Filme recém lançado, reacende o
interesse pela vida e obra do escritor norte-americano Francis Scott Fitzgerald
Em cartaz nos cinemas do Brasil (ao
menos nos melhores) o filme O Grande Gatsby, título homônimo do romance do
escritor norte-americano Francis Scott Fitzgerald (1896-1940), publicado pela
primeira vez no longínquo 1925, durante o período que passou à história como os
Anos Loucos.
Esse período alucinante do século 20 que
teve início logo após o término da 1ª. Guerra mundial, inicialmente tratou de
sepultar de vez a velhota e decadente Belle Epóque que mais nada podia oferecer
de bom e de belo aos amantes das artes, agora sedentos por novidades tecnológicas
e fortes emoções, e dispostos à exaltação do “eu” a todo a custo, num evidente
egoísmo exacerbado que, compartilhado por muitos, principalmente aos que
habitavam os grandes centros como Paris, Londres, Berlim, New York e Chicago
davam a esse comportamento um falso ar de naturalidade.
Ao som do poderoso e carismático jazz,
tais pessoas lotavam cassinos, salões de dança e cabarés. As mulheres,
geralmente sorridentes, ousavam como nunca mexer os quadris e colocar
tornozelos e pescoços à mostra, para o deleite dos homens, que, em troca de
tórridos momentos de amor, não se importavam de expor sua intimidade e
comprometer suas existências nas mesas de jogos, restaurantes e nas camas de
bordéis, acumulando dívidas jamais pagas.
O que a sociedade vê hoje com certo
repudio, mas não menos interesse, já naquele tempo era costume. Homossexualismo,
prazer a qualquer custo, mulheres bebendo muito, homens sonhando muito mais
ainda e realizando pouco.
Os Roaring Twenties (Anos Loucos) terminaram
em uma estrondosa queda de cara no chão, tão bem conhecida por aqueles
acostumados com uns muitos goles a mais. Pra ser mais exato, em 1929 com o
episódio conhecido como o Crash da Bolsa de Valores New York que fez muitos
sonhadores e outros tantos irresponsáveis retornarem à triste realidade do
cotidiano em que a felicidade, exatamente por ser o bem mais precioso, sorri
para bem poucos.
Mas para o autor de O Grande Gatsby, a
felicidade – se a conheceu mesmo – talvez tenha terminado um pouco antes, como sugere
o também escritor e seu contemporâneo Ernest Hemingway no bastante apreciável Paris é uma Festa. No aspecto tragédia
da biografia de ambos, a diferença é que a via crucis de Hemingway teve uns
quilômetros a mais.
No tempo em que esses escritores
conviveram em Paris, Fitzgerald confidenciara a Hemingway que seu romance O Grande Gatsby, apesar de apreciado
pela crítica especializada não ia lá muito bem de vendas. Coincidentemente o
mesmo se dá com o filme em cartaz. A mais recente das muitas versões que a obra
literária teve para o cinema, a mais conhecida até aqui, a de 1974, com Robert
Redford e Mia Farrow nos papéis principais.
Em seu tempo, Fitzgerald se dividia
entre o seu talento natural para escrever histórias, muitas delas publicadas em
revistas como a Saturday Evening Post,
e os porres homéricos de sua esposa Zelda, em cujo grau de paridade ele não
ficava nem um pouco atrás. Algo mais sobre esses episódios recomenda-se a
leitura do delicioso O Leitor Apaixonado,
de autoria de Ruy Castro, Cia. das Letras, 368 págs.
A trama central do romance O Grande
Gatsby gira em torno do desejo e conquista de Jay Gatsby em amealhar fortuna e
ascender socialmente na esperança quase uma certeza de que isto lhe dê as
credenciais para conquistar Daisy que o rejeitara no passado, quando ainda
jovens, ele, um ex-combatente, exímio atirador, durante a primeira guerra
mundial, ela, uma fina e recatada (até a página 2) senhorita da alta sociedade.
Como todo bom romance há histórias
paralelas interessantes em O Grande
Gatsby. É tocante, por exemplo, a cena em que o pai do personagem principal
vai ao encontro do filho no final da narrativa.
