Tentava. Jamais se poderia dizer que não. Mas, às
vezes, se tornava difícil para ele transpor a distância entre o que separa o
pensamento da emoção; transpor o exato limite onde nasce o pensamento daquele
onde nasce a emoção.
Não que lhe faltasse vontade para esse entendimento,
faltava-lhe força. Capacidade para prender a respiração por dois ou três
segundos, uma hora, dez minutos, o tempo necessário, enfim, até que o processo
de ação, movido pelo estímulo quer fosse de um pensamento lógico ou de uma
simples, pura emoção, se estabelecesse por completo.
Tinha 44 anos, fase da vida em que os bons atingem o
ápice da sua performance, e ele, cônscio e conformado, sabe-se lá por quais
motivos, descia a escada interminável que leva ao porão da ineficiência.
Descia. Sem tirar os olhos do horizonte, e o horizonte para ele era o chão.
Talvez neste chão, ele se deite e adormeça, e
permaneça envolvido pelo sonho mais desejado, aquele que nunca termina.
É uma sala enorme a que ele se encontra nesse
instante. Não há vozes, não há rostos, nada se movimenta, ninguém se manifesta.
As teclas da máquina de escrever vão e vem, às vezes param, e é quando o seu
olhar se perde em uma direção qualquer à procura de não se sabe o quê.
Agora ele vê formigas. É uma grande descoberta às 15
para cinco da tarde, precisamente. Sim,
a tarde demora a passar, e até hoje ele não descobriu se isso é bom ou ruim. As
formigas, que até agora a pouco estavam a passear sobre a mesa, agora passeiam
desinibidas sobre o seu braço, sem saber exatamente, as formigas, para onde
vão. Que engraçadinhas!
Não são dessas formigas que picam, mordem, sugam o
sangue, provocam dor, alucinações, dor, vermelhidão, não. Mas incomodam.
Desviam a atenção.
Bem entendido: atenção, para o que acontece na outra
dimensão, aquela em que o pensamento e sua filha dileta, a lucidez, dama
ingênua, tola, amorfa, corrompida pelo
senhor desejo e sua dama, Sra. Insanidade, disputa espaço e preferência com a emoção.
A batalha da vida real, onde reside o espírito, dono, único dono do pensamento,
da vontade e da ação.
Porque dessa vida abjeta, cujo barro da criação são
as formas tangíveis e os limites tiranos, absolutistas, deve-se aquele que
escreve abstrair-se quando escreve. E ele, o poeta por minutos, o homem
comum por todas as horas, quase todas, compreendera finalmente isso, enquanto descia
a escada, olhos impregnados em seu horizonte:
Lembrava-e do que dizia Charles, o beberrão:
processo criativo é aquela maldita máquina de escrever quando está em movimento.
Tác, Tác, Tác.
Percebeu ele que a máquina de escrever tinha vida. E
se rendera novamente. Era uma puta mundana aquela maldita máquina de escrever.
Todavia, mais barata que uma cortesã. Enfim, uma
preciosidade. A maldita máquina de escrever não tem conexão com o Facebook.
Onde estão as formigas, ele se perguntava. Elas já
se foram. E ele terminava ali mesmo a sua tarefa de mais um dia. Ponto final.

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