E se deu conta de que o livro
já estava fechado, esquecido num canto da sala à espera de melhor sorte.
Lembrava-se que, pela manhã,
explicara ao amigo Orlando o método de escrita do qual se utilizava quando
indagado sobre o que significava “o som do silêncio é a voz da solidão”,
escrito em meio à parede suja, ao lado da mesa onde ficava o computador.
Por isso algum desconforto
lhe causava a promessa que, instantes atrás, fizera a si próprio antes mesmo de
chegar à casa onde morava. A promessa de nunca mais escrever. Ou ao menos até
que desse um jeito na vida, arrumasse outro emprego, mais decente e melhor
remunerado.
Talvez o doce de abóbora
comprado no bar do Bolinha minutos antes o ajudasse a dar um jeito na situação.
Entreter-se-ia com o doce e quem sabe a vontade de escrever passasse, fosse
buscar outro desocupado, um idiota mais solícito e disposto a lhe dar um minuto
de atenção.
Mas não era aquele um doce de
abóbora feito ao que a Dona Lola, sua avó paterna fazia com braço forte e uma
colher de pau num tacho que as madames de hoje em dia chamam de panela. Era
apenas um doce de abóbora empacotadinho que por R$1,00 facilmente se compra em
qualquer bar ou lanchonete.
Por isso não servira como pretexto
para que resistisse à vontade de escrever. Não queria escrever. E por qual
maldita razão levara para a sala algumas folhas de rascunho presas a uma
prancheta e uma esferográfica azul e que, ao alcance de sua mão estivera, o
tempo todo em que sentado desleixadamente no sofá à luz de uma lâmpada de 60
watts emprestada de seu vizinho, tentara ler o livro agora sim, esquecido
definitivamente num canto da sala?
E as ideias orbitavam a sua
mente, num balé sedutor e ordinário de idas e vindas, disposto a atormentá-lo
enquanto não se decidisse entre a prancheta, as folhas de rascunho, a
esferográfica azul e a tela e o teclado do computador, que deixara ligado na
sala ao lado, pra que de longe pudesse ouvir a sua banda de rock favorita que
há muitos anos deixara de existir.
Aliás, em sua opinião, a vida
humana devia ser exatamente igual a uma banda de rock, ou seja: dar o seu
recado e tchau.
Mas as pessoas querem ficar,
querem continuar e se estabelecer, porque em sua tola ingenuidade se acreditam
nascidas para isso, para este lugar, onde todos nascem chorando e morrem
fedendo, geralmente.
Menos ele. Porque ele não
pensava dessa forma. Pensava diferente. Porque certa vez sonhara que chegara à
este mundo algemado, dentro de um veículo bacana, grande, todo jeitoso,
escoltado por dois brutamontes uniformizados e nada simpáticos. Era um homem
alto, de cabelos pretos, de bigode e magro. E reconhecera-se naquele homem. Mas
aquilo era apenas um sonho, não era uma lembrança. Não poderia ser. Já não
poderia ser. Porque na tarde daquele mesmo dia que finalmente chegava ao fim, o
livro continuava esquecido num canto da sala. E ele decidira que tudo voltaria
a ser como antes.
Era aquele o momento de
encerrar mais uma etapa. Iniciar outra. Com o resto de força que lhe restava.
Botar a mochila nas costas como sempre fizera. E seguir adiante. Ciente que a
terra não tem fim, mas a trajetória tem.
Fazia três anos que
descobrira que a vida não começa não aos 40. A vida não começa porque não
termina. É uma coisa só e não se encaixa em filosofia, doutrina nenhuma, embora
todas elas, algozes que são, tentem aprisioná-la.
Era aquele um livro de
Fernando, agora esquecido em um canto da sala. Aquele em que o poeta diz...
Não que concordasse com
Fernando. Considerava-o na verdade, um nojento, esnobe e sovina. Mas com ele
perdera algum tempo, em uma tarde de domingo recente, que passara boa parte,
sentado no banco da Praça de Santa Cruz, antes que fosse completamente cercada
por grades. Era uma tarde de domingo, bem se lembrava, domingo dia dos pais. E
quando os sinos acusaram cinco horas, surgiu Viviane com seu sorriso habitual e
um presente que lhe oferecera cheia de alegria e entusiasmo com estas singelas
e inesquecíveis palavras: Feliz Dia dos Pais, paizinho.
Este poderia ser um motivo
para preencher a tela ainda vazia do computador.
Poderia ser a primeira frase,
porque naquele momento, era a mais verdadeira possível.
Mas ele não queria mais
escrever. Fosse ao teclado e na tela do computador, nas folhas de rascunho
presas a uma prancheta, com o lápis como de hábito ou com a esferográfica azul,
como nos tempos de escola, quando matava aula as sextas à noite, pra ir ao
cinema, voltar pra casa, trancar-se no quarto e escrever enquanto seus pais
dormiam, imaginando que aquele filho iria levá-los à forra, vingá-los das
maldições que a vida lhes acometera.
Nada disso.
Poderia repetir essa única
frase por dez vezes seguidas e outras tantas quantas fossem necessárias. E
realmente, durante toda a sua adolescência e juventude, esta frase estivera em
sua mente, a cada instante: Nada disso.
Primeiro porque já ardiam
seus olhos. Segundo, a única calça que encontrara limpa no armário o impelia
ceder à natureza antes que fosse tarde.
Talvez voltasse minutos
depois e o rosto lavado de suor, para diante da tela do computador, onde a sua
banda de rock favorita continuava a tocar.
Mas certamente, o livro,
aquele, continuaria esquecido em um canto qualquer da sala, ao lado das folhas
de rascunho presas a uma prancheta e da esferográfica azul ao alcance de sua
mão, igualmente esquecida. Para sempre.
*Crônica publicada no Jornal Aquarius, edição No. 105, Outubro/2012 e no site Autores. Aqui o link: http://www.autores.com.br/2012100757125/cronicas/cronicas/pagina-avulsa-de-um-caderno-de-notas.html

Que mais posso dizer nobre amigo Poeta/Escritor, que mesmo com essa sua fase difícil e sem "inspiração" consegue reverter isso em autênticas palavras num contexto envolvente, e isso caro amigo é nato, não tem jeito...rs...re ndo-me...Paarab éns !
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