segunda-feira, 29 de abril de 2019

SOB OS MEUS PÉS


O meu chão é frágil
E eu não tenho mais onde me apoiar
É como se eu estivesse perdido na mata
Ao vento, em alto-mar
Tentando me equilibrar sobre as águas
Em desespero, antes de me afundar
Sinto-me só, nu, no deserto
Rajadas de vento e areia cobrem meu corpo,
Agora deitado, inerte, como que abandonado
Sinto-me livre, porque longe,
Embora preso, porque desperto, vejo
Que nada termina, sem que haja resposta
O meu chão é frágil
Está rachado sob os meus pés
Os meus passos são lentos, incertos
Ao longe as montanhas tremem
As aves balançam no céu
E o vento, nervoso, canta
O seu desespero, o meu tormento
Vejo, passivo, impotente,
Tentando me equilibrar
Sobre o chão, que se rompe, abaixo de mim,
O dia partir e chegar
O meu chão é frágil
É como se eu hesitasse
A cada momento em suspenso, evitado
O passo seguinte
Meu corpo treme, não se sustenta
Tenta, por um instante, um movimento
Que pudesse me libertar
Vai se desfazendo, contudo
Como areia na ampulheta
Ao longe o vento vai
E leva muitos consigo
E mais uma vez como sempre
Temente a Deus, a voz poderosa
Que o chama ao infinito
De mim se esquece
O meu chão é frágil
Os meus pés, porém, ficarão
E eu, como sempre, evitarei, o passo seguinte.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

NOTÍCIAS DE ONTEM


As voltas que o mundo dá. Há 40 anos, a introdução de uma das matérias da saudosa revista Manchete dizia: “Um garotinho bebendo Coca-Cola na grande muralha talvez seja o símbolo máximo da conquista da China pelos Estados Unidos”.
Na China de 40 anos atrás vivia-se a abertura para o Ocidente promovida pelo líder Den Xiao Ping. Segundo a matéria assinada pelo jornalista Justino Martins, as mulheres vestindo saias rodadas ensaiavam os primeiros passos de rock, orientadas por jovens americanos. E a criançada dava um rolê de skate entre uma Coca-Cola e outra. Os bailes públicos, promovidos pelo governo comunista chinês, era visto pelos mais conservadores como uma submissão à decadência social americana. Jovens chineses num ato de rebeldia escreviam nos muros de Pequim: “Faço amor com quem eu quiser”.
Nada mal se pensarmos que, no Ocidente, houve tempo em que era preciso peticionar à sua Majestade para ter relações sexuais. Ao menos é o que nos informa os alfarrábios digitais tão em moda.
Quarenta anos depois, o parafuso deu lá suas voltas, e parece que a China é que conquistou os Estados Unidos. Se não no aspecto cultural e na introdução de hábitos e costumes orientais na sempre descolada e inventiva sociedade americana, mas, certamente, no financeiro.

