sábado, 25 de abril de 2020

VIVA COM FÉ, AMOR E RESPONSABILIDADE


É hábito dizer que ninguém morre antes da hora. E é verdade. Se a pessoa tem 100 anos para viver, ela os viverá plenamente, e não lhe faltará um segundo sequer desse tempo, quaisquer que sejam as circunstâncias.
Há, porém, situações que, a pessoa pode abreviar sua vida. A primeira delas, é quando o faz deliberadamente, toma uma atitude extrema e põe termo à própria vida. A isso dá-se o nome de suicídio voluntário.
A outra, é quando a pessoa vai pondo termo à vida, aos poucos, através de hábitos desregrados que vão comprometendo a sua saúde, e por hábitos desregrados entenda-se a má e excessiva alimentação, e também quando à pessoa se entrega aos pensamentos destrutivos, cultivando tristeza e pessimismo sem opor resistência. Mas, também, quando se entrega sem resistência aos vícios de toda sorte, sobretudo, àqueles que agridem ao corpo físico, esse santuário da vida, através do qual, nós espíritos, vivendo a experiência da vida humana, nos manifestamos nesse mundo de materialidade densa, onde tudo é transitório e circunstancial.

A essa prática, originada mais a partir da ignorância do que da vontade própria do indivíduo, dá-se o nome de suicídio involuntário, ou seja, aquele que a pessoa abrevia seu tempo de vida sem que tenha, entretanto, a vontade expressa de fazê-lo.
Logo, não tomar os devidos cuidados nesse tempo de pandemia do coronavírus, aqueles preconizados pelas autoridades sanitárias, como, por exemplo, o uso de máscara, a lavagem constante das mãos e o distanciamento social, é sujeitar-se a um possível suicídio involuntário, atitude absolutamente recriminável, porque revela duas fraquezas da pessoa, seu descompromisso para com a própria vida e seu descaso para com a vida alheia, porque, a doença disseminada atualmente no mundo, o covid-19, tem elevado risco de contágio.
Sabe-se de pessoas com idade avançada que contraíram a doença e dela se recuperaram. Na Itália, um senhor de 105 anos, em Rio Claro, cidade onde moro, uma senhora de 89, como divulgado pela imprensa. Ou seja, se você tem 100 anos pra viver, não viverá apenas 99, e talvez viva 105, se, é claro, não contribuir deliberadamente, para abreviar seu tempo de existência.
Portanto, temer a morte, jamais, ela é fato certo e inevitável na vida de todos nós. E temer contrair a doença, menos ainda, se a pessoa, evidentemente, tomar os devidos cuidados.
Vivamos em paz, confiantes no progresso da Ciência, somando esforços com os profissionais de saúde, não aumentando deliberadamente, a sua carga de trabalho, já tão imensa e exaustiva.
Cuidemo-nos. Façamos o nosso melhor. Preservemos a nossa saúde, o bem mais precioso da vida, que nos permite viver, trabalhar e contribuir de alguma forma, para o progresso da sociedade humana, a qual, no momento, pertencemos.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

EU NÃO CONCORDO


Antigamente era melhor. Que nada! Ontem, recebi do querido primo Emilio uma mensagem via what’s app, na qual, uma imagem sugeria que as pessoas eram mais confiáveis no passado.
Será? Tenho lá minhas dúvidas. Os antigos falam que acordos, contratos e promessas eram feitas no fio do bigode, sem assinaturas e nem papéis registrados em cartório, e eram cumpridos.
Então, porque será que surgiram os cartórios, onde se firmam compromissos envolvendo interesses mútuos?

