... Mas tudo depende do modo como as encaramos.
Vou lhes
contar uma história: A Dona Leonor era uma senhora de meia-idade, mãe
prestimosa, esposa exemplar e excelente dona de casa. Desde que contraíra o
matrimônio renunciou aos seus interesses pessoais para servir ao marido e aos
filhos. Acreditava-se imbuída dessa missão, e sequer se lembrava que, até se
casar, trabalhara como cabeleireira, num bem conceituado salão de beleza. Às
portas do seu casamento, a sua patroa, dona do salão, disse a Leonor que iria
se aposentar e se ela, a então jovem Leonor, não gostaria de adquirir o salão,
de modo inclusive, facilitado, poderia pagá-lo aos poucos, conforme fosse trabalhando.
Para satisfazer ao gosto do futuro marido, que ganhava muito bem, como vendedor
de um laboratório farmacêutico, Leonor recusou a oferta. Em nome da família que
pretendia formar com o amor de sua vida, abriu mão do seu talento (era a mais
requisitada profissional daquele salão de beleza) e de uma grande oportunidade
de empreendimento e prosperidade profissional e realização pessoal, inclusive, porque
gostava do que fazia.
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| Reprodução |
Quando faria bodas de prata de casamento, Leonor estava
viúva. Tinha 50 anos de idade, viu o seu padrão de vida decair
consideravelmente devido ausência do marido que lhe deixara tão somente uma
modesta pensão e uma casa pequena e simples, financiada pelo BNH. Durante
alguns meses, após o falecimento do marido, Leonor sentiu-se deprimida,
revoltada, triste, porque não aceitava a peça que a vida havia lhe pregado,
privando-a da convivência amorosa e agradável do marido e da segurança que ele
lhe proporcionava. Aconselhada por uma
amiga, passou a orar todos os dias, em silêncio, no refúgio do seu quarto, para
que Deus lhe desse a força para superar aquele momento difícil e lhe mostrasse
um caminho a seguir.
Numa tarde chuvosa, ao voltar da padaria, Leonor
deparou-se com uma jovem mãe e seus dois filhos pequenos, no portão de sua casa,
tentando esconder-se da chuva, estavam completamente molhados. A mulher
vestia-se com simplicidade e os meninos, o uniforme escolar. Leonor teve pena
deles e os convidou para se abrigar na área, e tocada por um sentimento materno
que há muito não experimentava, ofereceu-lhes uma toalha para se secarem e uma
xícara de café quente. A mãe dos meninos sentiu-se à vontade diante de tanta
bondade demonstrada por Leonor e passou a lhe contar sobre os dramas de sua
vida. Contou-lhe, por exemplo, que a professora lhe mandara um bilhete,
dizendo-lhe que não permitiria que seus filhos entrassem na sala de aula
cabeludos daquele jeito. Mas que ela, embora consciente da necessidade, não
tinha dinheiro para levá-los ao barbeiro. “Acho que posso ajudá-la” – disse-lhe
Leonor. Havia muitos anos não desempenhava as suas habilidades de cabeleireira,
mas, o resultado final, foi tão bom que até a mãe dos meninos resolveu entregar
suas madeixas aos cuidados de Leonor, e, para sua surpresa, não ficou menos
satisfeita.
A mãe e os filhos se foram assim como a chuva daquela
tarde.
Dias depois, outras duas mães apareceram no portão de
Leonor com seus filhos cabeludos. E os dias foram se sucedendo, e as mães
acompanhadas de seus filhos aumentando.
Logo, Leonor tinha uma clientela considerável que se
recusava a ser atendida gratuitamente. Se não podia pagar com dinheiro, sempre
achava um modo de presentear a cabeleireira Dona Leonor com uma lembrancinha.
O padre da paróquia soube da novidade e pediu uma reunião
com Dona Leonor. E logo, lá estava ela a dar uma aparência melhor aos velhinhos
do asilo que assim, puderam comparecer mais bem vistosos nos bailinhos da
terceira idade, aos domingos. Da mesma forma agira, a diretora do centro de
ressocialização feminino, o qual Leonor, a seu pedido, visitava uma vez por
mês, para estimular a autoestima daquelas mulheres em fase de recuperação para
o convívio social.
Aos 50 anos de idade, Leonor encontrara no exercício da
sua antiga profissão, uma nova perspectiva de vida, tornando-se útil, para si
mesma e para a sociedade a qual pertencia. E tudo isso a partir de uma perda.
Agora se lembrava do marido com saudade, mas, também, com gratidão, sentimento
que até esse fato marcante em sua vida, jamais tivera por ele.
*Publicado no Jornal Aquarius, edição No. 143, Abril/2016, pág. 7
*Publicado no Jornal Aquarius, edição No. 143, Abril/2016, pág. 7

Muito lindo, a vida ensina não importa a idade. Deus capacita seus escolhidos e os chama na hora certa... É COMO O DOM DESSE ESCRITOR, ALGO DIVINO, MAS TUDO ACONTECE NA HORA CERTA...
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