Francis Scott Fitzgerald, oriundo da
classe média alta, ex- aluno de Princeton, ex-combatente da primeira guerra
mundial, era um refinado estilista da palavra. Para Ernest Hemingway, o talento
de Scott era tão espontâneo como o desenho que o pó faz nas asas de uma
borboleta. Da lavra do autor de O Grande
Gatsby, saíram outros bons romances, como Este Lado do Paraíso (This Side of Paradise, 1920), Belos e Malditos (The Beautiful and
Damned, 1922), Suave é a Noite
(Tender is the night, 1934) e O Último Magnata (The Love of the last tycoon,
1940), este último inacabado, mas que a exemplo de O Grande Gatsby, levado às
telas do cinema, em 1976, reacendeu o interesse pela obra literária do
escritor.
Numa analogia bem simplista pode-se
dizer, que Philip Roth, considerado o melhor romancista norte-americano das
últimas décadas, seria por assim dizer um Wolkswagen, 1969, se comparado ao
Lincoln Continental que foi Francis Scott Fitzgerald, o melhor ficcionista de
sua geração, melhor até mesmo do que o Nobel (1954) Ernest Miller Hemingway. Nem
tanto no quesito imaginação, no qual se equiparavam já que muito do que
escreveram fora autobiográfico, mas, principalmente, no fino trato com a
palavra escrita e suas inúmeras possibilidades nas construções de frase e
períodos. Onde Hemingway parava, ou seja, nas frases curtas, afirmativas, na
narrativa geralmente linear, Fitzgerald ia além.
Mais uma vez mal comparando, a escrita
de Hemingway, principalmente os diálogos onde ocorre boa parte da ação, tem o
ritmo frenético do jazz, e a de Fitzgerald a cadência envolvente e apaixonante
do passo dublê, de rosto colocado, quando se fecha os olhos e se deixa levar
pela emoção e se delicia com tudo aquilo que de bom esta emoção pode
proporcionar.
Baseado em seus dramas pessoais, que não
foram poucos, Francis Scott Fitzgerald retratou como ninguém os anos loucos de
sua época. Melhor saiu-se nos contos que nos romances, como se pode constatar
em Contos da Era do Jazz (Thales of
the jazz age, 1922) e The short stories
of F. Scott Fitzgerald, 1989.
No final da vida, já derrotado pelo
álcool tentou redimir-se perante o público e perante sua própria consciência,
trabalhando anonimamente como roteirista em Hollywood. Mas já não era mais a mesma
coisa, cinema não é literatura, e ele já não era mais o mesmo.
Curioso, entretanto, é observar que o
mundo pintado com palavras por Fitzgerald, tem muito a ver com o mundo de hoje,
dominado por pessoas egoístas, que projetam nos outros sua própria felicidade,
ainda que para isso tenham que dominá-los e possuí-los. Mundo das modernas
tecnologias que, se proporcionam conforto ao invés de aproximar distancia as
pessoas. Mundo onde a dança ainda provoca frêmitos, ainda que ao embalo de
músicas menos inteligentes e menos interessantes. Mundo onde o prazer maior da
vida parece mesmo ser o sexo e o deleite em entornar garrafas e mais garrafas,
não exatamente de um bom uísque, um bom vinho, um inebriante champagne, mas uma
cervejinha bem gelada.
Enfim, como há quase cem anos, vive-se
apenas para o hoje, não se tem certeza de absolutamente nada, embora se se
acredite saber de tudo. A noite continua sedutora, os romances uma fuga, e o
amor, terrivelmente decepcionante e destruidor. Como se vê nada mudou. O mundo
de Fitzgerald e os de sua geração, de lá para cá, não saiu de cena.
***
“Não
se escreve por se querer dizer alguma coisa, escreve-se porque se tem alguma
coisa para dizer” – F. Scott Fitzgerald.
_(photo_by_Carl_van_Vechten).jpg)




MUITO BOM...PARABÉNS...
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