Faz-se o
ambiente, de repente, não importa onde eu esteja.
Faz-se a
penumbra que cega meus olhos, a atmosfera densa que tudo envolve e me põe de
joelhos ante a aflição, o gozo interrompido, a vontade soberana.
Rendo-me. Rendo-me
porque conheço tais caminhos, acalentei as mesmas dores no passado obscuro,
mórbido, sombrio, acorrentado nos calabouços da alma, os mesmos sentimentos.
Fecho os
olhos, muda-me a feição, sinto-me outro, e, por vezes, muitos.
Faz-se um
vento fumegante, forte, devastador, quente que só eu percebo.
Aproxima-se
a ideia, faz-se a palavra. Chega confusa a palavra. Incompreensível. Mas, num
instante, ilumina-se, ganha vida, forma, brilho ofuscante, sentido. E surge no
papel. E mais outras, e tantas outras mais, que não sei quais são, nem por onde
vão, as palavras.
Num
instante, ausenta-se o tempo, faz-se a eternidade. Tudo perde peso, fica em
suspenso, imóvel, leve, sem vida.
Subo. Aos páramos
do desejo satisfeito. Inebriado, livre, sem culpa. Imortal, é como eu me sinto
enquanto meu corpo vai crepitando nessa fogueira de desejo e vontade louca.
Desaparecem
as paredes do quarto desarrumado e sujo em que me encontro. As cores ganham
vida, como nunca antes. Cores que desconheço, que me assustam, que falam por
si.
Ouço, vejo,
escrevo.
É tudo por
demais lindo, tudo se resolve, tudo faz sentido. É o bastante.
Nesta confissão,
retrato mal acabado de um poema, a próxima linha inexiste.
Interrompe-se
o fluxo, termina a viagem. Volto.
E de volta, faz-se
a realidade.
Tudo volta
ao seu lugar. Readquire a normalidade da vida cotidiana, medíocre.
Poeta não
sou, quem dera.
Mas, às
vezes, ausento-me, confundo-me e me perco, nas ruas e nos becos, nos quartos
sem cortinas e janelas abertas, quartos esfumaçados, molhados de suor escorrido
de um corpo nu, trêmulo.
Ruas, becos,
quartos, que só existem na atmosfera em que me perco, até que se desfaça, feito
bruma que se rende ao sol.
Não sou
poeta, quem dera. A poesia é um território indevassável para mim. Mas, por
vezes, engano o vigia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário