sábado, 16 de maio de 2020

O TRIBUNAL DA CONSCIÊNCIA


Aos ferros, o acusado foi apresentado perante o Tribunal da Consciência.
“Que se aproxime o relator” – disse o Juiz.
Com uma pasta volumosa nas mãos, o relator assim procedeu.
“Seja feita a leitura dos autos”.

“O acusado – disse o relator com voz solene – viveu 49 anos, em ótimas condições. Filho de bons pais, frequentou as melhores escolas, vestiu as melhores roupas e teve à mesa, farta refeição, todos os dias. Nada lhe foi exigido, senão estudar e formar-se. Aos 29 anos, casado, e militando na área da advocacia, foi convidado a ingressar na política. De suplente de vereador, passou à vereador. Aproveitando as facilidades da posição que ocupava deixou-se corromper facilmente. Em poucos anos, tornou-se prefeito e depois deputado, ampliando seu espectro de influência, através do qual, conseguia todas as vantagens possíveis para o seleto grupo que representava. Foi alertado pelos pais, várias vezes, para lembrar-se um pouco daqueles que lhe outorgavam o mandato, repetindo o voto de confiança em seu favor, a cada 4 anos. E, nessas horas, ele ria jocoso, tamanha a ingenuidade dos pais. Por suas mãos passaram recursos de grande monta, desviados para comprar as consciências de seus pares, o silêncio e a conivência de autoridades. Lembrava da gente humilde de sua cidade, a cada campanha eleitoral, para renovar promessas, jamais cumpridas. Ganhava a simpatia de seus conterrâneos, com pequenos favores e muitas festas, com comidas e bebidas servidas gratuitamente e à vontade. Nessas ocasiões, lembrava-se de trazer consigo o artista famoso, admirado por muitos, e que no meio da gente humilde, distribuía ao seu lado, abraços, sorrisos e autógrafos. E quando perguntado sobre a escola, a creche, o posto de saúde, o acusado desconversava, dizendo que as obras tão necessárias à população carente estavam a caminho, e que, naquela semana, daria um ultimato ao governador E, ao afirmá-lo, era aplaudido efusivamente, em princípio, pelos correligionários. Numa tarde de domingo, quando voltava para a capital após visita à sua cidade, sofreu terrível acidente automobilístico, no qual veio a falecer. E agora, é trazido perante o Tribunal da Consciência, para ouvir sua sentença”.
E diante do exposto:
“Culpado” – disse o juiz, sem hesitar.
“Mas como? – protestou o acusado – Onde está minha culpa? Qual crime eu cometi?”
“Todos eles”.
“Mas eu não matei! Fui um marido fiel, um pai amoroso, e se roubei, não foi para mim, foi pela causa que defendíamos, nosso projeto de poder”.
“O que não deixa de ser roubo. E sendo roubo, você se apoderou do que não lhe pertencia. E, ao fazê-lo, relegou à miséria, ao desamparo e ao sofrimento, milhares de pessoas que dependiam daqueles recursos para amenizarem as dores inenarráveis que eram obrigados a suportar. As dores do corpo e as dores da alma. E você sabia as consequências de seus atos, o tempo todo. Mas nunca se importou. Nunca tentou corrigir-se. Nunca se esforçou para evitar cometer sempre os mesmos erros”.
“Mas eu não podia! Não podia falhar. Eu era uma peça importante da engrenagem do sistema. Se eu falhasse, iria tudo por água abaixo. E nós, perderíamos a oportunidade, pela qual, esperamos tanto”.
“Não se trata de falhar. Mas de ter atitude. E você não teve”.
“Insisto! Eu não tinha escolha!”
“Tinha. Você sempre teve. Tinha formação. Era um advogado. E um bom advogado. Seu pai o ajudou a montar o seu escritório. Bastava se dedicar ao seu trabalho, e o suficiente nunca lhe faltaria. Mas a sua ambição...”
“Tudo o que fiz foi de boa-fé”.
“Pode até ser. Mesmo assim, você errou”.
