê-lo
Sentir a
liberdade que acreditou um dia
Pudesse ser
a sua companhia
Vítima, dos
seus próprios erros
E desejos
inconfessáveis
Do medo que
o acompanha
Desde os
primeiros dias, as primeiras tentativas, em vão
O primeiro
sonho que lhe trouxera
Aquele jeito
diferente de olhar
E um modo especial
de fazê-lo
Sentir-se
feliz
Ou qualquer
coisa que se confunda
E se pareça
com isso
Busca insana
que o passar dos dias
Torna mais
difícil, menos provável
Aquele jeito
diferente de olhar
De fazê-lo
sentir-se diferente... diferente, único, o melhor
Talvez o
encontre
Como um
filme, ao acaso.
quarta-feira, 19 de outubro de 2016
ENCONTRO NA PADARIA
Naquela
manhã, observou com satisfação que seu cabelo, de fato, ficava horrível logo
após o corte, mas excelente depois de alguns dias. Nenhum cabeleireiro do
Boulevard Jardins poderia fazer melhor que o seu bom e velho barbeiro, o Sr.
Rubens. Um homenzarrão com 90 anos de idade, diabético, hipertenso e que em
nome da dignidade (um homem vale pelo seu trabalho) se recusava a aceitar o
óbvio. Continuava o bom barbeiro a manter sua fiel freguesia, no salãozinho
acanhado e bastante simples da Rua 1 com as avenidas 8 e 10, no Centro, em
frente à loja de pássaros e pesca.
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| Reprodução |
José estava
entre a fiel freguesia do Sr. Rubens. Mas naquela noite, ele tinha um encontro
marcado com a ruiva da perfumaria, cujo abraço de 8 segundos, não mais, sempre
lhe fazia muito bem. Por isso a sua preocupação diante do espelho. Não poderia
haver falhas. Tudo deveria sair como planejara à exaustão, durante todo dia.
Ensaiara com dedicação e grande interesse cada gesto, olhar, palavra, tudo.
Para a ruiva
da perfumaria, aquele encontro não significava rigorosamente nada. Mas para
ele, um minuto ao seu lado, um minuto merecedor de sua atenção, olhar, palavra,
gesto, significava muito coisa. Embora, jamais, se sentira à vontade ou
confiante, para lhe externar os seus sentimentos. Amizades são eternas. Amores
nunca. Aprendera com os livros, as músicas e os filmes. Jamais, entretanto,
através da própria experiência, bem pouca, por sinal, quase nada, ao menos ao
que diz respeito aos melhores sentimentos que um ser humano pode trazer em seu
coração.
Com algum
desconforto, àquela altura da vida, a meia idade, que via se aproximar e a
temia como qualquer mortal, era obrigado a admitir sua capacidade de operar milagres
na vida das outras pessoas, e nenhum, nenhum mesmo, na sua própria vida.
Continuava se considerando um derrotado. Tudo o que tentara na vida dera
errado. Fora assim no amor, aos 19 anos de idade, o único amor. Fora assim no
casamento, nada de amor, uma necessidade. Fora assim como filho. Só depois de
muito tempo percebera a importância daqueles dois em sua vida. Fora assim como
pai, nunca fizera nem conversara, o que imaginava, tinha certeza, algumas vezes, o que
todo pai deveria. Fora um péssimo jogador de futebol, não servira para
jornalista. Um medíocre escritor, um sofrível poeta, um pretensioso filósofo
que jamais conseguira elaborar numa frase condizente e provida de clareza e
coerência o seu pensamento, o qual, verificando, certa ocasião, certos livros,
descobrira que nem era assim tão seu. Mal sabia na sua tola ingenuidade que a filosofia
é feita o cachorro correndo atrás do próprio rabo. Ou o cavalo cego tentando
encontrar o bebedouro.
Enfim não
prestara pra nada. E já tinha quase 50 anos de idade. Já havia, portanto,
atravessado a metade do caminho, certamente. Ocorre que em tempos mais remotos,
ruminava em si certa vergonha desta situação humilhante que deliberadamente,
jogando alto com a vida criara para si mesmo, e que agora, já perto da casa dos
cinquenta, não conseguia mais verificar a presença da vergonha necessária em
seu íntimo, em meio a tantos outros sentimentos confusos, contraditórios e
inconsistentes em demasia que alimentava na sua solidão espontânea.
Fácil seria
estragar um pouco mais a vida. Mulheres haviam por toda parte. Algumas bonitas
até. E outras, interessantes e inteligentes. Mas nada o convencia que qualquer
uma delas, não seria como todas as outras. Tudo muito bonito e genial, de início,
e depois... Bem, o problema do romance real da vida, é que diferentemente
daqueles encontrados nos livros, nos filmes e na música, ele não conhece a
palavra “fim”, ele se sujeita descaradamente ao depois.
E aí tudo se
complicava para José, em sua mente confusa e em seu coração medroso.
Porque,
afinal, ele pensava, seria diferente com a ruiva da perfumaria? Apesar do seu
abraço de 8 segundos, que tanta paz, conforto e segurança lhe transmitia.
