quarta-feira, 13 de maio de 2020

É SÓ POESIA


Se eu pudesse trazer à tona todo ódio que existe dentro de mim
Se eu pudesse trazer à superfície toda a revolta contida dentro de mim
Faria desaparecer diante de meus olhos
As paredes, quatro ou cinco, ou três, que me aprisionam nesse viver que repudio
Faria surgir diante de mim, a estrada imensa, sem fim, que me leva a lugar nenhum
O deserto infinito, sob o sol escaldante, eu faria surgir
Faria aquecer o frio intenso da noite
Faria secar a água gelada da manhã que escorre pelos cantos, à sombra, do monte de areia
Onde, vez por outra, encosto minha cabeça, enquanto olho para o céu
E vejo sem grande entusiasmo, enquanto respiro devagar, quase parando
As nuvens passarem correndo, sorrindo, brilhando,
Ganhando novas formas e novas dimensões, a cada instante
As doze horas terríveis em que sob o sol me disfarço
O disfarce gasto, a roupa puída, de sempre, fedida,
Roupa rota, o disfarce; sujo, rasgado, porque outro não tenho
Engano a mim mesmo, as pessoas e o mundo, com palavras doces e gentis, mas,
Dentro de mim, o fogo serpentino queima em minhas entranhas,
Labaredas saem de minha boca maldita, condenada ao silêncio
E corrói os ossos quebrados, a carne apodrecida, do corpo que vai se desfazendo
Gemendo a sua dor, uivando o seu rancor, em forma de poesia
Se eu pudesse trazer à tona todo ódio que existe em mim
Faria parar o tempo, voltar o tempo, as pessoas não
Não tenho para elas uma palavra amiga, um gesto de piedade,
Um último olhar, não tenho
As pessoas que conheci, eu as esqueci
Que se desfaçam no nada da minha indiferença
Que permaneçam no vazio do vale escuro da morte
Onde depus minhas armas e toda a minha esperança
Lembro-me daqueles dias a cada cair da noite
Quando surgem as primeiras estrelas no céu
E os olhos se voltam para Deus em oração, seis horas
Vem a noite e traz consigo, todos os seus medos e suas dores, a solidão
Se eu pudesse trazer à tona todo ódio que existe dentro de mim
Talvez acalmaria, ainda que por um segundo o meu coração
E minha mente talvez pudesse aquietar-se no silêncio úmido da prisão
Onde me encontro, à espera, sem esperança, do anjo libertador, que não vem





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