Acordei pela manhã – acho que
por volta de 6 e 15, já havia clareado o dia – com uma ideia genial, que me decidi
por não anotá-la, por absoluta preguiça de levantar-me da cama, e acabei por
perdê-la. Noutros tempos, isso me deixaria extremamente irritado, mas hoje não.
As ideias devem percorrer a mente, mas não permanecer, as aves ocupam o céu
voando. Lembro-me de ter escrito isso ou algo assim, alguma vez, em algum
lugar, mas isso também não faz diferença, não tem a menor importância.
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Escrever tornou-se ofício de
tolos. Quase todo mundo se vê tentado a traduzir pensamentos e ideias em
palavras, porque consideram – eu presumo – que escrever lamúrias sobre amores
ginasianos não correspondidos, é fazer literatura. Muitos os chamados e poucos
escolhidos. Aqui também se aplica a máxima. Quando escrever era coisa de alguns
é que era excitante. Hoje, é banalidade. Louvemos a banalidade e participemos
da festa. Ou a ignoremos sob o pretexto de mantermos a dignidade.
Como espírito, ter nascido
aqui deve ter valido alguma coisa. Mas, como escritor e poeta (o que alguns me
consideram – malditos sejam!) foi um desastre. E abraçar essa doutrina que
busca entendimento e conforto no mais além, foi o golpe de morte às minhas
pretensões. Ainda bem que tudo passa, que nada permanece, sequer nós mesmos
permanecemos, e quero muito acreditar que nem as ideias, os argumentos, as
certezas haverão de permanecer. Tudo há de tomar forma e adquirir conteúdo na
tola pretensão humana de entender e descobrir coisas e a si mesmo. Mas há de se
diluir a tola pretensão no nada imenso da consciência livre de cada um de nós.
Ou coisa alguma faria sentido fosse feita para durar para sempre.
Evolução ao infinito é sinônimo
de imperfeição. Como pode ser perfeito algo que jamais se dá por concluído? Há
nisto uma contradição que só mesmo a fé cega pode ignorar. E enquanto vou
diluindo minha bílis noturna nestas linhas mal traçadas levanto-me da cama, vou
ao banheiro, encaro no espelho a figura desleixada, patética, indiferente,
quase fantasmagórica, na qual me tornei, pouco a pouco, de modo quase imperceptível,
com o passar dos anos, esculpida laboriosa e pacientemente, à custa de todos os
vícios e excessos possíveis.
Convenci-me por esses dias
que atualmente a literatura me proporciona mais satisfação e gozo, lendo-a que a
produzindo. Algo parecido já me ocorre há algum tempo com a beleza humana. Se
me faz mais prazeroso observá-la à distância, que tocá-la e explorá-la com
aquele ímpeto abjeto humano, próprio dos animais. Sandice incontrolável por um
desejo mundano e pecaminoso que devo evitar.
Ainda preservo em meu
espírito, a capacidade de absorver a riqueza do perfume das flores, a
preciosidade de um sorriso de criança, o olhar de um cão, seu olhar paciente e
misterioso, algo infantil. H. tem um cão. Mas eu já lhes falei sobre isso
algumas páginas atrás. O aroma de um prato delicioso, feito por mãos hábeis e
carinhosas, também me seduz. E saboreá-lo, é algo inebriante, não menos que
sorver o líquido precioso guardado em velhos odres, chave que até pouco tempo,
me abria portas para o outro mundo, o mundo paralelo, tão real quanto este, o
mundo onde também se vive, mas só acessível àqueles que se sujeitam ao estado
de consciência alterado, uma ousadia, um pecado venial para as alminhas puras
imbuídas de boa fé e desejosas por misericórdia.
