Aos
ferros, o acusado foi apresentado perante o Tribunal da Consciência.
“Que
se aproxime o relator” – disse o Juiz.
Com
uma pasta volumosa nas mãos, o relator assim procedeu.
“Seja
feita a leitura dos autos”.
“O
acusado – disse o relator com voz solene – viveu 49 anos, em ótimas condições.
Filho de bons pais, frequentou as melhores escolas, vestiu as melhores roupas e
teve à mesa, farta refeição, todos os dias. Nada lhe foi exigido, senão estudar
e formar-se. Aos 29 anos, casado, e militando na área da advocacia, foi
convidado a ingressar na política. De suplente de vereador, passou à vereador.
Aproveitando as facilidades da posição que ocupava deixou-se corromper
facilmente. Em poucos anos, tornou-se prefeito e depois deputado, ampliando seu
espectro de influência, através do qual, conseguia todas as vantagens possíveis
para o seleto grupo que representava. Foi alertado pelos pais, várias vezes,
para lembrar-se um pouco daqueles que lhe outorgavam o mandato, repetindo o voto
de confiança em seu favor, a cada 4 anos. E, nessas horas, ele ria jocoso,
tamanha a ingenuidade dos pais. Por suas mãos passaram recursos de grande
monta, desviados para comprar as consciências de seus pares, o silêncio e a
conivência de autoridades. Lembrava da gente humilde de sua cidade, a cada campanha
eleitoral, para renovar promessas, jamais cumpridas. Ganhava a simpatia de seus
conterrâneos, com pequenos favores e muitas festas, com comidas e bebidas
servidas gratuitamente e à vontade. Nessas ocasiões, lembrava-se de trazer
consigo o artista famoso, admirado por muitos, e que no meio da gente humilde,
distribuía ao seu lado, abraços, sorrisos e autógrafos. E quando perguntado
sobre a escola, a creche, o posto de saúde, o acusado desconversava, dizendo
que as obras tão necessárias à população carente estavam a caminho, e que,
naquela semana, daria um ultimato ao governador E, ao afirmá-lo, era aplaudido
efusivamente, em princípio, pelos correligionários. Numa tarde de domingo,
quando voltava para a capital após visita à sua cidade, sofreu terrível
acidente automobilístico, no qual veio a falecer. E agora, é trazido perante o
Tribunal da Consciência, para ouvir sua sentença”.
E
diante do exposto:
“Culpado”
– disse o juiz, sem hesitar.
“Mas
como? – protestou o acusado – Onde está minha culpa? Qual crime eu cometi?”
“Todos
eles”.
“Mas
eu não matei! Fui um marido fiel, um pai amoroso, e se roubei, não foi para
mim, foi pela causa que defendíamos, nosso projeto de poder”.
“O que
não deixa de ser roubo. E sendo roubo, você se apoderou do que não lhe
pertencia. E, ao fazê-lo, relegou à miséria, ao desamparo e ao sofrimento,
milhares de pessoas que dependiam daqueles recursos para amenizarem as dores
inenarráveis que eram obrigados a suportar. As dores do corpo e as dores da
alma. E você sabia as consequências de seus atos, o tempo todo. Mas nunca se
importou. Nunca tentou corrigir-se. Nunca se esforçou para evitar cometer
sempre os mesmos erros”.
“Mas
eu não podia! Não podia falhar. Eu era uma peça importante da engrenagem do
sistema. Se eu falhasse, iria tudo por água abaixo. E nós, perderíamos a
oportunidade, pela qual, esperamos tanto”.
“Não
se trata de falhar. Mas de ter atitude. E você não teve”.
“Insisto!
Eu não tinha escolha!”
“Tinha.
Você sempre teve. Tinha formação. Era um advogado. E um bom advogado. Seu pai o
ajudou a montar o seu escritório. Bastava se dedicar ao seu trabalho, e o
suficiente nunca lhe faltaria. Mas a sua ambição...”
“Tudo
o que fiz foi de boa-fé”.
“Pode
até ser. Mesmo assim, você errou”.
Ao
sinal do Juiz para que o relator se aproximasse, este assim procedeu. E com a
pasta na mão, voltou a ler a peça acusatória.
“O
acusado, antes de iniciar a mais recente jornada na condição humana,
implorou...”
