Deve ser uma delícia. Olhar o pedaço de céu que a
janela aberta permite, a parede vai desaparecendo, o céu aumentando, ficando
perto, surgem algumas nuvens, ouve-se ao longe um som que se parece com
melodia, mas que de fato não se sabe o que seja.
Sente-se o corpo leve, como se pouco a pouco, a fé,
a vontade, o pensamento, o sentimento que nos move, fosse desprendendo,
diluindo-se e recompondo-se, ao lado.
Não sei se é assim. E numa visão bastante otimista,
devo dizer que provavelmente seja.
Alguns chamam esse momento único e inevitável da
vida, de morte. Outros, o chamam de Passagem, Transição, Retorno.
Essas pessoas poderiam ser poetas. Não as chamarei
de insensíveis. Não sou cruel para tanto.
Mas o modo como conheci a morte, difere de tudo
isso. Bem entendido: Não a vivi, apenas a conheci, da maneira mais superficial
possível, menos próxima da verdade, a mais especulativa e, portanto, adorável:
eu conheci a morte, vendo-a diante de mim; observando-a, e foi assim, desde
muito criança.
Família grande, sempre havia um velório e um
sepultamento para marcar presença, o que significava abraçar parentes, alguns
desconhecidos, rezar diante do caixão, assinar a lista de presenças e percorrer
aquela distância que compreende o cortejo até a sepultura.
Aquela avenida central do João Batista, aquelas
árvores, aqueles ares de antiguidade, de saudade de coisas que eu ainda não vi,
aqueles pássaros, bem-te-vis; o sol percorrendo, atingindo, transpondo as copas
das árvores, o chão de pedra portuguesa, os túmulos, alguns muito antigos,
exalando morte e saudade, algum perfume
Amigos, eu também me despedi deles. Trapacearam-me
aqueles miseráveis. Mas eu os perdoo, por terem me deixado aqui.
Filhos? Filhos, não. Minha filha. E vai ter nome
francês, bem me lembro que pensei quando soube. Aliás, as duas tiveram. Uma se
foi. Saudade é o que resta, saudade que tenho de uma imagem concebida da minha
vontade de abraça-la, vê-la, tê-la ao meu lado. Menina linda, loira, de olhos
azuis iguais aos meus, hoje teria 19 anos. Aline. 120 dias neste mundo. Apenas
1 em meus braços.
A vida é um trem. Passa. Tudo é deixado para trás.
Coisas, lugares, pessoas, mas a gente fica. Vai ficando... Até onde, não sei.
Voltemos ao olhar que se perde em direção a um
pedaço de céu. Há um momento em que a gente se depara com a soma de todas as
coisas, o momento final, supremo, aquele que nos revela o que de fato somos, e
se valeu a pena ou não.
Deve ser uma delícia viver esse momento, com a
certeza de que fizemos sim o melhor que podíamos, de que nossa vitória foi o
que de bom realizamos e não o que acumulamos entre quatro paredes, na carteira
ou no cofre. Quando fizemos alguém sorrir, e quando alguém sorriu para nós,
feliz, apenas pelo fato de existirmos.
Sim, deve ser uma delícia! Não voltarei pra contar
se de fato é. Mas tenho certeza que cada um poderá viver esse momento único e
inevitável da vida. E que seja um momento feliz, precioso para todos, apesar do
que ele representa.
*Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, pág. 2, edição de 08/06/2018
*Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, pág. 2, edição de 08/06/2018

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