A sina dos filhos, se existe, é superarem os pais.
Estudar mais, trabalhar mais, e, a custa do seu próprio esforço e capacidade,
conquistar mais. Nisto consiste a dignidade e a honra dos filhos.
O escritor russo Ivan Turgueniev (1818-1883)
escreveu por volta de 1862 o romance Pais
e Filhos, no qual contrapõe os velhos aos jovens, mostrando erros e acertos
de cada geração.
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| Reprodução |
O tema sempre foi palpitante à espécie humana, desde
os tempos de Adão e seus filhos, Caim e Abel, historinha mal explicada, mas, em
se levando a sério, prenúncio nada otimista do que viria.
A relação pais e filhos deveria ser aquela que
retratasse a amizade mais forte, mais sincera, mais próxima, mais intensa, mais
comprometida, entre dois seres humanos. Mas não é o que acontece. E cada vez
acontece menos.
Há pais que rejeitam filhos, antes mesmo de vê-los
nascer, e há filhos que rejeitam pais, porque estes não correspondem às suas exigências
e expectativas.
Pais limpam os filhos, ainda pequenos, com a maior
naturalidade. E filhos sentem-se constrangidos por limpar os pais envelhecidos.
Há pais que sentem o maior prazer em iniciar os
filhos nas práticas esportivas. Adquirem equipamentos, ainda que a custa de
grande sacrifício, comparecem, incentivam, acordam bem cedinho aos sábados e aos
domingos para levarem os filhos aos jogos, seja no automóvel, na garupa da
moto, no cano da bicicleta. E, às vezes, o filho nem joga. Mas os pais lá estão.
Esperando tão ansiosos quanto o filho pela oportunidade que o treinador, aquele
chato, estraga prazer, se recusa a proporcionar.
Há filhos, entretanto, que consideram o maior
trabalho do mundo, levar ou buscar os pais, no consultório médico, nos
bailinhos da terceira idade, nos jogos de futebol.
Há filhos que recebem um nome e não sabem honrá-lo.
Há pais que dão um nome e se recusam a dar amor.
Há pais que se tornam mães, e mães que se tornam
pais, e há filhos, que se recusam a serem pais e mães. Preferem continuar sendo
apenas os filhos.
Renato Russo escreveu a letra da canção Pais e
Filhos, em meados dos anos 1980. Chama a atenção essa passagem: Você me diz que
seus pais não te entendem / Mas você não entende seus pais.
Há filhos que voltam pra casa, após a aventura mal
sucedida do matrimônio, e são recebidos pelos pais, de braços abertos.
Há filhos, porém, que tratam de arrumar um lugarzinho
numa clínica de repouso, numa hospedaria, porque a presença dos pais tornou-se
inoportuna e comprometedora à sua vida conjugal.
Antes de Renato, Raul escreveu e cantou: Mas eu sou
o amargo da língua / A mãe, o pai e o avô / O filho que ainda não veio / O
início, o fim, o meio.
O que talvez não tenhamos entendido ainda é que
filhos todos somos, pais nem sempre. E se somos filhos, devemos no mínimo
gratidão e respeito àqueles que deram a oportunidade da vida e nos acolheram
quando mais precisamos.
Quem lhe escreve isso, caro leitor, acredita fazê-lo
com autoridade. Afastou-se de seu pai deliberadamente, por motivos que prefere
omitir. E o fez no momento menos oportuno. Deu tempo para uma última despedida,
um pedido de perdão, um carinho, um beijo. Ainda bem.
*Publicado na edição de 05/07/2017, à pág. 2, do Jornal Diário do Rio Claro.
*Publicado na edição de 07/07/2017, à pág. 7, do Jornal Tribuna 2000, de Rio Claro.
*Publicado na edição de 05/07/2017, à pág. 2, do Jornal Diário do Rio Claro.
*Publicado na edição de 07/07/2017, à pág. 7, do Jornal Tribuna 2000, de Rio Claro.

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