Logo o sol vai desaparecer. Vai morrer lentamente
com a esperança de cada dia. Então virá a noite. E cobrirá com seu manto de
escuridão e incerteza as pobres almas esquecidas, derrotadas, oprimidas, que, neste
jardim circulam a esmo por entre engraxates, cachorros, camelôs, crianças,
guardas, putas, traficantes, guardas.
Almas inquietas, incompreendidas, que, durante o
dia, arrastam os seus corpos decrépitos, com olhares perdidos de abandono e
solidão, passos incertos, sem rumo, pensamentos viciados, desejos incontidos,
contidos. Desejo...
Almas rotas que percorrem os passeios calçados com
pedras portuguesas, e alamedas entre árvores que abandonam ao nada as suas
folhas, sucumbidas pela fúria do vento e da chuva, que, ao final da tarde,
finge limpar o que não tem cura.
Almas que falam às escondidas, que clamam e declamam
versos de alegria, paridos no mais íntimo do ser que chora escondido, sofrido,
e entregue, à noite que chega.
Almas que compram e vendem e que se dão ao flagelo
do medo e se corrompem por ilusão.
Almas que se escondem nessas mãos calejadas, pés
descarnados, corpos doídos, gemidos sufocados pelo desespero dessas almas
nuas que se acreditam mortas. Mortas? – Mortas! ... Mortas.
Almas: Retratos animados, habitantes do Inferno que
chega com a noite e domina até que o rei de novo se levante.
Levante! – Que o moço Siqueira, hoje aprisionado e
deformado num bloco de pedra bruta voltado para o sol, sonhou comandar.
Almas! Perdidas, de dia e de noite, desconhecem os
minutos porque a vida pouco importa.
Pouco importa. Pouco importa o que a vida traz e o
que promete, e o que permite. Pouco importa se há o que comer e o que vestir.
Se o banho é de caneca, mangueira, cueca, torneira ou chafariz, sob os olhos
indiferentes do índio dono do lago, do pedaço, de tudo. Pouco importa
se enquanto isso, os visitantes alienados, ultrajantes inquilinos, se olham e
se perguntam.
Almas, que ao cair da noite, se voltam para os
bancos de cimento, e reunidas em torno da fogueira, da fumaça e da desgraça,
partilham o pão, o alívio, de mais um dia que se foi. Mais um dia, menos um
dia.
Menos uma, destas almas, daqui um ou dois dias, desaparecerá pela Avenida 1 com as mãos algemadas, a face marcada, em direção ao poente,
onde as portas se abrem e tudo termina.
Partirá pobre alma escolhida, acompanhada à distância por Bilac, o poeta
mudo, e o olhar cansado dos companheiros derrotados que ficam.
Outras almas. Que se refugiam ao abrigo da luz, sob o teto
barroco do coreto, onde anos e anos, há muitos anos, Fábio regia sua banda, e
homens de terno e gravata, prometiam a plenos pulmões que a vida seria
melhor... Melhor?
Almas, pobres e pequenas, apenas. Pior, quando nuas. Melhor, quando
mortas.
F I M
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