Apesar daquele seu olhar e daquele seu sorriso, os quais encontrava até mesmo
no silêncio e no escuro do quarto, onde atravessava noites, sintonizando várias
estações de rádio, a procura da música perfeita que lhe permitisse lembrar do
olhar, do sorriso e da voz dela. E reproduzi-los diante de si, ali, naquele
mesmo quarto escuro, mas então, como que por encanto, repleto de luz.
Nessas horas,
todos os defeitos dela, pois que existiam, e não eram poucos, desapareciam,
porque o fato de poder sentir novamente a presença dela tornava a vida perfeita
e o mundo completo.
Mas havia o
depois, que comparecia à sua realidade, sem pedir licença. Fosse com o chamado
do telefone, o barulho das panelas do vizinho, o cão, impaciente, latindo na
rua, o sorveteiro e seu apito inconfundível, o carteiro a bater no portão; mal
sabia o carteiro, que, naquele mês, ele havia consertado a campainha.
E tudo
retomava naturalmente o devido espaço, na insignificância da sua vida, da sua
presença pouco percebida no mundo.
Aguente
firme. Fora o melhor conselho que encontrara nas sagradas escrituras. Aguente
firme. Tudo passa. Tudo se acaba. Por isso, meu velho (agora era ele dizendo de
si para si mesmo), ama! Ama que entre amar e nada, amar é alguma coisa. Deve
fazer algum bem.
Tais
suposições serviam de consolo nas horas mais difíceis, aquelas em que, o
silêncio cria um vácuo na consciência, e a solidão esmaga fazendo em pedaços
ofertados aos abutres famintos da indiferença alheia, um pobre coração,
descrente do bom e do belo, descrente dos homens e das suas possibilidades,
descrente da vida que se recusa a sorrir para aquele que tanto a amara algum
dia, tão distante, que nem se faz lembrar exatamente qual.
Enfim, já era
quase 9 horas, o horário marcado para o encontro. Um café na padaria, a alguns
quarteirões de sua casa. José mais uma vez não estava certo se iria àquele
encontro. Talvez não. A ruiva da perfumaria poderia talvez desmanchar o seu
cabelo, em meio àquele abraço de 8 segundos. Justamente naquela noite, a qual,
diante do espelho, ele se achara tão bonito.
sábado, 15 de outubro de 2016
JOÃO, 16
Eu
compreendo
Eu
compreendo todos os vexames, todas as ofensas,
Todos os
deslizes e todas as descrenças
Compreendo o
incerto, o duvidoso e o repugnante
Eu
compreendo todas as mágoas, contidas e exacerbadas
Eu
compreendo e aceito todos os conflitos
Toda a
inconsequência deles resultantes,
As feridas
abertas, profundas e que não se fecham
Eu
compreendo todas as dores,
Embora não
as aceite
E compreendo
todas as lágrimas, refutadas
Espargidas
ao vento, inclementes lágrimas, lancinantes dores
Eu
compreendo os fracos, os tolos e os indecentes
Eu não me
chamo Oscar (por favor, plebeu, acerte a pronúncia: Oscar)
Já me
chamei, contudo, Ernesto, vejam só, que horror!
Mas eu os
compreendo
E os
compreendo, porque assim como tantos outros,
Na verdade
como quase todo mundo... anote: todo mundo
Nasceram
chorando e morreram fedendo
Eu
compreendo quem chora sobre um caixão
E compreendo
quem sobre ele, cospe
Eu
compreendo a fera que ataca e dilacera
A fera
faminta, de amor, atenção e carinho
E compreendo
a presa que foge, corre, geme
De medo,
dúvida, incerteza e ressentimento
Há quem
julgue a terra plana
A vida, uma
só vida, vivida, mas vejam...!
Eu os
compreendo
Porque a
tolice alimenta a necessidade
De buscar
por algo maior, translúcido, etéreo
Sem forma
definida, cor, começo, meio, fim
Que eu não
compreendo,
Embora eu
tolere essa coisa, esse algo maior
Que todos
dizem existir
Eu
compreendo
Apenas a
ideia, é verdade
Porque em
resumo
Eu
compreendo a tudo e a todos
Porque
pensando bem
Tudo não
passa mesmo de ideias
Sob as mais
diversas formas
Ideias,
aspirações
Que não se
realizam quase todas elas
Mesmo que
paridas do anseio
Comum a
todos nós: de ser feliz
Isso eu
compreendo
Eu
compreendo os que baixam os olhos antes da hora
Já fui um
deles,
Talvez seja
o próximo
Eu
compreendo
Há marcas
profundas que trazemos de longe, de ontem
Mas que
permanecem, escondidas, não reveladas
Até que
despertam
Trazendo
toda sua fúria, inquietação
Fazendo-nos
rasgar o véu da ignorância
Desnudando-nos
à vergonha e incompreensão alheia
Eu
compreendo
O que se
passa em mim, à minha volta
Sim... eu compreendo, mas talvez não baste
Alguém mais compreende?
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