Anésio
abria sua banca às seis da manhã. Quando não, às cinco. Homenzarrão de cabelos
grisalhos, de olhar meigo e de voz anasalada e mansa. Foi Anésio que discursou emocionado, quando o
corpo do meu melhor amigo, baixou à sepultura, há 26 anos. Assim como meu pai,
ele tinha sua cadeira cativa no estádio Benitão, quando era possível vê-lo, aos
domingos, vibrando com o seu, o nosso Velo Clube. Anésio era do tempo em que
Rio Claro era Rio Claro, se é que me entendem aqueles que amam esta cidade.
A sua
banca ficava na avenida 1, entre as ruas 4 e 5, na região central. Agora sai a
notícia nesse indispensável Diário de todas as manhãs, que a banca do Anésio,
já não existe mais.
Recordando...
Não sei se Anésio foi o primeiro a ter uma banca de jornais e revistas nas
terras de Rio Claro. A dúvida exige pesquisa. Até porque, maior que a dúvida é
a certeza de que banca de jornais e revistas, em Rio Claro, fora, durante
muitos anos, sinônimo de Anésio Spiller. E acho mesmo que será sempre.
Ainda frequento
banca de jornal, mais exatamente a do nosso amigo falante destrambelhado Pica
Pau, na praça da igreja de Santa Cruz. É ali que compro o meu Diário todas as
manhãs, por volta de 8 horas. Poderia compra-lo mais cedo, afinal, neste
horário de verão, às 6 da manhã, já estou de pé, acordado pelos bem-te-vis e a
maritacas tão destrambelhadas quanto o Pica Pau da banca, que residem nas
árvores frondosas do Grêmio Recreativo. Mas o Pica-Pau às vezes abre a sua
banca às 8 e 15, às vezes, 8 e 20, às vezes...
Antes
de achar esse refúgio matinal, - Vem Pica-Pau! – como diria o Silvio, tentei
outros, sem muito interesse. Banca de jornal é feito cabeleireiro, café da
mamãe, o médico da família. Só existe um. Para a nossa crença, conforto e
segurança.
Mas
sempre que posso procuro respirar outros ares. Entro numa dessas bancas de lata,
espalhadas pelos jardins da vida, olho uma publicação aqui outra ali, porque,
afinal, folhear revistas não é permitido. E quando tenho algum dinheiro no
bolso, levo o que me interessa. Atualmente, as bancas têm em sua maioria,
aquele aspecto de modernidade asséptica e oca. São maiores, mais confortáveis,
mas falta alguma coisa. Falta o calor humano e a cumplicidade com a leitura das
pessoas que ali param para conversar, porque as pessoas dedicam seu precioso
tempo aos whats aps e facebooks
da vida irreal do século XXI. Talvez porque desconheçam os livros, as revistas
e os jornais, e a viagem que eles podem proporcionar na vida de uma pessoa.
E nesse
aspecto, não seria exagero dizer que falta faz o Anésio que, quando inspirado,
colocava pra tocar em sua vitrolinha as gravações 78 rotações por minuto de,
entre outros, Francisco Alves, Orlando Silva e Carlos Gardel, aquele cantor de
tango que franceses e argentinos ainda hoje, cabeza a cabeza, disputam a nacionalidade.
Os
mais chegados, diziam que Anésio tinha dons mediúnicos. Às vezes, ele ficava
olhando para a pessoa à sua frente como se estivesse diante de algo
sobrenatural. E depois, transmitia mensagem de carinho e afeto.
Conheci
a banca do Anésio e seu dono, pelas mãos de meu pai, que sempre passava por lá,
para comprar jornais, livros e revistas, quando saíamos juntos.
Dizem
que os pais, quando próximos dos filhos lhe incutem hábitos. Meu pai sempre me
deu bons exemplos. Frequentar banca de jornais e revistas foi um deles. A do
Anésio não poderei mais fazê-lo, porque além da saudade dele, resta a certeza
de que, definitivamente ela já não existe mais.
* CRÔNICA PUBLICADA NA EDIÇÃO DE 18/DEZ/2014, À PÁG. 2, NO JORNAL DIÁRIO DO RIO CLARO.
* CRÔNICA PUBLICADA NA EDIÇÃO DE 18/DEZ/2014, À PÁG. 2, NO JORNAL DIÁRIO DO RIO CLARO.
Nenhum comentário:
Postar um comentário