Vivo
tendo pesadelos terríveis com Bukowski. Para os menos avisados, não se
trata de nenhum remédio de faixa preta ou bebida destilada. Trata-se do meu fidalgo
amigo Charles. O meu amigo Charles, pra que fique bem claro, é mais chic, mais descolado, mais desbocado,
mais putanheiro e, também, mais sentimental, que aquele outro, pois sim.
Então,
chefia, como ia dizendo, sonhei que estava caminhando com meu amigo Bukowski,
também conhecido na intimidade como Henki. E nós caminhávamos, assim, despreocupadamente.
Esse
foi o sonho mais recente. Caminhávamos por uma rua deserta, isolada, esquecida
por qualquer traço de civilidade. Casas abandonadas, ruas esburacadas e
calçadas depauperadas, cheias de mato, fezes de cães, urina de gatos, um
horror.
Árvores,
havia algumas, mal formadas, mal desenvolvidas, como se o sopro da vida tivesse
esquecido de bafejá-las. Uma vila de operários, de um bairro distante do centro,
entregue ao abandono, desde que a fábrica de calçados encerrara as atividades e
pusera todos os empregados no olho da rua.
Era
noite, e nós, caminhávamos por essa rua, cada qual com sua garrafa. A minha
acabou primeiro. E passamos a dividir a dele, do meu amigo Charles, naquela
proporção generosa de, duas goladas pra ele, às vezes, três, e, uma pra mim.
Tudo
bem. Lá na frente, quando chegasse a avenida movimentada que dava acesso ao
posto de combustível, eu iria à forra. Se chegássemos até lá. Se não ficássemos
encostados em alguma parede, dessas que ameaçam desabar a qualquer momento.
Bukowski
é um cara legal, fazedor de versos, como eu gostaria de ser. Arrisco uns versos,
às vezes, não ficam nada bom, mas eu insisto. Teimosia, o defeito do ser
humano. Ele trabalhou nos Correios, eu não. As mulheres parecem não se importar
com seu barrigão. Porque ele vive me contando sobre suas conquistas amorosas.
E
você? Ele pergunta, nessas ocasiões. Nada, não! – respondo.
Nada
tenho a dizer. É sempre assim. Vidinha mais chata a que eu levo! Talvez por
isso eu sonho bastante. O que não vivo aqui, no mundo da realidade, busco viver
no mundo da ilusão, onde nada é real, embora, tudo possa acontecer.
Já
amanhecia, bem me lembro, quando ele me disse, garoto, paramos por aqui. Acenou
com a mão, despedindo-se, sem olhar na minha direção, e, com sua garrafa, se
foi.
Acordei
já era bem tarde. A velha cama, apoiada por tijolos, o velho colchão imundo,
fedido, rasgado. Uma vontade louca de passar um café e fumar. E o poema de Bukowski,
que eu mais gosto, martelando na minha cabeça, como acontece todo santo dia, fazendo-me
lembrar, sem saber muito bem ao certo que dia da semana era, e que eu fui nascido
dentro disto, Born into this, um mundo onde agora as pessoas andam de máscaras,
e ficam isoladas e distantes, proibidas de expressar o seu afeto, até quando
não sei, e acho que ninguém sabe.
Vou
ao banheiro lavar o rosto, deparo-me com a feiura de uma cara amassada e olhos
apalermados, inchados. Dormir é bom. E me ocorre a mesma maldita pergunta de
toda santa manhã: Que chance na vida tem um cara como eu? 51 anos, um fracasso.
Um redundante fracasso. Nada que conste no currículo que mereça menção. Em
ambos os currículos, o sentimental e o profissional. Desgraça pouca é bobagem.
Então,
abro a porta, do quarto onde moro e que também me serve, agora mais do que
nunca, de local de trabalho e de estudo. E atravesso o longo corredor que me separa
do portão de folha, pintado de marrom que me leva à rua, a cada manhã.
O
momento sublime da existência, quando me deparo com o sol, logo pela manhã, que
já desponta no leste. Faço minhas orações, olhando na direção do sol, como
sempre faço, os olhos fechados, atento à respiração.
E
ultimamente, as minhas orações, elas começam assim: Born into this; Born like
this; Into this. Traduzindo: Nascido em meio a isso; nascido assim, em meio a
isso...
Vou
mais longe. Volto a aprisionar o meu pensamento, trago ele para a realidade
dura, nua e crua. Onde as pessoas já não tem emprego, talvez daqui a pouco, não
tenham trabalho. Onde as pessoas moram de favor, comem de favor, e logo estarão
defecando no mato que cresce nas calçadas ou atrás dos postes, cujas luzes,
estão queimadas, há muito tempo. Onde, se agradece com olhares compassivos, a
esmola dada por aqueles que se dizem representantes de algo mais sagrado do que eles próprios. Onde a fé se tornou artigo
de luxo, porque a dor do corpo não é menor nem maior que a dor da alma. Nascido
em meio a isso; nascido assim, em meio a isso. E pior, agora que volto meus
olhos para a nuvem que passa sobre minha cabeça, eu me lembro, sem disfarçar o
sorriso cínico, que me é tão peculiar, que eu sabia, lá atrás, quando me decidi
por isso, que seria assim.





