Percebi que ele já se
fazia distante. Se não em pessoa, ao menos em espírito. Porque se tornara
distante o seu olhar, eram sucintas as suas palavras, comedidos os seus gestos,
de modo que ele parecia desejar que sua presença se passasse despercebida. Eu ainda
estava de joelhos, as mãos unidas, os cotovelos apoiados no encosto do banco da
frente. Confesso que preferia manter os olhos fechados, não porque isso proporcionasse
melhor ambiente à oração à qual, naquele momento, eu me esforçava por me dedicar.
Mas é porque naqueles dias, não ia lá muito bem o meu relacionamento com o
Nosso Mestre, de modo que olhar para o altar e subir os olhos calmamente até a
presença do meigo Senhor, me causava certa incomodo.
Porém, uma
perturbação maior me causava a possibilidade da vida me privar da convivência do
meu melhor amigo, fiel e confessor, cúmplice e irmão de fé, por um motivo tão estúpido quanto a maldita
guerra.
Naquela hora, que se
parecia a derradeira, não me furtei ao direito de lhe questionar:
“Nos vemos?”. – eu disse
assim mesmo, contrariando a boa norma gramatical, para a qual jamais dera muita
importância.
Ele me olhou, antes
de esboçar qualquer menção de resposta. Olhou-me de novo, demoradamente,
mansamente, como era de seu feitio, e enfim, me respondeu:
“Sim. Nos vemos”.
Mas não disse quando,
nem como, nem onde. E esse fora o nosso último contato, porque na manhã
seguinte, enquanto eu cuidava de minhas obrigações, ele se fora, com todos os
seus pertences, ou seja: seu breviário, suas duas ou três mudas de roupas, seus
livros preciosos de um certo educador francês; enfim, sua esperança, eu creio, de que, de algum
modo, sua bondade e conhecimento pudessem dissipar um pouco a miséria que uma
guerra representa na vida das pessoas, que a ela se vêem envolvidas sem saberem
por qual motivo, se é que existe algum.
CONTINUA...

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