Penso que a honestidade de antigamente, era mais resultado do medo, imposto pelas autoridades educacionais, militares, religiosas e até civis, do que por consciência e educação.
Tanto é assim, que, nesses tempos de liberdade desmedida, que vivemos, as pessoas facilmente revelam o que são, quando forçadas a expor seu caráter. E a surpresa, via de regra, não é nada boa.
Os tribunais estão abarrotados de processos, muitos dos quais, até prescrevem. Ora, um processo surge quando alguém se vê prejudicado em seus direitos. E não há prejuízo sem autor, e a esse dá-se o nome de ser humano.
Todavia, é inegável que ao longo das décadas do século XX e nesse primeiros anos do século XXI, a sociedade humana aperfeiçoou-se moralmente, ao menos um pouco, mas, progresso houve. A consciência ecológica adquirida, as iniciativas de segmentos da sociedade civil e governamentais para assistência das pessoas mais necessitadas algo que antes, restringia-se apenas às instituições religiosas, são provas disso.
Ainda há, é inegável, a desonestidade e o egoísmo da classe política, que administra as riquezas produzidas, não por eles, que nada produzem, mas pela nação. Isso será corrigido, quando houver uma maior consciência política por parte da população brasileira, que vê no político um facilitador para obtenção de seus interesses, trocando o seu poder, contido no voto, por um mero favor em benefício próprio.
Ora, o mesmo não fazem os políticos quando no exercício dos seus mandatos? Não visam apenas o benefício de si próprios. Não fosse assim, sentiriam vergonha de seus privilégios, em meio a um povo, que passa tantas privações, quando bem precisaria não passá-las, porque através do seu esforço e trabalho gera a riqueza que tornaria viável uma melhor qualidade de vida que atendesse às suas necessidades básicas.
Mas, mesmo naquilo que temos de pior, que é a nossa classe política, hoje é possível ver algo de bom, de mais humano, mais altruísta, mais atento e interessado no bem-comum. O que prova que, também nesse aspecto, melhoramos.
No que diz respeito às relações humanas, costuma-se igualmente dizer que, antigamente era melhor. Será? As crianças eram castigadas, por vezes, injustamente, sem direito a reclamar. Os maridos traíam as esposas, e as esposas traíam os maridos, sem remorso, que não fosse eliminado por uma boa confissão. Os empregados eram explorados pelos patrões. O alimento industrializado, tão necessário a uma sociedade moderna, onde tempo é dinheiro, era mais veneno que alimento.
Na área da saúde, diagnóstico de câncer (palavra que era inclusive evitada o tanto quanto possível, por absoluto pudor) era atestado de morte. Não havia SUS, que pode ainda não ser a oitava maravilha do mundo, mas, assiste muito bem, as pessoas que não podem, e são muitas, pagar os escorchantes valores de um plano de saúde.
Remédios de uso contínuo para tratar de doenças crônicas, como a diabetes, não havia de graça. As roupas não tinham a sofisticação e o conforto que hoje proporcionam. Os calçados, alguns, assemelhavam-se a verdadeiras ferraduras. Ok, duravam mais. E, por conseguinte, também faziam sofrer mais, os cansados pezinhos de madames e cavalheiros.
O transporte urbano, ora, quantas linhas de ônibus haviam numa cidade como Rio Claro? Duas ou três. Bondes não haviam, pra turma viajar pendurado. Haviam charretes e chofér’s, mas eram caros. Então, o jeito era ir de camelo, também conhecido à boca amiúde como, a pé, ou de bicicleta, quem as tinha. Os empregados da Cia. Paulista, eles tinham. Eram os melhores salários à época.
Farmácias, hoje esbarra-se com uma a cada esquina. Antigamente, muitas vezes, era preciso acordar o farmacêutico no meio da noite, em busca de um remédio, um atendimento emergencial.
Políticas públicas? Pergunte isso hoje a alguém na casa dos 80, 90 anos, ele vai dar risada, certamente. Era um pra si e Deus pra todos. Amém!
Por isso que eu não concordo, não senhor, que, antigamente era melhor. Não era, não. Nada era melhor. Nem mesmos os aparelhos eletrônicos, os móveis, os utensílios domésticos, que apenas duravam mais, porém, eram feios pra diabo e de difícil instalação e locomoção e desconfortáveis.
Talvez, por haver menos gente e as cidades serem menores, os problemas, na mesma proporção, eram menores, mas, igualmente, existiam.
Fazê-los desaparecerem é tarefa que cabe ao progresso, no decorrer do tempo, conduzido por pessoas de bem, dispostas realmente, a fazerem algo de bom e verdadeiro, de suas vidas, em benefício de todos, e não apenas de uma parcela privilegiada da população.