“Repita
isso”.
“...
Implorou”.
E
diante dessa afirmação, o acusado baixou os olhos e curvou a cabeça,
envergonhado.
“Prossiga”.
“Implorou
que lhe fosse concedida a oportunidade de estudar e formar-se advogado, porque
pretendia lutar pelos direitos dos menos favorecidos, reparar injustiças, e
reivindicar o cumprimento das políticas sociais estabelecidas pelos governos em
atendimento aos anseios populares”.
“Ou
seja, um homem de boa-fé – observou o juiz – Mas o inferno, como todos sabem,
está cheio deles. Pois bem. Deus que é tão bom, lhe deu tudo isso o que você
pediu. Aliás, implorou. E lhe deu muito mais. Além de advogado, você teve a
chance de ingressar na política para trabalhar em favor do bem comum. Fizeste
isso?”
“Não”.
“O
que lhe diz então, a sua consciência?”
“Que
falhei”.
“Certamente.
Mas Deus é tão bom, que a sua condenação, será: recomeçar. Não agora,
evidentemente. Porque agora, você irá refletir sobre seus atos. E no momento
oportuno, daqui algum tempo, terá a chance de refazê-los”.
Diante
do Tribunal da Consciência, o acusado ajoelhou-se em agradecimento.
“Não
agradeça. Deus não age como os homens que premia os vencedores e repudia os
fracassados. Deus deseja que todos caminhem... adiante... sempre.
Havia
um homem que acompanhara o julgamento o tempo todo, calado e distante. Mas que
não conseguiu esconder um sorriso de satisfação, ao ouvir a sentença. O que
mais lhe importava ali, não era a condenação em si, mas ver o acusado, de
joelhos.
“Você!
– disse o juiz, voltando os olhos na direção desse homem – Aproxime-se”.
Ainda
que receoso, o homem não ousou desobedecer.
“Foste
chamado?”
“Não”.
“Que
fazes aqui?”
“Estou
acompanhando apenas. Nada mais”.
“E
qual seu interesse no caso?”
“Confirmar
as minhas convicções”.
“Conhece
esse homem? – disse, referindo-se ao acusado que já se afastava”.
“Sim.
E o conheço muito bem. Acompanhei toda a sua trajetória. Soube o tempo todo de
seus erros, e porque os cometia”.
“E o
que fizeste disso? Tiraste algum proveito em teu benefício?”
“Nenhum”.
“E
que sentimento tinhas, naquele tempo, por esse homem desgraçado?”
“Nenhum”.
“Mentes”.
“Como
sabes?”
“A
consciência tudo sabe”.
“Eu
tinha inveja”.
“Procurou
alertá-lo sobre os erros que ele praticava?”
“Não.
Eu jamais o faria”.
“Por
que?”
“Eu queria
mesmo era vê-lo se dar mal”.
“E
conseguiste?”
“Não”.
“Mas
tentaste?”
“Sim”.
“De
que modo?”
“Eu o
chantageava”.
“Fizeste
muito mal”.
“Eu
sei”.
“Sabe?
Ou sabia?”
“À
época, eu não sabia. Aliás, eu não queria enxergar os fatos sob essa
perspectiva”.
“Mas
agora consegue?”
“Não
que eu consiga ou queira. Mas é inevitável”.
“E
presume saber o motivo?”
“Sim”.
“E qual
o motivo?”
“É
simples. Da consciência, nada se esconde por muito tempo”.
“E o
que pretendes fazer agora?”
“Recomeçar
de onde parei. Se eu puder”.
“Sempre
é possível. Antes, porém, vá refletir sobre os seus atos. E depois, no momento
oportuno, quando estiver melhor preparado, terá a chance de se entender com o
seu desafeto”.
“E
ele aceitará minhas desculpas?”
“Quanto
a isso não se preocupe. Pra toda situação, boa ou má, a necessidade se impõe”.
Agradecido,
o homem afastou-se, tomando o mesmo caminho que o acusado.
O
juiz olhou para o relator, à espera de alguma pergunta, que não demorou a vir.
“Posso
pedir que entre o próximo acusado?”
“Daqui
a pouco. Por ora, vamos nos refrescar com um copo d’água”.

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