Sirneia
escreve muito bem; Orlando escreve muito bem; Ricardo escreve muito bem; e de
minha parte, vou expelindo o êxtase das minhas dores, a epifania dos meus
sentimentos na forma de palavras; alguns me dizem que isto é escrever; não sei.
Você,
estrela, que agora observo: pálida, longe; diga-me que tu não és uma projeção
holográfica, mas que tu és sim verdadeira. Acho que não; talvez já morreste há
muito, bem antes que eu, e não te perdoarei por isso, quando nos depararmos
olhos nos olhos lá em cima. Ingrata!
Não
sabes, mas já é noite, e surge um homem alto, em meio à penumbra que cai sobre
a rua mal iluminada, onde me encontro à espera do ônibus. Daquele homem só vejo
a silhueta mal formada, muito mais uma sombra em movimento. Ele traz consigo
algo nas costas, talvez um instrumento musical. Caminha apressado, e vem na
minha direção. Vinha. Desviou, tomou outro rumo, dobrando a esquina logo ali, desapareceu.
Perdeu-se
a inspiração que aquela imagem mal formada de um homem em meio à escuridão me
traria. Quem és tu inspiração que por vezes me visita? Jogo de palavras? Ou a
larva expelida do vulcão que por dentro me consome? Não sei. Tenho lá minhas
dúvidas.
Porque
agora, tu não sabes, mas vejo mulheres indo para o culto e homens indo para o
bar. Todos a pé, nas suas melhores roupas, as mulheres. Quem morrerá primeiro?
Eles? Elas? Ou tu, óh estrela apagada, sem brilho, nua? Se é que já não
morreste. Não sei. Tenho cá minhas dúvidas.
Porque
nesta rua, agora surge um carro e passa por mim com faróis altos a estourar
sobre meus olhos sensíveis. Um carro, duas motos. Três motos e um carro. Quatro
motos e dois carros. Cinco, seis; seis motos e dois carros, agora três. E assim
vou desperdiçando meu tempo nessa contação sem fim, que me absorve. Sete motos
e dois carros. Sete motos e três carros. Oito motos e três carros. Nove motos e
três carros. Dez, onze, doze motos e três carros. Nossa, quantas motos! Vamos
inverter a contagem, quem sabe funciona. Quatro carros e doze motos. Agora uma
bicicleta. Doze motos e cinco carros. Treze motos, quatorze; quatorze motos e
seis carros. E o ônibus não vem. Quinze motos e seis carros, a passar por mim,
um após outro. Dezesseis motos... Dezesseis? Acho que perdi a conta. Sete
carros. E eles vão passando, passando um após outro. Já é noite, são 8 horas.
Dezessete motos e seis carros, e uma bicicleta. Não posso me esquecer desse
detalhe importante. Dezessete motos e sete carros. Dezoito motos e oito carros.
Dezoito motos e nove, e agora dez carros. Como tudo passa tão rápido nessa rua
mal iluminada! Dezenove motos e dez carros. Pessoas, a pé, nenhuma. Todas já
chegaram ao seu destino. Menos eu, à espera do ônibus que não vem. Vinte motos.
E agora são 8 horas. Não. Não mais. Já são 8 e 5. E continuo a contar, porque
outra coisa não me acontece. A lua sobre mim, como que me persegue. E a estrela
longe, opaca, pobre, sem brilho. Talvez já tenha morrido, antes de mim. Vinte e
duas motos e treze carros. Não perca as contas, rapaz. Duas bicicletas. Não é
isso mesmo? Duas bicicletas? Não sei,
confesso. Surge o ônibus, enfim. Todo iluminado. Perdi as contas, agora, em
definitivo. Carros e motos continuam passando. Homens e mulheres não. E nem
bicicletas. Mas já não importa. Já são 9 horas.
Talvez
essas ideias tolas me acompanhem, até eu chegar à casa onde moro. Ou permaneçam
registradas no espaço infinito da eternidade e na minha memória. Chego a pensar
nisso sentado no ônibus que percorre vazio o seu trajeto que me levará ao meu
destino. Conto moedas do troco da passagem que estavam no bolso da calça.
Peito
pra fora, barriga pra dentro, cabeça erguida. O ônibus vai aos solavancos. Não,
querido pai, perdoa, este seu filho que se saiu ao avesso: ombros caídos, mãos
escondidas, olhos baixos, fugindo, sempre, das pessoas e das certezas que lhes
são impostas. O ônibus avança, mais e mais, vazio, aos solavancos, as ruas mal
iluminadas, mal frequentadas, nuas, as ruas, pobres. De vida. Feito essa pobre alma que escreve tolices.




