Minha filha querida,
Aos 16 anos, eu ainda não trabalhava, para os
outros. Eu ajudava meu pai no escritório e, quando não, ajudava minha mãe, já
doente, nas tarefas do lar.
Eu ainda não namorava, não havia beijado ninguém com
aquele sentimento que faz acender em nós o fogo serpentino.
Eu também ia à escola, mas não aprendia nada,
porque, não entendia simplesmente o que era ensinado, porque, diferentemente de
hoje, lamento dizer, era sim ensinado.
Aos 16 anos, eu jogava futebol, que era o que todo
moleque na minha idade fazia, nas horas ociosas, que, naqueles dias, por sinal,
eram muitas.
Eu não escrevia. Sério! Nada mesmo, nem sabia o que
era isso. Não sabia que era possível.
E minha primeira overdose, e única, foi de
Baudelaire.
Hoje, creio impossível descrever
objetivamente o que eu era aos 16 anos. Porque nem eu sei o que eu era. Se é
que eu era: alguma coisa.
Os dias eram assim: Nada.
Passavam simplesmente, cuja única ação que se justificasse perante a razão humana (assim espero) era juntar moedinhas, trocos
da padaria, do supermercado, pra comprar aquele tênis mais barato que durava
tão pouco, aquela camiseta da liquidação da Pelicano, que encolhia e descorava
na primeira lavada, e fazer aquele maldito e desejado corte de cabelo, que o
barbeiro lá do bairro jamais acertava.
Ela se chamava Raquel, o meu amor escondido, jamais
declarado, mas ela nunca soube disso. Porque ela nunca soube, na verdade, acho
que jamais se interessou em compreender o meu olhar em sua direção, e o que ele
dizia, tentava ao menos dizer.
Aos 16 anos, filha, eu nem me importava porque nem
sabia o que era ser feliz.
Mas eu espero, é a única coisa que ainda desejo
nesta vida, que você saiba.
Beijinho.
PS: Agora vou almoçar. É domingo. Já passa do meio
dia.

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