Acho
que fiz bom negócio. Acho que sim. Afinal, não é todo dia que se consegue um
Faulkner, capa dura, meio psicodélica, e onde se lê apenas o título da obra e
seu autor por apenas R$6,00.
Confesso,
porém, que não foi exatamente uma coisa e nem outra que me convenceram a
adquirir o livro. Afinal, Faulkner se deixa levar geralmente por minúcias e
parolices, algo que seu desafeto Hemingway dispensava completamente, em busca
de uma narrativa, um estilo, digamos, mais vigoroso, honesto e verdadeiro. Mas
acontece que uma das atribuições da Literatura, eu creio, é reinventar a
realidade. E a tarefa não caberia melhor a outro artífice que não fosse um
escritor, que, em breves palavras, pode ser entendido como um sujeito mais ou
menos Deus, afinal, o escritor cria e destrói vidas, ambientes, ideias,
ações... sonhos. Ele tudo pode, em um mundo que se sabe existir, mas não se vê
que não seja com os olhos da imaginação.
Bom,
o livro a que me refiro, do finado Faulkner, se trata de Luz em Agosto. E o
motivo que me convenceu a adquiri-lo, dias atrás, num sebo da cidade... Bem, o
motivo foi a dedicatória, de um tal Osvaldo para um não menos tal Nê, que diz
mais ou menos assim: “Temos apenas uma história. Todas os romances e toda a
poesia se baseiam na competição incessante entre o bem e o mal em nós mesmos”.
E por ai vai. Data de Outubro de 1995.
Luz
em Agosto, que eu pretendo ler, e talvez, com um pouco de sorte, ultrapasse meu
recorde faulkeriano que é de 71 páginas de Palmeiras Selvagens. E se eu
conseguir – puxa vida! – ficarei orgulhoso. E quem sabe até infrinja outros
castigos maquiavélicos aos meus olhos frágeis e carcomidos de tão cobiçados.
Ótimo!
Mas, como ia dizendo, Luz em Agosto começa exatamente assim, segundo o
tradutor: Sentada junto ao caminho, contemplando o carro que sobe a colina em
sua direção, Lena pensa:
Deixo
em suspenso o pensamento de Lena até que o leitor, não o de Faulkner, o meu,
resolva se interessar por isso.
Bom,
eu ainda prefiro algo como: “Sou um homem doente...
Sou mau. Não tenho atrativos. Acho que sofro do fígado. Aliás, não entendo
bulhufas da minha doença e não sei com certeza o que é que me dói. Não me
trato, nunca me tratei, embora respeite os médicos e a medicina. Além de tudo,
sou supersticioso ao extremo; bem, o bastante para respeitar a medicina.
(Tenho instrução suficiente para não ser supersticioso, mas sou.) Não,
senhores, se não quero me tratar é de raiva. Isso os senhores provavelmente
não compreendem.”
Já vou
adiantando aos mais apressadinhos, não se trata de mim a que se refere o
narrador, evidentemente, mas ao próprio, tenho lá minhas suspeitas, admirado Fiódor
Mikhailovich Dostoiévski, autor do livro Notas do Subsolo. Leiam. Se
encontrarem. Bons livros estão em falta nas prateleiras.
E pensar que o primeiro
romance de que se tem notícia foi escrito em 1008 dc. por Murasaki Shikibu,
escritora japonesa, que viveu na corte imperial da época. Chama-se História de
Genji, e retrata o cotidiano animado da vida da corte, narrando intrigas
políticas e amorosas que, por sinal, já naquele tempo, eram muitas, e serviam
de fonte de inspiração.
O
fato, meus caros é que o
amor inspira poetas. E a verdade persegue os escritores. E uns e outros,
inspiram a humanidade. E a humanidade não percebe que as dores e os prazeres
que causa e as sombras que provoca e a luz que derrama mundo a fora, é verdade
e poesia. Nem todos sabem ler com os olhos da imaginação. E da alma.


Ler com os olhos da alma...realmente não é para qualquer um.
ResponderExcluirParabéns, meu amigo !
Grande abraço