Por volta de 10 horas, após
vestir-me, ler os jornais do dia, calçar e descalçar as chinelas, eu darei uma
volta, pelas ruas do bairro, contornando esses muros altos e intermináveis,
percorrendo essas calçadas onde não se nasce uma única gramínea, nem surge uma
única formiga menos avisada a ser pisoteada pelas patas de um cão ou pelos pés
de um passante a procura do nada, acreditando que o nada, possa mesmo levar o
tempo para bem longe e mais depressa.
E assim passam-se os dias.
Sem a preocupação causada pelos filhos crescidos, atualmente em lugar incerto.
Sem a necessidade louca e irresponsável, devoradora de vida e de sentimentos,
para satisfazer as expectativas de pessoas sempre presentes, que sempre levaram
de mim tudo o que podiam e nada me trouxeram que ficasse.
Muito bem, senhores
dadivosos, dentre os quais Samuel, Fiódor e Franz, eu poderia colocá-los todos
sob meus pés, mas não acho que o esforço
valha pena. Já tirei a todas as minhas conclusões, e me refestelo no sétimo
céu, diferentemente de vocês que padecem no Umbral. E espero que lá permaneçam.
Porque sinceramente, viverei mil anos sem compreender por quais motivos vocês
levaram tanto tempo, senhores, para chegarem à mesmíssima conclusão que o
finado Sr. H. Por sinal, não me furtarei à pergunta: acaso já o encontraram por
essas bandas?
O passeio pelas ruas do
bairro, como de hábito, nada trouxe de novo e nem de proveitoso. Nem mesmo com
a simpática senhora loira a passear com seu cãozinho peludo, deparei-me nesta
manhã. Talvez esteja ausente, viajando, disse-me que iria, se me lembro bem, da
última vez em que lhe dei a oportunidade de ocupar preciosos cinco minutos de
meu escasso e valioso tempo.
Lembro-me que quando eu
tinha 40 anos, pouco mais pouco menos, deliciava-me com a tarefa de fazer
compras no mercado municipal aos sábados pela manhã. Comer aquele pastel de
carne feito na hora e encontrar frutas e hortaliças que geralmente não se
encontra em lugar nenhum por melhor que seja a procedência, era, entretanto experiência
enriquecedora para meu corpo sedento por emoções primitivas.
Mas isso já não tem mais
nenhuma importância, já não significa absolutamente nada, não desperta nenhum
sentimento de satisfação momentânea, mas sem o qual não se vive. Sujeitar-se às
emoções efêmeras não nos faz obter da vida tudo o que de bom e de melhor ela
pode nos proporcionar. O finado Sr. H. dizia que a vida importa em face dos
bons e raros momentos que nos proporciona. Fui mais além, quando decidi por eu
mesmo tornar esses bons momentos não raridade, mas rotina.
Um poeta disse que seus
heróis morreram de overdose. Eu não tive heróis, eu o fui. Eu fui exército de
um homem só. Traduzindo: de eu mesmo. Observei as pessoas e delas me utilizei
sem que soubessem para chegar às minhas conclusões. Fingi que as amava e que
eram importantes para mim, para expô-las diante de meus olhos, desnudas, absolutamente
indefesas, usando dos recursos e estratégias que qualquer bom conhecedor da
alma humana possui. E consegui. Obtive êxito em meu intento, sem experimentar,
nem mesmo por um instante, nenhuma culpa ou remorso.
Durante muito tempo,
escrever fora um modo de sobreviver à doença. Mas o remédio se tornou ineficaz
e o tratamento dispendioso. Repetir os fatos é estupidez porque revela
ignorância, a incapacidade de quem os comete, e, ao mesmo tempo, é irritante,
porque demonstra a inutilidade do procedimento. Percorro ainda por essas
calçadas, nessa manhã de outono, convicto, de que, diferentemente de meus
olhos, meu espírito já não vê nenhum caminho adiante. Talvez o vislumbre, quem
sabe, quando esses olhos se cansarem da rotina, de encontrar a cada instante sempre
as mesmas coisas, as mesmas luzes, os mesmos rostos. Talvez. Virei avisá-los acaso consiga.