A riqueza de poucos beneficia a todos nós? Esta
talvez tenha sido uma das mais impertinentes questões lançadas por um filósofo
nas últimas décadas. Num lance de ousadia e provocação ainda maiores caberiam
duas respostas. A primeira delas é sim, afinal, da riqueza restrita a poucos
resultariam melhores e mais duradouros benefícios para todos. E a segunda é
não, na medida em que seria muito mais fácil que todos tivessem o suficiente
para se sentirem satisfeitos e a ninguém seria dado a oportunidade ou o
privilégio de se sentir mais e melhor que o seu semelhante. Qualquer das
situações propostas, porém, demandaria uma sociedade moralmente avançada, o que
se parece uma realidade um tanto distante.
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| Reprodução |
O autor da pergunta impertinente faleceu no último
dia 9, aos 91 anos de idade. Seu nome: Zygmunt Bauman. Polonês, filósofo, professor
universitário, autor de dezenas de livros, Bauman elaborou a teoria da
Modernidade Líquida, segundo a qual, tudo o que consistente se dilui, assim, os
acordos estabelecidos na sociedade humana seriam, segundo ele, temporários e
com prazo de validade.
Bauman abdicou de uma linguagem hermética característica
da maioria dos filósofos para tratar de temas profundos do interesse humano de
um modo ao alcance de todos. Por isso, foi considerado superficial por alguns
críticos. Bauman também desconfiava que a riqueza de poucos beneficiasse a
todos nós. No livro que trata sobre o assunto, ele aborda as atuais
consequências do triunfante neoliberalismo na sociedade capitalista dos anos
80.
Em relação às redes sociais, entendia que a
sociedade tornara-se hábil em eliminar a fronteira que antes separava o privado
e o público, para transformar o ato de expor publicamente o privado numa
virtude e num dever público.
Considerado um filósofo pessimista, para Bauman
qualquer procura existencial e principalmente a busca da dignidade da
autoestima e da felicidade, exigiria a mediação do mercado. Bauman refletia que
numa sociedade de consumo a vida sem possibilidade de escolhas pareceria
insuportável para os pobres.
Para o profeta da pós-modernidade, o armazenamento
de tecnologias digitais, desobrigaria os indivíduos a cultivar qualquer tipo de
memória. Um indivíduo sem memória, contudo, torna-se isento de
responsabilidades morais.
O filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé afirma que
Bauman será sempre uma referência essencial para entendermos a tragédia banal
da modernidade.
Em tempos de “Amor Líquido” (título de um de seus
livros), a morte de um filósofo como Bauman, embora alcance significativa
repercussão nos meios intelectuais não gera comoção na sociedade, como por
exemplo, a de um esportista famoso. Coerente, se pensarmos a importância quase
nula destinada a filósofos, por uma sociedade com interesses voltados para o
superficial, o banal, o transitório e onde predominam as frágeis relações
humanas baseadas, sobretudo no ter em detrimento do ser.
* Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, na edição de 14/1/2017, e no Jornal Tribuna 2000 (Rio Claro/SP), na edição de 13/1/2017
* Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, na edição de 14/1/2017, e no Jornal Tribuna 2000 (Rio Claro/SP), na edição de 13/1/2017

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