sábado, 18 de abril de 2020

UMA TARDE DIFERENTE


Foram dias que não me preocupei com dinheiro, porque dinheiro mesmo não havia. Naquela tarde, botei pra tocar no computador John Coltrane e suas coisas favoritas. Ouvir aquelas músicas sem ter o que bebericar, sem a companhia da loira da loja, era algo detestável. O piano de McCoy Tiner fazia o solo, e eu, sentado na cadeira, pensava em algo mais interessante por fazer do que descascar laranjas.

Passei a apreciar jazz com a minha sobrinha Patsy, na época que frequentávamos os saraus literários de nossa cidade. Num deles, houve o lançamento do livro O Casarão do Nhonhô, da dona Maria Antonieta. Bom livrinho aquele. Adorável passatempo. Lê-se numa pegada só, sentado no desejado trono, esperando que a natureza cumpra o seu destino, ou à soleira da porta, enquanto, vez por outra, se observa o gato intrometido da vizinha e suas andanças, e a movimentação do prédio em ruínas onde se mora. Era um sábado aquele.
Todo mundo em casa por ordem do João. Vai faltar feijão, João! E  lá se importa ele com isso? Que nada! Tudo pelo bem da saúde. Difícil ter saúde quando não se tem o que comer. E não se tem o que comer porque não se trabalha. Está proibido. Sim, acredite, chegamos a isso. Diz a placa: É proibido! É proibido trabalhar, sair de casa, ficar doente. É proibido fazer amor, e morrer. E se morrer, que seja em casa, os que tem casa.
Só mesmo John Coltrane pra me arrancar desse marasmo infernal. Hoje tomei banho. Sábado dia de tomar banho. Tirei a roupa, pus pra lavar a roupa, e botei bermuda, camiseta e calcei chinelos. Queria cortar o cabelo, tô precisando. Mas onde? Tudo fechado. Esse João!
Tô curioso pra saber onde essa coisa vai dar. Hoje ainda se tem onde morar e algo pra comer. A luz ainda não está cortada, a água ainda não falta. A saúde ainda resiste, bravamente. Até quando? Não sei. Ninguém sabe! Dá-lhe máscaras! Depois, o que restará, senão sair pelo mundo? Emprego não há. Trabalho está proibido. Viver, também.
Agora é o próprio Coltrane que faz o solo com seu sax tenor. E deixo me levar por aquelas notas sublimes, pensando como se sentiria o finado Kerouac no meu lugar.
Rio Claro, terra de uma única avenida, agora deserta. E são apenas 3 e meia da tarde de um sábado. E o sol está fraquinho, embora reine soberano na imensidão do céu azul porque nuvens não há. Na árvore enorme na rua lá embaixo, estão os bem-te-vis, não se cansam de exaltar a vida. Bravos e belos bem te-vis, meus companheiros de solidão, da qual vem me arrancar a cada manhã, à primeira luz do dia.
Olho para o lado, na vã esperança de encontrar a loira, mas não. Nem ela, nem o vulto dela. Mudou o cabelo faz alguns dias. Um charme! Que vontade abraça-la e tocar aquele cabelo, e trazer o seu rosto para junto do meu, e olhar nos seus olhos, e falar-lhe com os olhos tudo o que sinto.
Ei, acorde! Que horas são? Três e meia. Tem gente batendo no portão. Vá ver quem é. Vá você. E ninguém vai. E mais duas ou três batidas no portão. E já não há mais ninguém a esperar por mim.
Pensei escrever sobre isso dia desses. Mas acabei esquecendo. Agora sobra tempo. E se não anotar tudo o que vejo, e penso e sinto, tudo se perde. Sei lá! Coisa mais estranha. As frutas voltaram a ter sabor. O ar voltou a ser respirável. O céu mais bonito. Os passarinhos parecem mais felizes, as plantinhas parecem sorrir. Há uma atmosfera muito agradável com a qual me deparo pela primeira vez neste mundo. Irá durar? Será para sempre? Quem poderá dizê-lo? O João? Duvido. A loira? Talvez. Nela eu encontro todas as respostas. O meu coração acalma, meus olhos brilham. Ainda tenho 24 minutos para ouvir John Coltrane. E deixar me levar por esse ritmo tão apreciável aos ouvidos. Dá vontade de botar uma roupa bacana, ajeitar o cabelo, e preparar uma bebida. Acender um cigarrinho, talvez, e sentar-me na poltrona da sala. E até que eu faça tudo isso, os 24 minutos que restam para ouvir John Coltrane já terão passado. Então, eu ponho pra tocar de novo, e tudo se repete. Esse é o problema sem solução da vida: o depois, quando tudo se repete, e a magia da vida em seus pequenos detalhes se torna rotina.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

