quinta-feira, 16 de abril de 2020

UM BATE-PAPO À NOITE


Já faz alguns dias que não ligo a televisão. E nem ouço rádio. Tô de saco cheio com essa história de coronavírus. As notícias se repetem. Números são atualizados diariamente, e o sapato vai apertando cada vez mais. Saúde ou trabalho? Ambos. Como? Talvez, do modo indicado para toda e qualquer situação: prudência e sabedoria. Mas está difícil de encontra-las nas pessoas que nos governam. Então, os dias se repetem. O céu está mais bonito, os alimentos voltaram a ter sabor, o ar que se respira é novamente agradável. A água mais leve. Tô ficando louco, ou é isso mesmo? De certo modo, tenho receio de despertar desse sonho. Ou seria pesadelo? Nem os caras do poder sabem diferenciar uma coisa da outra, por que eu saberia?

Enfim, a uma certa hora da noite, o silêncio se faz presente. Boa noite, silêncio, quanto tempo! Por onde andava? Pois é. Vamos aos fatos. O trabalho da noite consistia em fazer o tempo passar. E, para isso, nada melhor que os livros. E eu os tinha, e bastante.  Autores nacionais e estrangeiros.
Antes de lançar mãos dos livros, porém, abri a garrafinha de Coca-Cola 600 ml, sem açúcar (é o que diz a propaganda). O copo encheu rapidamente, de espuma. Esperei que ela baixasse, e fui completando aos poucos, com o líquido precioso até encher o copo. Tomei um gole da bebida, mas quase cuspi, estava muito quente. Eu a havia tirado da geladeira por volta de 4 da tarde, e já era quase 10 da noite.
Fui aos livros. Tentei Caetés, do Graciliano, e, depois, São Bernardo. Estavam no mesmo volume. Aquela edição livro “vira-vira”, de bolso, editada pelo governo de São Paulo, pelos idos de... não importa.
Mas embora apreciasse muito Graciliano, decidi que Flaubert, talvez, me desse melhor sorte. Vinha lendo Madame Bovary já fazia alguns meses. Devagar, bem devagar, como diria Herberto, o poeta.
Pela tarde, enquanto fazia arroz no micro-ondas, arrisquei com Stendhal e seu Cartuxa de Parma. Que sujeitinho idiota aquele Fabricio!
Bom, o fato, é que já haviam se passado 25 minutos, depois que fizéramos via whats’app a prece das 8 da noite, da qual participavam os amigos de Rio Claro e de Ipeúna.
E eu havia conseguido, enfim, escrever o resumo do livro que eu mesmo havia escrito. Não, espera, é verdade! Não ria não, caro leitor. Levou dias para que eu conseguisse. Mas, ora, vejam só! Que façanha resumir 159 páginas em apenas 13, e, em apenas, alguns minutos. É o eficiente método adquirido nos poucos meses que trabalhei na redação de um jornal local: Sente e escreva! E que sai alguma coisa, ah, isso sai! O tempo vale ouro. E como dizia mamãe: saco vazio não para de pé.
Nesse ofício de escrever, de início, é tudo porcaria, nada se aproveita, mas aí, pega-se o jeito, cria-se um modo, às vezes mecânico, às vezes, intuitivo de fazer a coisa acontecer. E acontece.
Então, inicia-se o percurso de começo, meio e fim, e as palavras vão surgindo, num ritmo e numa ordem por vezes alucinante que, fica até difícil de compreender. Cada doido com sua mania.
Qual seria a do Eça de Queiroz? É o que penso quando me deparo com seu livro O Crime do Padre Amaro, deixado estrategicamente, sobre a impressora, ao alcance de minha mão. Vejamos. O marcador de página indica que parei no capítulo 12, página 205, que assim inicia: Ao outro dia cedo, a sra. Josefa, que entrara havia pouco da missa, ficou muito surpreendida ouvindo a criada que lavava as escadas de baixo dizer:
Descubra você, caro leitor. Arrisque-se à leitura do romance do escritor bigodudo que viveu entre 1845 a 1900, em Portugal. Deixo que o padre Amaro continue aprontando das suas.
Vou me ater agora ao nosso mui bueno amigo Adolfo e o seu O Sonho dos Heróis. Estou para iniciar o capítulo 23, quando o cornão do Gauna está a passear de bonde, pensando em Clara, em Baumgarten e por aí. Melhor eu pular desse bonde.
Talvez eu vá ouvir um Solo de Clarineta do Veríssimo papai. É a parte, onde, presumo, ele vai parar de falar do avô e começar a falar um pouco de si mesmo. Afinal, todo mundo deseja saber sobre a intimidade de um escritor. Geralmente, uma bela porcaria tais confidências, pois não, mas, o ser humano, é movido à curiosidade.
Deixe-me ver... Uma passadela de olhos pelo quarto bagunçado... Ah, sim!  O Fundador, do Aydano, esse eu já terminei. Livrinho bacaninha, que a gente termina com gostinho de quero mais. História do Tomé de Souza, primeiro governador geral do Brasil. A coisa já é avacalhada desde sua origem. Isso talvez explique a desgraça.
Mas, olhando assim, para a estante, recordo cheio de esperança que ainda tenho 100 dos melhores contos brasileiros para me atirar sobre, numa daquelas noite que o sono me abandona, e são muitas. O recém falecido Rubem Fonseca, passando por Machado, Sabino, Osman, Scliar, Cony, Trevisan e outros. Esse livrinho era do meu pai. Não é bem um livrinho, são 600 páginas, aproximadamente. Emprestei e nunca devolvi. Esta vai ser daquelas noites. Tela do word aberta, em branco. Acho que vou fazer um café. Afinal, no outono, Suave é a Noite, e terei de atravessá-la, acordado, até que o sol, também se levante. Acho que o tio Ernie iria apreciar esse período, se estivesse aqui. Talvez esteja.


Nenhum comentário:

Postar um comentário