Foram
dias que não me preocupei com dinheiro, porque dinheiro mesmo não havia.
Naquela tarde, botei pra tocar no computador John Coltrane e suas coisas
favoritas. Ouvir aquelas músicas sem ter o que bebericar, sem a companhia da
loira da loja, era algo detestável. O piano de McCoy Tiner fazia o solo, e eu,
sentado na cadeira, pensava em algo mais interessante por fazer do que
descascar laranjas.
Passei
a apreciar jazz com a minha sobrinha Patsy, na época que frequentávamos os
saraus literários de nossa cidade. Num deles, houve o lançamento do livro O
Casarão do Nhonhô, da dona Maria Antonieta. Bom livrinho aquele. Adorável
passatempo. Lê-se numa pegada só, sentado no desejado trono, esperando que a
natureza cumpra o seu destino, ou à soleira da porta, enquanto, vez por outra,
se observa o gato intrometido da vizinha e suas andanças, e a movimentação do
prédio em ruínas onde se mora. Era um sábado aquele.
Todo
mundo em casa por ordem do João. Vai faltar feijão, João! E lá se importa ele com isso? Que nada! Tudo pelo bem da saúde. Difícil ter saúde quando não se tem
o que comer. E não se tem o que comer porque não se trabalha. Está proibido.
Sim, acredite, chegamos a isso. Diz a placa: É proibido! É proibido trabalhar,
sair de casa, ficar doente. É proibido fazer amor, e morrer. E se morrer, que
seja em casa, os que tem casa.
Só
mesmo John Coltrane pra me arrancar desse marasmo infernal. Hoje tomei banho.
Sábado dia de tomar banho. Tirei a roupa, pus pra lavar a roupa, e botei
bermuda, camiseta e calcei chinelos. Queria cortar o cabelo, tô precisando. Mas
onde? Tudo fechado. Esse João!
Tô
curioso pra saber onde essa coisa vai dar. Hoje ainda se tem onde morar e algo
pra comer. A luz ainda não está cortada, a água ainda não falta. A saúde ainda resiste,
bravamente. Até quando? Não sei. Ninguém sabe! Dá-lhe máscaras! Depois, o que
restará, senão sair pelo mundo? Emprego não há. Trabalho está proibido. Viver,
também.
Agora
é o próprio Coltrane que faz o solo com seu sax tenor. E deixo me levar por
aquelas notas sublimes, pensando como se sentiria o finado Kerouac no meu
lugar.
Rio
Claro, terra de uma única avenida, agora deserta. E são apenas 3 e meia da
tarde de um sábado. E o sol está fraquinho, embora reine soberano na imensidão
do céu azul porque nuvens não há. Na árvore enorme na rua lá embaixo, estão os
bem-te-vis, não se cansam de exaltar a vida. Bravos e belos bem te-vis, meus
companheiros de solidão, da qual vem me arrancar a cada manhã, à primeira luz
do dia.
Olho
para o lado, na vã esperança de encontrar a loira, mas não. Nem ela, nem o
vulto dela. Mudou o cabelo faz alguns dias. Um charme! Que vontade abraça-la e
tocar aquele cabelo, e trazer o seu rosto para junto do meu, e olhar nos seus
olhos, e falar-lhe com os olhos tudo o que sinto.
Ei,
acorde! Que horas são? Três e meia. Tem gente batendo no portão. Vá ver quem é.
Vá você. E ninguém vai. E mais duas ou três batidas no portão. E já não há mais
ninguém a esperar por mim.
Pensei
escrever sobre isso dia desses. Mas acabei esquecendo. Agora sobra tempo. E se
não anotar tudo o que vejo, e penso e sinto, tudo se perde. Sei lá! Coisa mais
estranha. As frutas voltaram a ter sabor. O ar voltou a ser respirável. O céu
mais bonito. Os passarinhos parecem mais felizes, as plantinhas parecem sorrir.
Há uma atmosfera muito agradável com a qual me deparo pela primeira vez neste
mundo. Irá durar? Será para sempre? Quem poderá dizê-lo? O João? Duvido. A
loira? Talvez. Nela eu encontro todas as respostas. O meu coração acalma, meus
olhos brilham. Ainda tenho 24 minutos para ouvir John Coltrane. E deixar me
levar por esse ritmo tão apreciável aos ouvidos. Dá vontade de botar uma roupa
bacana, ajeitar o cabelo, e preparar uma bebida. Acender um cigarrinho, talvez,
e sentar-me na poltrona da sala. E até que eu faça tudo isso, os 24 minutos que
restam para ouvir John Coltrane já terão passado. Então, eu ponho pra tocar de
novo, e tudo se repete. Esse é o problema sem solução da vida: o depois, quando
tudo se repete, e a magia da vida em seus pequenos detalhes se torna rotina.

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