terça-feira, 31 de outubro de 2017

O SORRISO DE UMA CRIANÇA

Se tem alguma coisa capaz de emocionar a gente é o sorriso de uma criança. Ele revela toda a inocência do ser humano, enquanto ainda desconhece a realidade da vida. A criança não sabe e não se preocupa em classificar as pessoas, conforme crenças, costumes e opções. Para a criança há os bons e os maus. Os primeiros a tratam com amor e respeito. Os demais, com violência e desprezo.
Maltratar uma criança é um ato de covardia, acima de tudo. Saber entendê-la demanda tempo, paciência e algum esforço. E tempo e paciência são coisas que pais e responsáveis parecem ter cada vez menos. É comum atualmente, pais transferirem para professores, treinadores esportivos, psicólogos e até religiosos a educação de seus filhos. Ledo engano.

A criança aprende por assimilação e desenvolve seu comportamento, seu caráter, ao reproduzir aquilo que observa. E nesse sentido, aquilo que os pais falam e fazem causa-lhes maior impacto, porque até prova em contrário, os pais, são para a criança, sinônimo de confiança, de companheirismo e de respeito. Elas tendem a repetir o que os pais falam e fazem e o modo como falam e fazem, porque essa é a realidade que lhes é apresentada mais de perto e com exclusividade diferentemente do que acontece nas escolas e nas equipes esportivas, por exemplo, onde tudo é compartilhado.
O amor e a atenção que se dá a uma criança é um tesouro de valor incalculável. Impossível mensurar a importância que isso terá na formação do caráter desse indivíduo que apenas inicia os seus passos neste mundo.
O efeito do sorriso de uma criança, no ambiente em que ela se encontra, é contagiante. A criança feliz desperta a atenção de todos e encanta. Transmite um sentimento de esperança que, nos dias atuais, se vê constantemente ameaçado.
Portanto, educá-las, dar-lhes oportunidades para adquirir conhecimentos, transmitir-lhes o valor profundo da vida, é missão de todos, porque todos um dia já fomos crianças, mas é sobretudo, missão dos pais.
Há exceções, evidentemente, mas, via de regra, um indivíduo considerado mau elemento na sociedade, foi uma criança infeliz, desprezada e maltratada. Pouco ou nada sorriu, porque não lhe deram nenhum motivo para fazê-lo. Cresceu sem conhecer o lado bom das pessoas. Tomou a maldade e a indiferença como único valor vigente no meio em que vive.

Daí, a importância fundamental de cuidar bem das crianças. De mostrar-lhes, com exemplos, ações e palavras, que sim, o amor existe, que há pessoas de bem neste mundo, que existem oportunidades para todos, que dependerá apenas de sua vontade e esforço, permanecer no caminho do bem e vencer na vida de maneira digna, para que possa aprender a sorrir ou continuar sorrindo.

* Publicado na edição de 12/11/2017, à página 2, do Jornal Diário do Rio Claro.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

POEMA POR TERMINAR

Faz-se o ambiente, de repente, não importa onde eu esteja.

Faz-se a penumbra que cega meus olhos, a atmosfera densa que tudo envolve e me põe de joelhos ante a aflição, o gozo interrompido, a vontade soberana.

Rendo-me. Rendo-me porque conheço tais caminhos, acalentei as mesmas dores no passado obscuro, mórbido, sombrio, acorrentado nos calabouços da alma, os mesmos sentimentos.

Fecho os olhos, muda-me a feição, sinto-me outro, e, por vezes, muitos.

Faz-se um vento fumegante, forte, devastador, quente que só eu percebo.

Aproxima-se a ideia, faz-se a palavra. Chega confusa a palavra. Incompreensível. Mas, num instante, ilumina-se, ganha vida, forma, brilho ofuscante, sentido. E surge no papel. E mais outras, e tantas outras mais, que não sei quais são, nem por onde vão, as palavras.

Num instante, ausenta-se o tempo, faz-se a eternidade. Tudo perde peso, fica em suspenso, imóvel, leve, sem vida.

Subo. Aos páramos do desejo satisfeito. Inebriado, livre, sem culpa. Imortal, é como eu me sinto enquanto meu corpo vai crepitando nessa fogueira de desejo e vontade louca.

Desaparecem as paredes do quarto desarrumado e sujo em que me encontro. As cores ganham vida, como nunca antes. Cores que desconheço, que me assustam, que falam por si.

Ouço, vejo, escrevo.

É tudo por demais lindo, tudo se resolve, tudo faz sentido. É o bastante.

Nesta confissão, retrato mal acabado de um poema, a próxima linha inexiste.

Interrompe-se o fluxo, termina a viagem. Volto.

E de volta, faz-se a realidade.

Tudo volta ao seu lugar. Readquire a normalidade da vida cotidiana, medíocre.

Poeta não sou, quem dera.

Mas, às vezes, ausento-me, confundo-me e me perco, nas ruas e nos becos, nos quartos sem cortinas e janelas abertas, quartos esfumaçados, molhados de suor escorrido de um corpo nu, trêmulo.

Ruas, becos, quartos, que só existem na atmosfera em que me perco, até que se desfaça, feito bruma que se rende ao sol.


Não sou poeta, quem dera. A poesia é um território indevassável para mim. Mas, por vezes, engano o vigia.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A BATALHA DAS IDEIAS



Não se espante, não é só no Brasil. É uma tendência mundial. Tudo o que estava reprimido há séculos, seja na política, nas artes, no esporte, na ciência ou qualquer outro segmento da sociedade humana se levanta, reivindica atenção e espaço. Mas é tudo absolutamente normal. É a prova inconteste de que mentira não resiste ao tempo, e que reprimir e punir não transformam o comportamento humano quando em dissonância com o padrão estabelecido.

