Já
faz alguns dias que não ligo a televisão. E nem ouço rádio. Tô de saco cheio com
essa história de coronavírus. As notícias se repetem. Números são atualizados
diariamente, e o sapato vai apertando cada vez mais. Saúde ou trabalho? Ambos.
Como? Talvez, do modo indicado para toda e qualquer situação: prudência e
sabedoria. Mas está difícil de encontra-las nas pessoas que nos governam.
Então, os dias se repetem. O céu está mais bonito, os alimentos voltaram a ter
sabor, o ar que se respira é novamente agradável. A água mais leve. Tô ficando
louco, ou é isso mesmo? De certo modo, tenho receio de despertar desse sonho.
Ou seria pesadelo? Nem os caras do poder sabem diferenciar uma coisa da outra,
por que eu saberia?
Enfim,
a uma certa hora da noite, o silêncio se faz presente. Boa noite, silêncio,
quanto tempo! Por onde andava? Pois é. Vamos aos fatos. O trabalho da noite
consistia em fazer o tempo passar. E, para isso, nada melhor que os livros. E
eu os tinha, e bastante. Autores
nacionais e estrangeiros.
Antes
de lançar mãos dos livros, porém, abri a garrafinha de Coca-Cola 600 ml, sem
açúcar (é o que diz a propaganda). O copo encheu rapidamente, de espuma.
Esperei que ela baixasse, e fui completando aos poucos, com o líquido precioso
até encher o copo. Tomei um gole da bebida, mas quase cuspi, estava muito
quente. Eu a havia tirado da geladeira por volta de 4 da tarde, e já era quase
10 da noite.
Fui
aos livros. Tentei Caetés, do Graciliano, e, depois, São Bernardo. Estavam no
mesmo volume. Aquela edição livro “vira-vira”, de bolso, editada pelo governo
de São Paulo, pelos idos de... não importa.
Mas
embora apreciasse muito Graciliano, decidi que Flaubert, talvez, me desse
melhor sorte. Vinha lendo Madame Bovary já fazia alguns meses. Devagar, bem
devagar, como diria Herberto, o poeta.
Pela
tarde, enquanto fazia arroz no micro-ondas, arrisquei com Stendhal e seu
Cartuxa de Parma. Que sujeitinho idiota aquele Fabricio!
Bom,
o fato, é que já haviam se passado 25 minutos, depois que fizéramos via whats’app
a prece das 8 da noite, da qual participavam os amigos de Rio Claro e de Ipeúna.
E eu
havia conseguido, enfim, escrever o resumo do livro que eu mesmo havia escrito.
Não, espera, é verdade! Não ria não, caro leitor. Levou dias para que eu
conseguisse. Mas, ora, vejam só! Que façanha resumir 159 páginas em apenas 13, e,
em apenas, alguns minutos. É o eficiente método adquirido nos poucos meses que
trabalhei na redação de um jornal local: Sente e escreva! E que sai alguma
coisa, ah, isso sai! O tempo vale ouro. E como dizia mamãe: saco vazio não para
de pé.
Nesse
ofício de escrever, de início, é tudo porcaria, nada se aproveita, mas aí,
pega-se o jeito, cria-se um modo, às vezes mecânico, às vezes, intuitivo de
fazer a coisa acontecer. E acontece.
Então,
inicia-se o percurso de começo, meio e fim, e as palavras vão surgindo, num
ritmo e numa ordem por vezes alucinante que, fica até difícil de compreender. Cada
doido com sua mania.
Qual
seria a do Eça de Queiroz? É o que penso quando me deparo com seu livro O Crime
do Padre Amaro, deixado estrategicamente, sobre a impressora, ao alcance de
minha mão. Vejamos. O marcador de página indica que parei no capítulo 12,
página 205, que assim inicia: Ao outro
dia cedo, a sra. Josefa, que entrara havia pouco da missa, ficou muito
surpreendida ouvindo a criada que lavava as escadas de baixo dizer:
Descubra
você, caro leitor. Arrisque-se à leitura do romance do escritor bigodudo que
viveu entre 1845 a 1900, em Portugal. Deixo que o padre Amaro continue
aprontando das suas.
Vou
me ater agora ao nosso mui bueno amigo Adolfo e o seu O Sonho dos Heróis. Estou
para iniciar o capítulo 23, quando o cornão do Gauna está a passear de bonde,
pensando em Clara, em Baumgarten e por aí. Melhor eu pular desse bonde.
Talvez
eu vá ouvir um Solo de Clarineta do Veríssimo papai. É a parte, onde, presumo,
ele vai parar de falar do avô e começar a falar um pouco de si mesmo. Afinal,
todo mundo deseja saber sobre a intimidade de um escritor. Geralmente, uma bela
porcaria tais confidências, pois não, mas, o ser humano, é movido à
curiosidade.
Deixe-me
ver... Uma passadela de olhos pelo quarto bagunçado... Ah, sim! O Fundador, do Aydano, esse eu já terminei.
Livrinho bacaninha, que a gente termina com gostinho de quero mais. História do
Tomé de Souza, primeiro governador geral do Brasil. A coisa já é avacalhada
desde sua origem. Isso talvez explique a desgraça.
Mas,
olhando assim, para a estante, recordo cheio de esperança que ainda tenho 100
dos melhores contos brasileiros para me atirar sobre, numa daquelas noite que o
sono me abandona, e são muitas. O recém falecido Rubem Fonseca, passando por
Machado, Sabino, Osman, Scliar, Cony, Trevisan e outros. Esse livrinho era do
meu pai. Não é bem um livrinho, são 600 páginas, aproximadamente. Emprestei e
nunca devolvi. Esta vai ser daquelas noites. Tela do word aberta, em branco.
Acho que vou fazer um café. Afinal, no outono, Suave é a Noite, e terei de
atravessá-la, acordado, até que o sol, também se levante. Acho que o tio Ernie
iria apreciar esse período, se estivesse aqui. Talvez esteja.

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