UM BATE-PAPO À NOITE


Já faz alguns dias que não ligo a televisão. E nem ouço rádio. Tô de saco cheio com essa história de coronavírus. As notícias se repetem. Números são atualizados diariamente, e o sapato vai apertando cada vez mais. Saúde ou trabalho? Ambos. Como? Talvez, do modo indicado para toda e qualquer situação: prudência e sabedoria. Mas está difícil de encontra-las nas pessoas que nos governam. Então, os dias se repetem. O céu está mais bonito, os alimentos voltaram a ter sabor, o ar que se respira é novamente agradável. A água mais leve. Tô ficando louco, ou é isso mesmo? De certo modo, tenho receio de despertar desse sonho. Ou seria pesadelo? Nem os caras do poder sabem diferenciar uma coisa da outra, por que eu saberia?

Enfim, a uma certa hora da noite, o silêncio se faz presente. Boa noite, silêncio, quanto tempo! Por onde andava? Pois é. Vamos aos fatos. O trabalho da noite consistia em fazer o tempo passar. E, para isso, nada melhor que os livros. E eu os tinha, e bastante.  Autores nacionais e estrangeiros.
Antes de lançar mãos dos livros, porém, abri a garrafinha de Coca-Cola 600 ml, sem açúcar (é o que diz a propaganda). O copo encheu rapidamente, de espuma. Esperei que ela baixasse, e fui completando aos poucos, com o líquido precioso até encher o copo. Tomei um gole da bebida, mas quase cuspi, estava muito quente. Eu a havia tirado da geladeira por volta de 4 da tarde, e já era quase 10 da noite.
Fui aos livros. Tentei Caetés, do Graciliano, e, depois, São Bernardo. Estavam no mesmo volume. Aquela edição livro “vira-vira”, de bolso, editada pelo governo de São Paulo, pelos idos de... não importa.
Mas embora apreciasse muito Graciliano, decidi que Flaubert, talvez, me desse melhor sorte. Vinha lendo Madame Bovary já fazia alguns meses. Devagar, bem devagar, como diria Herberto, o poeta.
Pela tarde, enquanto fazia arroz no micro-ondas, arrisquei com Stendhal e seu Cartuxa de Parma. Que sujeitinho idiota aquele Fabricio!
Bom, o fato, é que já haviam se passado 25 minutos, depois que fizéramos via whats’app a prece das 8 da noite, da qual participavam os amigos de Rio Claro e de Ipeúna.
E eu havia conseguido, enfim, escrever o resumo do livro que eu mesmo havia escrito. Não, espera, é verdade! Não ria não, caro leitor. Levou dias para que eu conseguisse. Mas, ora, vejam só! Que façanha resumir 159 páginas em apenas 13, e, em apenas, alguns minutos. É o eficiente método adquirido nos poucos meses que trabalhei na redação de um jornal local: Sente e escreva! E que sai alguma coisa, ah, isso sai! O tempo vale ouro. E como dizia mamãe: saco vazio não para de pé.
Nesse ofício de escrever, de início, é tudo porcaria, nada se aproveita, mas aí, pega-se o jeito, cria-se um modo, às vezes mecânico, às vezes, intuitivo de fazer a coisa acontecer. E acontece.