Vivemos um tempo em que todas as opiniões devem ser consideradas e apreciadas de maneira isenta, sem pré-conceito. A verdade nunca foi tão relativa. A noção de certo e errado é debatida com entusiasmo não mais por filósofos, religiosos e acadêmicos, mas por gente comum, nas redes sociais, e isso incomoda aqueles que até então se imaginavam detentores do conhecimento, da suposta verdade tal como estabelecida, e de sua propagação.
A humanidade não aceita mais ser conduzida, seja por ideologias políticas, seja por dogmas religiosos. Isoladas ou em grupos, utilizando-se dos modernos meios democráticos de comunicação, que lhes permite a livre expressão de suas ideias e crenças, as pessoas vão provocando as discussões dos mais variados temas, e, por conseguinte, uma revolução cultural, sem armas e sem confrontos que não seja a divergência de opiniões.
Enquanto lunáticas autoridades governamentais, totalmente desconectadas com essa realidade, ameaçam a continuidade da existência da espécie humana com possível uso de armas letais de grande alcance e destruição, a maioria das pessoas, trabalha, idealiza, busca novos caminhos para uma convivência pacífica e harmoniosa que supere as diferenças de opinião e comportamento.
A liberdade para disseminar ideias e para agir em nome dessas ideias, porém, pressupõe consequências, pelas quais, nem todos que a reivindicam estão dispostos a pagar o preço.
Mas, é possível que num futuro breve, o que causa espanto e escândalo, seja considerado absolutamente normal. Não há mudança que não exija adaptação e um certo grau de tolerância e otimismo, que advém da certeza de que tudo passa, tudo se renova, tudo se aperfeiçoa. Porque o progresso é a principal característica da civilização humana. E é muito bom que seja assim.

*Publicado na edição de 22/10/2017, à pág. 2 do Jornal Diário do Rio Claro.

NOSSO TEMPO



Em nosso tempo
Todas as liberdades
As faces e as vísceras expostas
Despertam a rebeldia
Aprisionada e excluída
Nos porões fedorentos da repressão
Curada na pele, marcada por mãos 
Pesadas e arrogantes, 
Audaciosas que se imaginam 
Portadoras da cura e da justiça
Hoje, cartas na mesa, dores expostas
Armas empunhadas, nas ruas, 
Olhos odientos, punhos cerrados, insultos
Almas rendidas, sem esperança
Pedras lançadas, mentiras
Verdade, qual? A minha? A sua?
As ruas e calçadas manchadas de sangue
Seu direito, meu direito, desarmonia
Um mundo redondo onde faltam espaços
Absurdo!
Vontades e verdades se acotovelam
Minha voz, mais alta que a sua
Janelas abertas, portas escancaradas
E o vento, vem do alto, passa, faz estragos
Machucados, feridas
Deixadas abertas, sem cura
Disputa, e todos vencidos
Rostos ao chão, corpos espalhados, inertes
Ilusão

*Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 18/10/2017, à pág. 2

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

FUTEBOL COM OS PÉS E NA CABEÇA



O Cruzeiro sagrou-se pela quinta vez campeão da Copa do Brasil, na última quarta-feira, 27, diante de quase 60 mil pessoas que se acotovelaram no Estádio Magalhães Pinto, mais conhecido como Mineirão, em Belo Horizonte/MG.

Contudo, o futebol apresentado pelos finalistas Cruzeiro e Flamengo, deixou muito a desejar. Quem se importa com isso? Pouca gente. Finais não costumam ser geralmente jogos de encher os olhos do torcedor.
Aliás, o futebol brasileiro, já faz muito tempo, não empolga o torcedor. Estádios modernos localizados nos grandes centros atraem mais o torcedor do que o próprio futebol. Esse talvez tenha sido realmente o único benefício da Copa do Mundo de 2014. Continuassem existindo aqueles estádios antigos e depauperados e o público presentes na arquibancadas seria bem menor.
O futebol hoje é um negócio altamente lucrativo. Em países europeus movimenta anualmente cerca de R$500 bilhões. A Inglaterra, que tem o mais badalado campeonato nacional da atualidade responde por cerca de 30% e a Alemanha, 20% desse faturamento. O Brasil, nada mais que 2% de toda a receita gerada mundialmente.
Em termos de gestores de negócios quando o assunto é futebol, os clubes brasileiros ainda se acham no tempo das cavernas. E bem poderia ser diferente, fossem os clubes dirigidos por profissionais qualificados na área de gestão esportiva. Mas, como tudo neste país, a política se faz presente e prevalece. E impede que os clubes brasileiros, de fato, se profissionalizem.
Por tudo o que representa para o País, o futebol brasileiro deveria receber um tratamento diferenciado que ultrapassasse as fronteiras do desporto e do negócio. Deveria ser visto e tratado como fator cultural e oportunidade de instrução para crianças e jovens.
O futebol, se levado a sério como cultura, poderia ser ensinado nas salas de aula, como matéria do currículo escolar, mas com ênfase no seu aspecto histórico, humanístico e social. E assim, contribuir para a formação de futuros adultos com a mentalidade sadia que a prática do desporto e o exato entendimento do que ele representa para a sociedade humana, desperta e estimula.
A exemplo do que se dá nos EUA, com o basquete, poderíamos ter por aqui o futebol universitário, que, sem dúvida, seria uma oportunidade a mais para que os jovens tivessem uma perspectiva positiva de futuro que agregasse o desenvolvimento da sua vocação profissional e esportiva.
Estamos longe disso, sem dúvida. Mas o esporte, e com o futebol não é diferente, nos mostra todos os dias que os desafios existem para serem superados.
*Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 04/10/2017, à pág. 2