domingo, 22 de julho de 2018

ENQUANTO O ÔNIBUS NÃO VEM


Sirneia escreve muito bem; Orlando escreve muito bem; Ricardo escreve muito bem; e de minha parte, vou expelindo o êxtase das minhas dores, a epifania dos meus sentimentos na forma de palavras; alguns me dizem que isto é escrever; não sei.
Enquanto isso, cá estou, à espera do ônibus que não vem.
Reprodução
Você, estrela, que agora observo: pálida, longe; diga-me que tu não és uma projeção holográfica, mas que tu és sim verdadeira. Acho que não; talvez já morreste há muito, bem antes que eu, e não te perdoarei por isso, quando nos depararmos olhos nos olhos lá em cima. Ingrata!
Não sabes, mas já é noite, e surge um homem alto, em meio à penumbra que cai sobre a rua mal iluminada, onde me encontro à espera do ônibus. Daquele homem só vejo a silhueta mal formada, muito mais uma sombra em movimento. Ele traz consigo algo nas costas, talvez um instrumento musical. Caminha apressado, e vem na minha direção. Vinha. Desviou, tomou outro rumo, dobrando a esquina logo ali, desapareceu.
Perdeu-se a inspiração que aquela imagem mal formada de um homem em meio à escuridão me traria. Quem és tu inspiração que por vezes me visita? Jogo de palavras? Ou a larva expelida do vulcão que por dentro me consome? Não sei. Tenho lá minhas dúvidas.
Porque agora, tu não sabes, mas vejo mulheres indo para o culto e homens indo para o bar. Todos a pé, nas suas melhores roupas, as mulheres. Quem morrerá primeiro? Eles? Elas? Ou tu, óh estrela apagada, sem brilho, nua? Se é que já não morreste. Não sei. Tenho cá minhas dúvidas.
Porque nesta rua, agora surge um carro e passa por mim com faróis altos a estourar sobre meus olhos sensíveis. Um carro, duas motos. Três motos e um carro. Quatro motos e dois carros. Cinco, seis; seis motos e dois carros, agora três. E assim vou desperdiçando meu tempo nessa contação sem fim, que me absorve. Sete motos e dois carros. Sete motos e três carros. Oito motos e três carros. Nove motos e três carros. Dez, onze, doze motos e três carros. Nossa, quantas motos! Vamos inverter a contagem, quem sabe funciona. Quatro carros e doze motos. Agora uma bicicleta. Doze motos e cinco carros. Treze motos, quatorze; quatorze motos e seis carros. E o ônibus não vem. Quinze motos e seis carros, a passar por mim, um após outro. Dezesseis motos... Dezesseis? Acho que perdi a conta. Sete carros. E eles vão passando, passando um após outro. Já é noite, são 8 horas. Dezessete motos e seis carros, e uma bicicleta. Não posso me esquecer desse detalhe importante. Dezessete motos e sete carros. Dezoito motos e oito carros. Dezoito motos e nove, e agora dez carros. Como tudo passa tão rápido nessa rua mal iluminada! Dezenove motos e dez carros. Pessoas, a pé, nenhuma. Todas já chegaram ao seu destino. Menos eu, à espera do ônibus que não vem. Vinte motos. E agora são 8 horas. Não. Não mais. Já são 8 e 5. E continuo a contar, porque outra coisa não me acontece. A lua sobre mim, como que me persegue. E a estrela longe, opaca, pobre, sem brilho. Talvez já tenha morrido, antes de mim. Vinte e duas motos e treze carros. Não perca as contas, rapaz. Duas bicicletas. Não é isso mesmo?  Duas bicicletas? Não sei, confesso. Surge o ônibus, enfim. Todo iluminado. Perdi as contas, agora, em definitivo. Carros e motos continuam passando. Homens e mulheres não. E nem bicicletas. Mas já não importa. Já são 9 horas.
Talvez essas ideias tolas me acompanhem, até eu chegar à casa onde moro. Ou permaneçam registradas no espaço infinito da eternidade e na minha memória. Chego a pensar nisso sentado no ônibus que percorre vazio o seu trajeto que me levará ao meu destino. Conto moedas do troco da passagem que estavam no bolso da calça.
Peito pra fora, barriga pra dentro, cabeça erguida. O ônibus vai aos solavancos. Não, querido pai, perdoa, este seu filho que se saiu ao avesso: ombros caídos, mãos escondidas, olhos baixos, fugindo, sempre, das pessoas e das certezas que lhes são impostas. O ônibus avança, mais e mais, vazio, aos solavancos, as ruas mal iluminadas, mal frequentadas, nuas, as ruas, pobres. De vida. Feito essa pobre alma que escreve tolices.

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