Então, inicia-se o percurso de começo, meio e fim, e as palavras vão surgindo, num ritmo e numa ordem por vezes alucinante que, fica até difícil de compreender. Cada doido com sua mania.
Qual seria a do Eça de Queiroz? É o que penso quando me deparo com seu livro O Crime do Padre Amaro, deixado estrategicamente, sobre a impressora, ao alcance de minha mão. Vejamos. O marcador de página indica que parei no capítulo 12, página 205, que assim inicia: Ao outro dia cedo, a sra. Josefa, que entrara havia pouco da missa, ficou muito surpreendida ouvindo a criada que lavava as escadas de baixo dizer:
Descubra você, caro leitor. Arrisque-se à leitura do romance do escritor bigodudo que viveu entre 1845 a 1900, em Portugal. Deixo que o padre Amaro continue aprontando das suas.
Vou me ater agora ao nosso mui bueno amigo Adolfo e o seu O Sonho dos Heróis. Estou para iniciar o capítulo 23, quando o cornão do Gauna está a passear de bonde, pensando em Clara, em Baumgarten e por aí. Melhor eu pular desse bonde.
Talvez eu vá ouvir um Solo de Clarineta do Veríssimo papai. É a parte, onde, presumo, ele vai parar de falar do avô e começar a falar um pouco de si mesmo. Afinal, todo mundo deseja saber sobre a intimidade de um escritor. Geralmente, uma bela porcaria tais confidências, pois não, mas, o ser humano, é movido à curiosidade.
Deixe-me ver... Uma passadela de olhos pelo quarto bagunçado... Ah, sim!  O Fundador, do Aydano, esse eu já terminei. Livrinho bacaninha, que a gente termina com gostinho de quero mais. História do Tomé de Souza, primeiro governador geral do Brasil. A coisa já é avacalhada desde sua origem. Isso talvez explique a desgraça.
Mas, olhando assim, para a estante, recordo cheio de esperança que ainda tenho 100 dos melhores contos brasileiros para me atirar sobre, numa daquelas noite que o sono me abandona, e são muitas. O recém falecido Rubem Fonseca, passando por Machado, Sabino, Osman, Scliar, Cony, Trevisan e outros. Esse livrinho era do meu pai. Não é bem um livrinho, são 600 páginas, aproximadamente. Emprestei e nunca devolvi. Esta vai ser daquelas noites. Tela do word aberta, em branco. Acho que vou fazer um café. Afinal, no outono, Suave é a Noite, e terei de atravessá-la, acordado, até que o sol, também se levante. Acho que o tio Ernie iria apreciar esse período, se estivesse aqui. Talvez esteja.


terça-feira, 14 de abril de 2020

UM ABRAÇO DE 8 SEGUNDOS

A música que tocava no rádio não lhe significava absolutamente nada. Eram quase 6 horas da tarde. Não gostava nenhum pouco do horário entre 6 da tarde e 7 da noite. As piores coisas de sua vida aconteceram nesse horário. Foi nesse horário que a mãe morreu. O pai, fora um pouco depois, por volta de 7 e 15 da noite. Horário besta esse pra morrer. Todo mundo preocupado com a janta, e algumas pessoas pensando em morrer.

