Vá escrever.
Vá doar-se aos anseios alheios. Empreste, entregue, o seu corpo e a sua
consciência para que estranhos façam dele pão e circo.
Acredite,
sim, no amanhã, no plantar e colher. Acredite no reconhecimento de quem o
detesta e o inveja e o admira.
Faça de
graça, o que outros fazem igual, bem menos, bem pior, e recebem por isso.
Acredite que
o sorriso e o abraço que lhe oferecem e o elogio que lhe dirigem, lhe trará
algo mais, do que aquilo que o tempo e o vento levam num instante, conhecido
como satisfação.
Sujeite-se
às palavras, às regras, ao preconceito alheio para transmitir o mesmo, as
mesmas dores, as mesmas ideias, os mesmos sentimentos, que outros fazem com
menor esforço, em menor tempo, rabiscando, borrando, tintas coloridas em telas,
painéis e muros: brinquedinhos que satisfazem aos olhos, jamais atingem a mente
e o coração de quem se depara com eles.
Você expõe
as suas entranhas. Escandaliza, estimula a reflexão, escancara a dor, revela a
possibilidade. Você mente e eles acreditam. Você cria e eles devoram o que
julgam lhes pertencer. Você se dá inteiro. E o que ganha com isso? Senão aquilo
que o tempo e o vento levam num instante.
Você merece.
Merece toda sua dor, revolta e frustração. Você quis fazer por outros, aquilo
que eles, jamais, fariam por você. Nenhum deles. Nem os próximos, nem os
distantes. Nem os que lhe chamam de irmãos, nem os que lhe chamam de amigo.
Sim, você
merece. Bem feito pra você. Acreditou na poesia dos outros, esqueceu-se da sua.
Acreditou que se divertiria no inferno, esse inferno; acreditou que o tornaria
puro e belo, que daria à ele a sua feição, que o submeteria às suas crenças e
convicções.
Tolo!
Sujeitaste ao engano. Vá...!
Vá escrever.
Continue. É o que lhe resta. Até que a megera dama, revestida de branco e de flores,
e versos nos olhos e verdade nos lábios venha, sorridente, para libertá-lo.
Dilua-se
pouco a pouco, nos seus escritos, esconda-se neles, faça deles o esconderijo da
sua vergonha, da sua raiva, da sua feiura.
Não reclame,
foi a sua escolha.
E se houver
mesmo algo depois disso, provoque, desafie, avance sobre, aos murros e
pontapés, ou na ponta dos pés, feito um matador, mas, não subestime a realidade.
Talvez ela
desista de você, talvez não o veja, não o reconheça, passe ao largo.