Ao sinal do Juiz para que o relator se aproximasse, este assim procedeu. E com a pasta na mão, voltou a ler a peça acusatória.
“O acusado, antes de iniciar a mais recente jornada na condição humana, implorou...”
“Repita isso”.
“... Implorou”.
E diante dessa afirmação, o acusado baixou os olhos e curvou a cabeça, envergonhado.
“Prossiga”.
“Implorou que lhe fosse concedida a oportunidade de estudar e formar-se advogado, porque pretendia lutar pelos direitos dos menos favorecidos, reparar injustiças, e reivindicar o cumprimento das políticas sociais estabelecidas pelos governos em atendimento aos anseios populares”.
“Ou seja, um homem de boa-fé – observou o juiz – Mas o inferno, como todos sabem, está cheio deles. Pois bem. Deus que é tão bom, lhe deu tudo isso o que você pediu. Aliás, implorou. E lhe deu muito mais. Além de advogado, você teve a chance de ingressar na política para trabalhar em favor do bem comum. Fizeste isso?”
“Não”.
“O que lhe diz então, a sua consciência?”
“Que falhei”.
“Certamente. Mas Deus é tão bom, que a sua condenação, será: recomeçar. Não agora, evidentemente. Porque agora, você irá refletir sobre seus atos. E no momento oportuno, daqui algum tempo, terá a chance de refazê-los”.
Diante do Tribunal da Consciência, o acusado ajoelhou-se em agradecimento.
“Não agradeça. Deus não age como os homens que premia os vencedores e repudia os fracassados. Deus deseja que todos caminhem... adiante... sempre.
Havia um homem que acompanhara o julgamento o tempo todo, calado e distante. Mas que não conseguiu esconder um sorriso de satisfação, ao ouvir a sentença. O que mais lhe importava ali, não era a condenação em si, mas ver o acusado, de joelhos.
“Você! – disse o juiz, voltando os olhos na direção desse homem – Aproxime-se”.
Ainda que receoso, o homem não ousou desobedecer.
“Foste chamado?”
“Não”.
“Que fazes aqui?”
“Estou acompanhando apenas. Nada mais”.
“E qual seu interesse no caso?”
“Confirmar as minhas convicções”.
“Conhece esse homem? – disse, referindo-se ao acusado que já se afastava”.
“Sim. E o conheço muito bem. Acompanhei toda a sua trajetória. Soube o tempo todo de seus erros, e porque os cometia”.
“E o que fizeste disso? Tiraste algum proveito em teu benefício?”
“Nenhum”.
“E que sentimento tinhas, naquele tempo, por esse homem desgraçado?”
“Nenhum”.
“Mentes”.
“Como sabes?”
“A consciência tudo sabe”.
“Eu tinha inveja”.
“Procurou alertá-lo sobre os erros que ele praticava?”
“Não. Eu jamais o faria”.
“Por que?”
“Eu queria mesmo era vê-lo se dar mal”.
“E conseguiste?”
“Não”.
“Mas tentaste?”
“Sim”.
“De que modo?”
“Eu o chantageava”.
“Fizeste muito mal”.
“Eu sei”.
“Sabe? Ou sabia?”
“À época, eu não sabia. Aliás, eu não queria enxergar os fatos sob essa perspectiva”.
“Mas agora consegue?”
“Não que eu consiga ou queira. Mas é inevitável”.
“E presume saber o motivo?”
“Sim”.
“E qual o motivo?”
“É simples. Da consciência, nada se esconde por muito tempo”.
“E o que pretendes fazer agora?”
“Recomeçar de onde parei. Se eu puder”.
“Sempre é possível. Antes, porém, vá refletir sobre os seus atos. E depois, no momento oportuno, quando estiver melhor preparado, terá a chance de se entender com o seu desafeto”.
“E ele aceitará minhas desculpas?”
“Quanto a isso não se preocupe. Pra toda situação, boa ou má, a necessidade se impõe”.
Agradecido, o homem afastou-se, tomando o mesmo caminho que o acusado.
O juiz olhou para o relator, à espera de alguma pergunta, que não demorou a vir.
“Posso pedir que entre o próximo acusado?”
“Daqui a pouco. Por ora, vamos nos refrescar com um copo d’água”.

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