Eram assim todas as tardes, enquanto na cozinha, a mesa
farta de pães e doces, e massas regadas a vinho de excelente procedência e
qualidade, eles elaboravam as suas histórias, os seus golpes, e crimes,
enquanto disputavam intermináveis partidas de truco.
Aldo não queria que eu participasse dos negócios da
família. Não fica bem pra você – ele dizia – Não deve sujar-se tão cedo.
Ele não queria que eu perdesse a ingenuidade da infância.
Não percebia talvez que isso não faria diferença com o tempo.
Você ainda não tem pelos no rosto, Édi – ele me dizia. –
Portanto, não deve sujar as mãos, nem com o vermelho do sangue derramado, muito
menos com o aroma asqueroso e desprezível de um pedaço de papel cobiçado por
todos.
Diziam naquele bairro que Aldo era bom sujeito. Ele
vestia-se com elegância. Com ternos impecáveis, sapatos brilhantes e gravatas
das mais caras. Tinha o cabelo sempre bem aparado, embora para a frustração do
seu virtuoso barbeiro, o bom e velho Toni, Aldo preferia manter o penteado
escondido por modesto chapéu panamá, que destoava um pouco da sua bem cuidada
aparência.
Ele sempre me dava roupas, porque dizia que um homem bem
vestido é mais respeitado que seu próprio caráter e conhecimento. As pessoas
julgam pela aparência, Édi – ele me dizia – E é assim desde que o mundo é
mundo, e Deus cometeu o desatino de colocar o ser humano sobre esse chão
abençoado pela natureza.
Aldo amava a natureza. Em tempo: Preferia os animais aos
seres humanos. Uma árvore, com seu tronco forte e sua copa glamorosa, era capaz
de comovê-lo muito mais que o choro de uma criança, o olhar de uma mulher à
procura de atenção.
Eu me questionava se sempre fora assim. Sempre que
passava minhas tardes sob a figueira, eu me questionava sobre estas e muitas
outras coisas a respeito do padrinho.
Era ao menos trinta anos mais velho que eu. Mas não sei por
que quando olhava para Aldo, eu me sentia como se olhasse para um meu irmão.
Irmão de sangue – devo explicar – para que não paire dúvidas a respeito.
Lembro-me daquele dia em que os rapazes chegaram ao
amanhecer. Havia grande agitação. Eles discutiam entre si. E, ao invés da
cozinha, ocupavam a sala, onde geralmente se reuniam para dividir os lucros e
festejar com as garotas o êxito de mais um trabalho. Mas naquela manhã não
havia garotas e nem sussurros. Nem copos caindo no chão, nem garrafas
estourando contra a parede. Porém, havia muita discussão. Ofensas e alguns
disparos de armas de fogo em intervalos de tempo mais ou menos regulares. O
primeiro deles contra o lustre que se espatifou espalhando sujeira por toda
sala inclusive sobre o sofá. Porque foi o cenário que encontrei, quando
finalmente tive coragem de sair do quarto para ver o que estava acontecendo, espiando pelo vão da porta.
Mas antes, enregelei-me todo, quando um dos rapazes disse
lá da sala: “E o garoto? Que faremos com ele?”.
Pensei esconder-me no guarda-roupa, debaixo da cama, ou
pular a janela. Foi o que pensei. Até me lembrar do que Aldo sempre me dizia:
Quando você crescer, e enfrentar uma situação difícil, não pense o que Deus
faria em seu lugar. Pense o que eu faria.
Foi por isso que deixei o quarto, naquela manhã, e caminhei
até a sala, de encontro ao meu destino.
Alguns rapazes estavam caídos no chão, outros sobre o sofá
e as poltronas. Alguns já entregues ao silêncio da morte, outros ainda gemendo.
E pela primeira vez na minha vida eu seria incapaz de dizer o nome de cada um
deles. Não porque não lembrasse.
Sangue havia por toda a parte. Sangue e destruição. Medo e
morte. E estas coisas adquirem outra dimensão, assustadora e insuportável
quando se têm apenas 11 anos de idade.
Ocorreu-me falar com o padre Albino. Mas a linha do
telefone estava cortada, e eu realmente já não tinha nenhuma certeza de que
conseguiria deixar aquela casa. Olhei pelo grande janelão da sala, e percebi
alguma movimentação no jardim. Era o silêncio envolvendo aos poucos todo aquele
ambiente em uma atmosfera incômoda e excitante ao mesmo tempo de apreensão e
medo.
Os cachorros não responderam ao meu assovio. Os criados não
transitavam pelo gramado, não conversavam entre si porque lá não estavam para
reclamar das atitudes do padrinho e sua costumeira falta de generosidade.
Pela primeira vez desde que Aldo me arrancara dos braços do
meu pai e me levara consigo, naquela noite da qual não me esqueço, dominada
pelo cheiro de pólvora tanto quanto aquela manhã, eu me vi só. Completamente
só. E sem destino.
Faz hoje10 anos que a cada 17 de julho eu visito esse
túmulo de mármore carrara onde não há nenhuma foto. Apenas um chapéu panamá e
um charuto, ambos de bronze, no lugar do que seria uma inscrição.
Pensei que tanto tempo depois eu me lembraria de Aldo, seu
olhar e seu sorriso, seu abraço forte e a força descomunal do seu braço direito
que lhe permitia me levantar pela bunda com a palma da mão. Nem o seu olhar,
nem o seu sorriso, nem a sua força e a sua generosidade, sua sinceridade, às
vezes mal compreendida e jamais aceita pelos que o cercavam.
Mas o seu silêncio, a escuridão que tomou conta dele e de
mim e de tudo à nossa volta, no instante em que fui o último a dirigir-lhe um
adeus, momentos antes do agente funerário fechar o caixão de zinco por meio do
qual o transportaria até a agência funerária.
Hoje, sua poltrona me pertence. E a sua caixa de charutos, eu
guardo na mesma gaveta, fechada a chave, como ele fazia.
Sempre o estilo leve e descontraído. Parabéns!
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