Pode parecer excesso de pretensão e
romantismo, bem ao feitio do sujeito que motiva a construção destas linhas. Mas
foi num dia como este do calendário que todo ano se repete que, para mim, o
mundo parou. Por um instante, é verdade, porque só o amor conhece o que é
verdade. E como ainda não conheço o distinto e desejado senhor cobiçado por
todos (os românticos, feito eu, principalmente), a verdade, bem, a verdade é
que a verdade eu também desconheço.
Lembro que fui à banca de jornal, um
hábito de infância herdado de meu pai, e eu tinha já 26 anos, estava casado,
mal empregado, ganhando pouco, dispondo, portanto, de poucos recursos e de muitas
responsabilidades. Era o terceiro mês da minha heróica resistência. E eu tinha
quase que a absoluta certeza de que não seria recomendado para o seleto grupo
dos “felizes para sempre” nem mesmo com um empurrãozinho ao final de 90 dias, a
serem completados dali a 8 dias, sim 8
dias, do contrato de experiência matrimonial, que, por uma daquelas
sandices da vida a gente acaba se sujeitando, mais por motivo de manter as
aparências, o orgulho intacto, por não ser taxado de irresponsável por
familiares, amigos, parentes e a sociedade, essa gente bacana que se acha no
direito de dar palpite na vida da gente. Muito mais, devo admitir, por medo do
castigo dos céus, o divino castigo. Donde já se viu rejeitar um filho? Agora eu
já estava casado! Casado! Eu! Isso não era mesmo uma maravilha?!
Então, entre um olhar e outro nesse ou
naquele jornal disposto na banca, a revista sobre filosofia que a grana não
permitia comprar, a revista de literatura que a mistura do dia transformava em
meio quilo de uma saborosa carne moída de segunda com batatinha e molho de
tomate. A expectativa do filho, eu achava que seria um filho, e não estava completamente
errado, quanto a isso, agora eu sei, que nasceria segundo os médicos dali a
mais ou menos, mais ou menos... mais ou menos 60 dias. Que alegria! Um filho! E
ele não teria nome de santo. Teria nome francês. Teria vida em abundância. Como
eu temia que não tivesse! Afinal, esse é o nosso mundo, era o meu mundo, onde
tudo acontecia de modo desordenado, ou simplesmente não acontecia. E antes que
eu envelhecesse dez semanas, resolvi que precisava de companhia. Nada mais que
companhia. Queria continuar tendo uma cama só pra mim. E dividi-la vez em
quando com a companhia.
E de pensar nisso tudo, às vezes, acaba
se pensando demais, sabe. E acho que esse sempre foi o meu grande erro.
Agora que já entreguei o alvo e a
artilharia, e que disse adeus às armas, com dignidade, eu acho, acho que pela
primeira vez nessa sucessão de existências mal resolvidas, que ainda não me
apresentaram a dama felicidade, agora eu percebo, na verdade, eu tenho certeza
como jamais tive até então, que naquele dia e naquela hora, foi quando o mundo
parou. Para mim ao menos. Porque naquele instante, percebi tudo o que eu havia
perdido: pouca coisa. E tudo o que eu jamais tivera: muita coisa. E tudo o que
eu jamais teria: tudo.
O cara se chamava Renato, mas para a
moça da banca de jornal, era apenas o cara da Legião.
Morto aos 36 anos, disse ela.
Lembrei-me que os bons morrem antes. E
eu me achava mesmo muito bom.
Que idade ótima pra dizer adeus. –
pensei.
Não acho! – disse a moça da banca.
Achei que havia pensado alto demais.
Fiquei olhando para a moça da banca de
jornal. E de repente, me lembrei que, muitas vezes, eu percorrera o trajeto nem
tão longo e tão cedo assim, entre a casa onde eu morava e a banca, pensando num
modo de lhe dizer o quanto a admirava. Um modo sugestivo sem ser depreciativo
de elogiar o seu novo cabelo; a roupa que vestia; o seu olhar: meigo, distante
que em certos momentos, faziam o mundo à minha volta parar.
Então, naquele 11 de outubro de 1996, o
mundo parou uma última vez, para um sujeito chamado Renato, o cara da Legião,
segundo a moça da banca de jornal. E para um sujeito, metido a escrever ficção,
que aos 26 anos, casado, dali a 60 dias, mais ou menos, seria pai.
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