Aqueles eram dias nada fáceis. As pessoas eram obrigadas a ficar em casa. Trabalhar em casa. Comer em casa. Passar mal em casa. E amar em casa. Hábitos que haviam caído em desuso naqueles últimos tempos, quando a vida se tornara ainda mais corrida, ainda mais exigente, ainda mais apertada. E o que sobrava da vida? Instantes, minutos de satisfação, por alguma vitória, alguma conquista efêmera, que talvez pudesse ser, por exemplo, uma grana a mais no pagamento do mês, um aperto de mão do chefe, um convite pra jantar com a cobiçada colega de trabalho, que enfim, recebera sua merecida promoção.
Agora, contudo, nada disso parecia ter importância. A saudade ocupava um espaço além do conveniente na mente e no coração das pessoas. Saudade de caminhar pelas ruas, de sentar-se no banco da praça, nas manhãs de domingo, para ler um livro, enquanto outas pessoas, entram e saem da igreja, algumas apressadas, outras, desatentas.
Saudade de bater o cartão, ao chegar na empresa para mais um dia de trabalho. Saudade dos companheiros de trabalho, das reuniões cansativas, infrutíferas, modorrentas, onde tudo se anotava, resultado de conclusões que iam se modificando nas horas seguintes, e metas estabelecidas jamais alcançadas. Mas tudo parecia perder importância já no dia seguinte, quando os problemas eram outros, e exigiam outro tipo de preocupação e a busca por outras soluções.
As manhãs, agora, demoravam a passar. Descobrira o prazer de alimentar os pássaros com farelos de pão e bolacha. Voltara a falar com Deus. A agradecer por mais um dia, pela noite bem dormida, pela roupa que cobria a nudez, pelo café da manhã que não lhe faltava, ainda. Passara a olhar todas as manhãs na direção do sol para agradecê-lo. Bendito sol! Querido companheiro, que alegrava o dia com sua luz divinal. Percebia agora com admiração as cores da natureza, o gorjeio dos pássaros, alguns nas árvores, outros na fiações dos postes. Mas, todos eles, parecendo dar bom dia à vida que recomeçava.
À tarde, dividia o tempo entre a leitura e a escrita. A leitura ia muito bem. Reaprendera o caminho para um mundo além deste, para onde a leitura nos leva. Enfim, pudera se ocupar dos livros adormecidos na estante havia muito tempo. A escrita, nem tanto. Continuava a lutar bravamente com suas limitações. Almejava muito e obtinha bem pouco. Seu nível de exigência não lhe permitia dar-se por satisfeito. O problema é que não chegava a lugar algum, embora visse o lugar desejado, como o viajante sedento em pleno deserto vê a imagem de um oásis ao longe.
E a noite vem. Mais uma batalha vencida. Sobrevivera mais um dia. Convivendo com a solidão, interrompida pela visita inesperada da filha com a namorada. A filha cujo nome significava vida em abundância, a filha que tinha sempre um sorriso e um olhar meigo a lhe oferecer. A filha forte, destemida pra enfrentar a incapacidade das pessoas para entender o óbvio: o amor, tem muitas faces, todas elas agradáveis a Deus, desde que seja amor.
Iria recolher-se aos seus aposentos naquela noite, um tanto mais feliz. A companhia da filha querida sempre lhe fizera muito bem. Talvez apanhasse o seu velho caderno de notas, onde então, escreveria as reminiscências daquele dia. Entre lembranças e aspirações, o que chegaria ao papel de modo mais contundente e verdadeiro? Não sabia.
Sentou-se na cadeira e, enquanto descascava laranjas, após comer um lanche, lembrou-se de quem fazia a sua alma sorrir. Era a mesma pessoa que, quando lhe abraçava, aquele abraço forte, gostoso, generoso de 8 segundos, o tornava, ao menos durante 8 segundos, a pessoa mais feliz do mundo. Onde estaria agora essa pessoa? Talvez a encontrasse novamente nos seus sonhos, durante a noite. E talvez, como no mais bonito dos sonhos, caminhasse com ela, de mãos dadas por um jardim. Ao lado dela, encontrava a desejada paz. Era o bastante para fazê-lo sentir-se feliz e realizado.