segunda-feira, 23 de outubro de 2017

POEMA POR TERMINAR

Faz-se o ambiente, de repente, não importa onde eu esteja.

Faz-se a penumbra que cega meus olhos, a atmosfera densa que tudo envolve e me põe de joelhos ante a aflição, o gozo interrompido, a vontade soberana.

Rendo-me. Rendo-me porque conheço tais caminhos, acalentei as mesmas dores no passado obscuro, mórbido, sombrio, acorrentado nos calabouços da alma, os mesmos sentimentos.

Fecho os olhos, muda-me a feição, sinto-me outro, e, por vezes, muitos.

Faz-se um vento fumegante, forte, devastador, quente que só eu percebo.

Aproxima-se a ideia, faz-se a palavra. Chega confusa a palavra. Incompreensível. Mas, num instante, ilumina-se, ganha vida, forma, brilho ofuscante, sentido. E surge no papel. E mais outras, e tantas outras mais, que não sei quais são, nem por onde vão, as palavras.

Num instante, ausenta-se o tempo, faz-se a eternidade. Tudo perde peso, fica em suspenso, imóvel, leve, sem vida.

Subo. Aos páramos do desejo satisfeito. Inebriado, livre, sem culpa. Imortal, é como eu me sinto enquanto meu corpo vai crepitando nessa fogueira de desejo e vontade louca.

Desaparecem as paredes do quarto desarrumado e sujo em que me encontro. As cores ganham vida, como nunca antes. Cores que desconheço, que me assustam, que falam por si.

Ouço, vejo, escrevo.

É tudo por demais lindo, tudo se resolve, tudo faz sentido. É o bastante.

Nesta confissão, retrato mal acabado de um poema, a próxima linha inexiste.

Interrompe-se o fluxo, termina a viagem. Volto.

E de volta, faz-se a realidade.

Tudo volta ao seu lugar. Readquire a normalidade da vida cotidiana, medíocre.

Poeta não sou, quem dera.

Mas, às vezes, ausento-me, confundo-me e me perco, nas ruas e nos becos, nos quartos sem cortinas e janelas abertas, quartos esfumaçados, molhados de suor escorrido de um corpo nu, trêmulo.

Ruas, becos, quartos, que só existem na atmosfera em que me perco, até que se desfaça, feito bruma que se rende ao sol.


Não sou poeta, quem dera. A poesia é um território indevassável para mim. Mas, por vezes, engano o vigia.

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