Mas o papo é outro. Dizia um anúncio da mesma finada revista que já naqueles idos de 1979, havia uma preocupação quase obsessiva para tratar de obesidade, ao menos é o que indicava o 1º. Simpósio Internacional sobre o tema, realizado no Rio de Janeiro, com a devida reprovação de bares e choperias, segundo alguns colunistas sociais da época.
Percorrendo as páginas da extinta Manchete, que era por assim dizer, uma mistureba de Veja com Caras, descubro que era no Morro do Sapo que o famigerado Esquadrão da Morte fazia as suas desovas. Naquela oportunidade, haviam sido apenas 3, mas os números atualizados informavam um total de 199 execuções. Números modestos se comparados aos praticados hoje por milícias e facções do crime organizado.
Mas não era só de sangue a que se reportava a revista que tinha o visionário Adolfo Bloch à sua frente. Enfim, pude ver a cara do primeiro bebê de proveta. Porque naquele 1979, então com 10 anos de idade, não tive a satisfação. Tratava-se de um bebê lindo, loirinho e sorridente de nome Louise Brown, então, com 8 meses de vida. Falava a matéria de seu passeio na Disneylândia (bebê de proveta americano são outros quinhentos, meu caro!) e do nascimento dos seus primeiros e lindos quatro dentinhos. Que bonitinhos!
Há 40 anos, o Márcio Braga era presidente do Flamengo (grande coisa!), e a bola com a qual se jogava futebol nos campos do Brasil, era a Drible. Por falar nisso, algum barrigudo inveterado leitor de revistas e jornais, contando mais de 60 primaveras, se lembra, por acaso, que o ministro da Comunicação Social, há exatos 40 anos, se chamava Said Farhat? Mande cartas para a redação.
E a companhia Varig dizia aos seus passageiros num sugestivo anúncio de página inteira: “Somos mais que bons amigos”. Devia ter dito isso também ao governo. Ao menos enviado um Telex. Quem sabe teria tido melhor sorte.
Sim, as voltas que o mundo dá! Já dizia o filósofo Nércio Praxedes, 2019 depois de Cristo. Morreu semana passada. Pobrezinho! Foi enterrado às 3 da tarde. Pouca gente no velório. Pessoas inteligentes e que ousam pensar são evitadas nesse país de sábios, mesmo depois de mortas.
Folheando, folheando e plagiando o Jota Flores, chego à página 28, ainda com a xícara de café na mão, aquele ar de menino curioso, o óculos caído sobre o nariz. E me deparo com o Dr. Sardinha, também conhecido nas horas vagas como Jô Soares, o humorista, matéria de capa, inclusive, naquela edição, e seu encontro memorável com Delfim Netto, então ministro da Agricultura. Ah, te peguei, heim, desatento leitor! Pensou que eu iria dizer Planejamento, né? Danadinho! Nem vou mencionar o teor da conversa. Mas, imagine caro leitor, que ambos os gordinhos falaram muito sobre abobrinhas e pepinos.
Bom, eu tinha muito mais coisa pra escrever, mas, como diria o finado Ibrahim, “Ademã, que eu vou em frente”.



terça-feira, 23 de abril de 2019

DEMAIS DA CONTA


Carros demais e ruas de menos. Informações demais e relevância de menos. Gente demais ocupando espaço de menos.
Espaço ocioso demais por toda parte, terras à perder de vista, sem nenhuma ocupação ou utilidade.
Imóveis demais, desocupados, se deteriorando, e procriando a perder de vistas, o famigerado mosquitinho mortal.
Filmes demais, a cada canal, e a cada minuto. Músicas demais, ouvidos de menos. Músicas?
Gente demais, falando muito, ao telefone, por qualquer meio, sem ter o que falar, apenas pelo simples fato de se auto afirmar perante a si mesmo e o mundo. Oh, tola e boçal necessidade!
Religião demais, profetas demais, cristãos de verdade, de menos, cada vez menos. Dinheiro demais, em poucas mãos, pouquíssimas. Direitos demais, deveres de menos.

Arte e cultura demais, conteúdo de menos. Futebol demais, na tevê, rádio, jornal, internet, e jogo bom, que é bom, nada, ou quase nada. O quase, fica bem distante daqui, lá do outro lado do mundo.
Promessas, projetos demais, realizações de menos. Tudo excede à necessidade nesse mundo rápido, hostil, em que tudo é descartável, até mesmo as pessoas.
Pensa-se demais, sonha-se demais, e faz-se tão pouco. Porque o fazer demanda tempo, esforço, trabalho, correção, interrupção, recomeço. Ah, isso não!
Alimentos agora, até na impressora terceira dimensão. Pra que plantar? Pra que colher? Difícil não é imaginar para onde caminhamos. Difícil é mensurar as consequências do nosso suicídio lento, gradual, constante.
Confunde-se evolução com perdição. Consumir com felicidade. Produzir coisas com realização pessoal. Opta-se pela porta larga, mais atraente e sedutora, porém, fatal.
E fazemos tudo isso, de modo bestial, sem nenhum constrangimento, mesmo sabendo, de antemão, que aqui estamos, por um tempo, vivendo uma experiência, e nada além disso, mas aqui não ficaremos.
Bicho homem. Como você é estúpido!

