Há dois tipos de
pessoas no mundo. Os que trabalham e os que roubam e matam e destroem vidas
alheias. Atualmente, políticos imbuídos de autoridade civil, religiosos que se
arrogam paladinos da autoridade moral, preferem passar a mão na cabeça dos
segundos, porque acreditam que isto seja mais agradável aos olhos de Deus e o
mais correto perante a sociedade.
Políticos que se
acreditam corretos e religiosos que imaginam falar em nome de Deus esquecem,
todavia que cada ser humano é o resultado de suas escolhas, e para fazê-las,
independe da fé que professe, da sua visão política (se a possui), da sua
filosofia de vida. Não seria exagero afirmar que cada ser humano é um mundo em
si mesmo. A viajar cada vez mais solitário e veloz pelo espaço infinito de sua
mente e de suas possibilidades.
Atualmente, as tragédias
se sucedem tão rápido quanto circulam as informações. Elas permanecem na mídia
até que outra a substitua. E depois, são esquecidas. Funciona assim.
De modo que em uma
sociedade doente porque baseada no sistema monetário e não no sistema de recursos
naturais, os erros se repetem, os vícios se perpetuam, e, mantém intacta, a
indiferença com a qual, aos poucos, foram conquistando a mente e o coração
humano voltado somente para aquilo que pode produzir e deve consumir para
satisfazer a necessidades que, em verdade, não possui, mas se acha desde o
berço, convencido delas.
A capacidade de se
indignar é fraca e perde espaço na consciência humana para o conformismo, com o
disfarce bastante eficiente propagado pela mídia e mestres em auto-ajuda que
exalta a capacidade de absorver rapidamente o impacto de acontecimentos trágicos,
dolorosos e seguir em frente como se nada tivesse acontecido, abdicando do
direito e da necessidade de aprender com estes acontecimentos, desenvolver
virtudes, sistemas de autodefesa para que eles não se repitam. Mas,
infelizmente, não é o que acontece. Nunca foi.
A realidade é que jovens,
por exemplo, não deixarão de se divertir seja em boates, estádios de futebol ou
parque de diversões porque duzentos e trinta e sete deles padeceram asfixiados
pela fumaça acendida pelo fósforo da imprudência. E agirão assim não apenas
porque a vida deve continuar, mas porque ninguém vai a tais lugares em busca da
morte, mas da diversão e do prazer, justamente valores supérfluos que
adquiriram status de direito imprescindível para o ser humano em uma sociedade
programada para produzir e consumir, cada vez mais e sempre.
Enfim, o mesmo ocorre
com todos nós, cidadãos comuns, orgulhosos eleitores, que, a cada quatro anos, somos
obrigados por força de lei a escolher uma entre as opções que meia dúzia de
dominadores e possuidores de poder político e econômico, nos oferece para que
legitimemos, num gesto tido democrático, todavia, eivado, de cinismo aquilo que,
na verdade já está escolhido por eles, ou seja, quem e como continuará mantendo
as coisas como estão. Porque se houvesse solução para tudo, não haveria
eleitores e muito menos políticos, que não podem, porque não foram treinados
para isso, resolver problemas técnicos derivados dos serviços públicos, pagos
pelo cidadão contribuinte.
O que pesa no mundo e o
que determina a sua desgraça, não são fatos isolados feitos a tragédia de Santa
Maria, que comove e desperta a atenção de quase todos, que ganham espaço na
mídia, porque, em Jornalismo, a regra é clara, como diria Arnaldo: o cachorro
morder o homem não é notícia, mas o homem morder o cachorro, sim, é notícia.
O que realmente faz
diferença para a tragédia da sociedade humana é a ignorância fruto do
desinteresse por uma prosperidade espiritual, moral, intelectual, relegadas à
condição de insignificância. São os dramas individuais, resultados dessa
indiferença, que acontecem longe dos olhos da maioria das pessoas e da mídia. E
eles se repetem cada vez mais e de modo mais intenso porque o ser humano, ao
contrário do que está convencido a acreditar, se sente só, apesar de estar
conectado com as pessoas e o mundo à sua volta o tempo todo.
Acontece, porém, que essa relação virtual que
a internet, através do computador, e telefones celulares lhe proporcionam não
satisfaz suas necessidades de afeto e compreensão. Desliga-se um e outro
aparelho, e o que existe em volta, senão a solidão, o angustiante sentimento de
estar, longe, isolado, e sendo tragado para um abismo, um buraco negro, de onde
se imagina que jamais se sairá de tão assustadora que é essa possibilidade.
Seres humanos hoje são
ilhas ligadas umas às outras por fios invisíveis que proporcionam a certeza da
existência da vida e aguçam para o bem e para o mal os seus sentidos, mas que
não alimentam o espírito da sua maior necessidade: o Amor.

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