O álcool e as drogas dominam e arrasam os que ousam
enfrentá-los. Isso é público e notório. A linha que separa o efeito estimulante
e criativo do álcool e das drogas da desgraça humana é imperceptível até mesmo
àqueles que se consideram ou são considerados fortes, sábios e capazes. Portanto,
é um limite perigosíssimo, que deve ser evitado. Numa analogia bastante
simples, mas, nem por isso, desprovida de verdade, ultrapassar essa linha seria
como comer do fruto da árvore do conhecimento.
Ontem, voltando do supermercado, por volta de 6 da
tarde, vi uma mulher subindo a Avenida 4 em direção ao centro. Estava nua, da
cintura para cima. Seus seios caídos, à mostra. Anos atrás eu a conheci. Seu
nome é S. e não sei precisar a sua idade, mas, talvez, se equivalha a minha,
embora ela pareça contar bem mais primaveras do que eu. Escrevia uns bons versos, como pude constatar
no Gabinete de Leitura, certa ocasião. Depois, eu a vi outras vezes, entre a
população de miseráveis que se abandonaram a si mesmos, residentes no Jardim
Público.
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| Reprodução |
O que leva as pessoas a se sujeitarem
deliberadamente às nefastas e destruidoras consequências dos vícios do álcool e
das drogas? Muitos já se fizeram essa
pergunta. Muitas respostas foram apresentadas. Mas receio que cada caso difere do
outro. Cada um sabe o peso da cruz que carrega.
Grandes inteligências, pessoas amáveis, admiráveis,
sucumbem aos vícios. Eu mesmo poderia
ter enveredado por esse caminho trágico, sem volta, tivesse minha família
mantida as condições financeiras e sociais favoráveis de que dispunha até o
início da minha adolescência. Mas, a vida, generosa, tirou de meu caminho a porta larga.
L. é outra história que conheço melhor porque mais
próxima de mim. Mais doída, portanto. E da qual inclusive, me sinto, em parte,
responsável. L. foi mãe aos 16 anos, sem nenhum preparo para isso. Foi esposa
até os 19, esforçando-se o quanto pode para ao menos manter as aparências. L.
enterrou uma segunda filha de 4 meses de idade, para a qual dedicou toda sua força,
fé, amor e tudo o que em si havia de bom. E, a partir daí, sua vida desmoronou.
Porque a angústia que a ausência desta filha lhe causava a fez ir de encontro
às suas fraquezas, más tendências, às quais, igualmente sucumbiu.
Hoje, L. tem 36 anos. A última vez que a vi foi no
restaurante popular. Falava alto, quase gritando. Sua aparência em nada
lembrava a menina bonita, sensual, agradável, bem humorada que conheci.
Eu me recuso a acreditar que, seja neste ou no outro
plano da vida, alguém peça para sofrer. Isso me parece masoquismo. A felicidade
é uma busca comum a todo ser humano. É uma necessidade para a sua própria
existência. E quando não a alcança, quando não a conhece, mesmo que a encontre
presente nas vidas alheias, a pessoa que não é feliz, beira à descrença, se lhe
falta um maior entendimento do sentido da vida. E da descrença, surge a revolta
e a indiferença para consigo mesma e o mundo à sua volta. Origina-se, então, a
sua tragédia, que ela acaba conhecendo através dos vícios do álcool e das
drogas. Vencê-los é possível. Mas demanda tempo e esforços tremendos. Melhor
não enfrentá-los.
*Publicado na edição de 20/1/2017, do Jornal Tribuna 2000 (Rio Claro/SP), à pág. 7;
*Publicado na edição de 22/1/2017, do Jornal Diário do Rio Claro, à pág. 2.
*Publicado na edição de 20/1/2017, do Jornal Tribuna 2000 (Rio Claro/SP), à pág. 7;
*Publicado na edição de 22/1/2017, do Jornal Diário do Rio Claro, à pág. 2.

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