quinta-feira, 18 de abril de 2019

TODAS AS DORES DO MUNDO


Todas as dores do mundo
Às vezes, posso senti-las
Como se sufocassem
A minha vontade
De ser feliz
E impedissem
O meu caminhar
E me fizessem
Deitar
O rosto no chão
E ao fechar os olhos
Ouvir
O zumbido do alto
Sobre minha cabeça
E me ver envolvido
Pela escuridão
Dos dias que se aproximam
Todas as dores do mundo
Por vezes, posso senti-las
Como se impusessem
Sobre mim
O peso do mundo
Que não posso suportar
A minha esperança
Ferida, fugaz
Que vai e vem
Como as ondas do mar revolto
Onde me encontro,
Náufrago de mim mesmo
Espero de novo
Que o sol brilhe
E se desfaçam as nuvens
Que tornam meus dias
Escuridão
Todas as dores do mundo
Por vezes, posso senti-las
Enquanto caminho
Par e passo
Com minha solidão
Seja noite ou dia
Manhã ou entardecer
Sempre juntos, eu e ela
Solidão
Que me apanhou
Em algum momento
Descuidado de minha vida
Já faz tempo
Jeans e camiseta
Eu vestia
Tênis surrado nos pés
Pés arrastando-se no chão
E mãos, nos bolsos
Da calça rasgada
Que não era moda, mas vergonha
Miséria
Todas as dores do mundo
Por vezes, ainda posso senti-las
Mesmo sabendo que meus dias
Restam poucos,
Minha história
Já quase concluída
Porque, agora percebo
Vai acabando o lápis
Vão sumindo as folhas
E diante de mim
As imagens
Também desaparecem
Aos poucos
Desaparecem as cores
E os sons
Fica a solidão
Cravada em meu peito
E todas as dores do mundo
Mesmo passado tanto tempo,
Percorrido tanto chão
E visto tanta coisa
Mesmo derramado
Tantas lágrimas, às escondidas
No quarto reservado
Da minha tarde escura
Que demora a passar
E todas as dores do mundo
Como um peso
Insuportável sobre mim
Eu continuo a senti-las
Venha megera dama
Vestida de branco
Me libertar



domingo, 14 de abril de 2019

SONHO E REALIDADE


Vive-se e morre-se por um sonho. Há pessoas que são capazes disso. Não muitas. Há sonhos que nascem na infância, ao primeiro olhar em direção à alguma coisa que se sabe, de antemão, que não se pode ter.
Então, passa o tempo, e aquele sonho que não desabrochou em realidade, torna-se frustração ou estímulo, para se obtê-lo. São as duas escolhas possíveis na vida: enfrentar a luta ou fugir dela.

Há sonhos porém, que se revelam pesadelos. São aqueles que não merecem o esforço, mas, se submetem invariavelmente à teimosia e ao orgulho. Sonhos que fazem sofrer são como amores que não trazem felicidade: não merecem ser vividos.
Mas há um cantinho no coração, onde os sonhos permanecem, por vezes, por muito tempo, adormecidos. Despertam, entretanto, quando visitados, por uma dama generosa, bonita, sorridente, de nome esperança.
É quando se faz primavera no coração, e se acredita que um olhar meigo, um sorriso, que venha de encontro ao mais acalentado anseio, possa trazer consigo, a felicidade. Geralmente não. Então, esperança se vai. E os sonhos ficam... a fazer companhia. E chega o tempo marcado da vida, em que é tudo o que podem oferecer, a sua companhia.
Talvez, nesse instante inevitável e comum a todos, os sonhos sejam desposados, pela realidade. Mas a realidade, por vezes, desconhece a palavra gentileza, prefere se impor, é dura e, em certos momentos, cruel. Não faz caso de se impor perante os sonhos, e os trata como capacho, quando não os ignora. Há sonhos que se agigantam quanto mais macerados são; há sonhos que não suportam, e se vão. E outros permanecem, de curiosos, querem ver como tudo termina.
Mas a realidade não tem hora nem lugar, chega e se estabelece, avassaladora. Sonhos aprisionados, sonhos escondidos, sonhos desfeitos na miséria de corações fracos. Sonhos... Sonhos renascem, despertam, e ficam.
A realidade se modifica, sem demora. Adquire outras faces, toma para si outros ambientes, aparece e desaparece. Os sonhos não. Quando existem, são sempre os mesmos, e quanto mais sofrem, mais se fortalecem.
Os sonhos, nascem da vontade humana de ser feliz, são imortais, caminham a par e passo com aqueles que lhe dão vida, fazem pulsar os seus corações. É a força que os levanta do chão e os coloca em movimento. Os sonhos são o maior e mais bonito presente da vida. A obra imperfeita e inacabada do Criador.